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Juros americanos mais baixos. Um “ajuste”?

O banco central dos EUA cortou a taxa de juros nesta semana, em linha com o esperado pela maioria dos investidores. Com o corte de 25 pontos base, os juros por lá passaram de 2.25-2.50% para 2.00-2.25% ao ano. Embora tal decisão não tenha chamado tanto a atenção, a coletiva de imprensa de Jerome Powell, o presidente do FED, trouxe informações relevantes. Estas merecem destaque. O FED não parece muito disposto, hoje, a continuar cortando as taxas de juros nos próximos meses. Não se compromete com novas reduções. Assim, o corte desta semana pode ter sido um mero “ajuste” em meio ao ciclo de normalização da política monetária. Mas o que esperar pela frente? Como entender a reunião do FED desta semana? Quais foram as novidades trazidas por Powell?

A fala de Powell que mais repercutiu veio logo na primeira resposta aos jornalistas, na já tradicional coletiva de imprensa pós-reunião do FED. Explicando que o corte deve ser visto como um “ajuste” em meio ao atual ciclo, não pareceu sinalizar que mais cortes virão pela frente. Pelo contrário. Ou seja: a expectativa de que os juros nos EUA pudessem continuar a cair nos próximos meses perdeu forças — expectativa que crescia no mercado, após diversos discursos de integrantes do FED, nas últimas semanas, terem apontado para esta direção. Aliás, há umas duas semanas, havia quem apostasse num corte maior no encontro deste mês, de 50 pontos base (o dobro da “dose” tradicionalmente utilizada pela instituição).

A próxima reunião de política monetária do FED acontece em setembro (dias 17 e 18). Até lá, fatores como o crescimento global, tensões comerciais, perspectivas para a inflação e, muito provavelmente, a atividade doméstica serão importantes para a tomada de decisão de Powell e demais membros. O ritmo da economia americana, embora seja uma variável extremamente relevante, não fora citada por Powell como um dos motivos para a redução dos juros desta semana. Se os números de atividade piorarem nos EUA (como é bastante provável que aconteça), é possível que o FED volte a reduzir em juros em setembro. Em minha opinião, esta possibilidade não deveria ser descartada, apesar das palavras de Powell. É muito possível que a “atividade doméstica” — não citada como um dos motivos neste encontro — seja um fator adicional para o próximo corte de juros.

Registre-se: nesta quinta-feira (1), um dia após a decisão do FED, as tensões comerciais voltaram a aumentar no cenário internacional. Donald Trump anunciou 10% em tarifas a US$300 bilhões em produtos vindos da China — algo que puxou a bolsa americana para baixo neste primeiro dia de agosto, e fez o dólar se enfraquecer. Ontem, após o FED se mostrar menos propenso a novos cortes de juros, a bolsa também havia recuado, e o dólar se fortaleceu. Note que as tensões comerciais, caso tenham consequências negativas sobre o ritmo da economia dos EUA, levarão o FED a reduzir novamente os juros. Esta percepção (a possibilidade de juros mais baixos) contribuiu para o enfraquecimento do dólar, mas não foi o suficiente para impulsionar as ações. Como argumentei no meu último texto para o blog da Guide, nem sempre um corte de juros deve ser encarado de forma “positiva” pelos investidores. As reações à decisão do FED, nesta semana, comprovam isto.

O corte de juros, após mais de uma década, pode ser explicado como uma forma de evitar problemas à frente. Ou seja: como se fosse uma espécie de “seguro”, uma tentativa de esticar a expansão econômica que já dura anos. Powell, no entanto, não parecia muito confortável no ao defender tal medida. Mas a verdade é que o pano de fundo global continuará a ser de um lento e frágil crescimento econômico (veja mais aqui) e, quem sabe, de intensificação das tensões comerciais entre EUA e China. Isto, em algum momento, tende a se refletir nos dados de atividade, levando a um novo corte de juros por parte do FED. Powell pode ter decepcionado os investidores na coletiva de imprensa, mas ganhou em termos de flexibilidade: não há um plano de voo definido dentro do FED (aliás, há dissidências!), mas isto não quer dizer que podemos descartar uma nova queda de juros.

A tendência de “ajuda” dos bancos centrais às economias ainda é uma realidade global. Nesta semana, além dos EUA, o Brasil também cortou a sua taxa de juros (a Selic passou de 6.5% para 6.0%). Estes eventos estão conectados, é claro. Mais: não seria possível imaginar os juros caindo por aqui se eles estivessem subindo no exterior, por exemplo. Porém, ao contrário daqui — o banco central brasileiro parece ter sinalizado de forma bastante clara que novos cortes de juros virão à frente —, o FED preferiu deixar a porta aberta. Há motivos para acreditar que os juros podem cair ainda mais nos EUA, e isto pode sim manter a porta aberta para que os juros caiam ainda mais aqui no Brasil. Mas, quando o assunto é “mercados internacionais”, volto a dizer: um corte de juros nem sempre implica em preços mais altos das ações, por exemplo. Vale lembrar: somente depois de 18 meses após o primeiro corte de juros do FED (em setembro de 2007), tentando reagir à crise financeira, é que o índice S&P 500 parou de cair. Naquele momento, a bolsa havia caído mais de 50% em relação ao dia do primeiro corte de juros.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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