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Nesta semana, dias 29 e 30, o Fed (o banco central americano) terá a sua primeira reunião de política monetária de 2019. Ao todo, serão 8 reuniões. Será um destaque na agenda econômica, especialmente porque a partir deste ano toda reunião será sucedida de uma coletiva de imprensa do presidente Jerome Powell. Ou seja: toda reunião ganhou relevancia em termos de comunicação e sinalizações. Afinal, o que devemos esperar? Qual é o contexto deste encontro? Quais são os destaques?

A reunião do Fed será muito interessante pelo timing em que acontece. É a primeira reunião de política monetária desde o tombo das ações em dezembro. Além disso, acontece após a deterioração das projeções de crescimento global do FMI, que reconheceu que a desaceleração tem sido mais rápida do que a esperada. Nos últimos dias, dados fracos de Europa e Japão reforçaram esta preocupação. Além disso, o encontro do Fed acontece após 35 dias de shutdown do governo americano, e ainda dúvidas persistentes quanto à relação EUA-China, Brexit e as consequências de um elevado endividamento privado em vários países desenvolvidos. Ou seja: entender como o principal banco central do mundo reagirá a estes eventos é, sim, algo relevante para qualquer investidor.

Qual será o tom do Fed? Aqui, parece evidente maiores riscos globais deveriam fazer o Fed manter o tom mais recentemente adotado, sinalizando que não terá pressa para subir as taxas de juros novamente. Vale lembrar que neste encontro não haverá divulgação de novas projeções oficiais sobre crescimento econômico, desemprego, inflação, juros, etc. Ou seja: serão as palavras usadas, as entrelinhas da comunicação, e as respostas aos jornalistas aquilo que os investidores estarão analisando. Neste contexto, qualquer coisa pode ser suficiente para mexer com os mercados, e fazer a volatilidade subir. No momento, tudo indica que o Fed se manterá “paciente”.

Aliás, atenção aos detalhes: dada a importância que o mercado tem dado ao termo “paciente” — utilizado recentemente pelo próprio Fed, para descrever-se —, voltar a utilizá-lo, de forma explícita, reforçará a interpretação da maioria dos investidores: no curto prazo, os Fed Funds Rates continuarão estáveis, em 2.25-2.50% ao ano. Mais: o atual plano do Fed, de subir os juros 2 vezes em 2019, parece exagerado, e pouco crível no momento. Após ter cumprido as suas “promessas” em 2018, deve precisar ajustar-se à nova realidade.

Ao analisar as entrelinhas do Fed, vale também ficar atento às sinalizações sobre a diminuição do balanço de ativos. Vale lembrar que, após anos de quantitative easing — programa de estímulos do Fed, que consistia na compra de títulos e fazia os juros de longo prazo recuarem —, isto já está sendo revertido. Mas qual será o ritmo deste “desmonte”? Não está claro, e não há consenso sobre as consequências disto sobre os mercados. Se há pouco tempo Jerome Powell sinalizou que este seguiria em “piloto automático”, é possível que, a depender da evolução do cenário, uma diminuição do ritmo seja necessária. Qualquer indicação nesta direção será bem recebida pelos investidores, é claro.

Em suma: o mais provável é que o Fed, assim como precisou fazer o banco central europeu na semana anterior, adote um tom um mais cauteloso nesta semana. Nos últimos meses, o crescimento econômico global parece ter pedido forças. Aliás, a revisão do FMI para o PIB global, de 3,7% para 3,5%, consolidou esta análise. Somado a isto, entre os diversos riscos que tenho apontado nos últimos meses, o aumento da dívida privada dos últimos anos é algo que manterá o cenário internacional em modo de atenção por mais tempo. E continuará a ser um freio às intenções do Fed, de normalizar as taxas de juros. Por enquanto, nada melhor do que sermos “pacientes”, e torcer para que o Fed também o seja.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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