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Juros mais baixos na Europa?

Na opinião de muitos economistas, as armas do banco central europeu (ECB) estão acabando, infelizmente. Combater choques econômicos, portanto, parece cada vez mais difícil. Desde que Mario Draghi, o chefe do ECB, afirmou em junho que poderia adotar mais estímulos se fosse necessário, a Zona do Euro pouco melhorou. Assim, são crescentes as expectativas quanto a cortes de juros na Europa. Mas há espaço? O que esperar para os próximos meses? Há outras alternativas? Neste texto, discuto um pouco este cenário europeu, e pontos que devem ser discutidos num futuro próximo visando manter um banco central crível e com poder de reação.

No atual momento, as taxas de juros na Europa já estão baixíssimas (sobre as reservas dos bancos, por exemplo, o ECB aplicada juros negativos), e o programa de compra de ativos (o chamado “quantitative-easing”) já chegou a aproximados 3 trilhões de dólares — montante equivalente a um quinto do PIB da Zona do Euro. Grosso modo, os “problemas” são os seguintes: (1) além de ser prejudicial para a atividade dos bancos (dada a diminuição de suas margens), há um limite para a efetividade dos juros negativos como forma de estimular a economia; e (2) regras auto-impostas pelo ECB quanto às compras de ativos (a instituição não pode deter mais de 33% da dívida de um país, por exemplo) precisão ser revisadas, passando por árduas e polêmicas discussões entre líderes da Zona do Euro. Neste contexto, como reagirá o ECB, caso precise? O que fará para reanimar as economias do bloco num futuro próximo? Sem uma resposta clara no momento, uma combinação das estratégias utilizadas até aqui parece ser o mais plausível.

Nesta quinta-feira (25), Draghi e Cia. se reúnem em Frankfurt, na Alemanha, para discutir sobre a política monetária da região. Será importante monitorar este encontro, dado que é possível que algo seja sinalizado ao mercado. O mais provável é que o ECB tente preparar o terreno para alguma medida/sinalização mais concreta na seguinte reunião, em setembro (dia 12). Aliás, vale notar que as expectativas dos investidores são crescentes em relação a um corte de juros nos próximos meses — algo que contrasta cada vez mais com a estabilidade das taxas até meados de 2020 que o próprio ECB vinha “prometendo”. Neste encontro de setembro, diga-se de passagem, o ECB divulgará uma atualização sobre as suas projeções oficiais de inflação e crescimento — algo que contribui para explicar qualquer postura/ação que a instituição possa decidir tomar. Se a Zona do Euro não mostrar alguma recuperação mais clara até lá (e parece difícil esperar isto no curto prazo), o mais razoável é imaginar que estas expectativas dos investidores por mais estímulos cresçam cada vez mais.

Quanto às taxas de juros, é preciso notar que a partir de um certo ponto os juros negativos podem aumentar o risco sistêmico do mercado financeiro como um todo, incentivando o chamado shadow banking, por exemplo — atividades que estão fora do radar e das regras do sistema formal. Além disso, ao reduzirem os spreads, tornam a vida dos bancos mais problemática, e todos sabemos que uma crise bancária costuma ser mais custosa e perigosa para a sociedade como um todo do que uma “mera” recessão econômica. No momento, bancos como o Deutsche Bank são vistos como frágeis, e não deveríamos menosprezar que mais dificuldades viessem à tona. O “remédio” dos juros mais baixos pode, se a dose for maior do que a necessária, causar mais problemas adiante.

O programa e as regras das compras de ativos por parte do ECB também podem passar por revisões, tentando aumentar a capacidade que a instituição tem para reagir ao cenário econômico. Para manter crível a “promessa” de ajuda do ECB à economia será imprescindível aumentar o “teto” auto imposto dos 33% que comentei anteriormente, por exemplo. Discussões meses atrás parecem ter começado a sugerir um aumento para 50%, mas não é nada garantido. Seja como for, uma discussão mais ampla sobre o programa de compras de ativos do ECB — não só de títulos soberanos, mas também de ativos privados — será necessária. Isto, é claro, não só recairá sobre os últimos meses de gestão de Mario Draghi, mas principalmente sobre Christine Lagarde, a recém-escolhida sucessora do italiano para chefiar o ECB a partir de novembro deste ano.

O pouco espaço de manobra do ECB para reagir a choques dos mais diversos não é uma novidade para os investidores. No entanto, assim como têm feito outros bancos centrais ao redor do mundo, o ECB muito provavelmente voltará a aumentar os seus estímulos nos próximos meses, antes de normalizá-los, como ele gostaria. Afinal, teme-se, assim como nos EUA, que uma postura menos “expansionista” do banco central possa contribuir para interromper o — lento, porém, longo — ciclo de recuperação econômica que vivem estes países europeus. Assim, Draghi, e num futuro próximo, Lagarde, devem dar um maior suporte às economias do bloco europeu, utilizando uma combinação das armas que ainda lhes sobram para combater os riscos que se aproximam.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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