Jerome mudou, mas não surpreendeu

tags Intermediário

Em bom português, foi um “cavalo de pau”. Embora muitos a tenham julgado “necessária”, a recente manobra do banco central dos EUA (FED), chefiado por Jerome Powell, não deixa de ter sido radical. Há tempos não víamos uma mudança tão rápida e drástica nas sinalizações da instituição. A verdade é que isto não foi exatamente uma surpresa, mas foi o suficiente para dar fôlego aos mercados nos últimos dias. As bolsas subiram, e os juros de mercado recuaram, em resposta àquilo que Powell sinalizou para os próximos meses, no último dia 30 de janeiro. Afinal, quais foram estas sinalizações? Como interpretar a recente manobra do FED?

O FED manteve os Fed Funds Rates estáveis, em 2,25-2,50% ao ano. Aqui, não houve surpresa. Ninguém esperava uma mudança na taxa de juros neste mês de janeiro. Aliás, podemos dizer que, após 4 elevações de juros em 2018, as (ainda) prometidas 2 elevações de juros para 2019 estão cada vez mais longe da realidade. Divulgadas somente de 3 em 3 meses, as próximas projeções oficiais do FED sobre crescimento econômico, inflação, desemprego e taxas de juros acontecerão no dia 20 de março. As atuais já estão defasadas, mas o mercado não precisou esperar até lá para se “convencer” de que o cenário havia mudado.

Tudo indica que o FED será mais paciente e cauteloso em suas próximas ações. Podemos dizer que: (1) elevações de juros nos próximos meses são muito menos prováveis; e (2) o desmonte do chamado “quantitative easing” pode ter o seu ritmo suavizado. A provável “pausa” na normalização do FED nos relembra os períodos de 2006 e 2016,  quando a instituição precisou adotar uma postura mais cautelosa, por conta de riscos em ascensão. A dúvida é: desta vez, assim como aconteceu nestes 2 episódios anteriores, a “pausa” do FED será sucedida de significativa elevação das bolsas? Aqui, a resposta mais provável é: “Não”. Riscos dos mais diversos têm sido empilhados na mesma rapidez em que a dívida privada, por exemplo, continua a subir ao redor do mundo.

De volta às sinalizações do FED, vale destacar algumas falas do próprio Jerome Powell, assim como trechos de documentos oficiais, exemplificando a mudança de postura que tenho comentando até aqui.

1 – Taxa de Juros

Quanto ao futuro das taxas de juros, por exemplo, o comunicado da penúltima reunião do FED (dias 18 e 19 de dezembro) dizia: “Alguns aumentos graduais adicionais na meta para a taxa dos fed funds serão consistentes com a expansão sustentada da atividade econômica […]”. Agora, passadas pouco mais de 6 semanas, afirma: “Tendo em vista a evolução econômica e financeira global e as pressões inflacionárias moderadas, o Comitê será paciente […]”.

2 – Quantitative easting

Quanto ao desmonte doquantitative easting — um dos pontos mais importantes da atual normalização de políticas do FED —, Powell havia afirmado em dezembro: “[…] pensamos cuidadosamente sobre isso, sobre como normalizar a política, e achamos que teríamos efetivamente a diminuição do balanço [de ativos] no piloto automático”. Agora, um comunicado oficial trouxe mais flexibilidade: “O Comitê está preparado para ajustar qualquer um dos detalhes para completar a normalização do balanço à luz da evolução econômica e financeira”.

Como nem sempre — ou quase nunca — tudo aponta na mesma direção, vale destacar que nos últimos dias foram divulgados dados muito fortes do mercado de trabalho nos EUA. Isto, no entanto, não deve voltar a fazer com que Powell mude outra vez as suas sinalizações. Aliás, considerando os últimos meses, parece que o FED tem se “moldado” à visão mais preocupada do mercado. Esta era uma espécie de “batalha” de visões, e é difícil imaginar que o FED voltará a ser muito mais otimista quanto ao cenário econômico, e deixe de apontar para os riscos. Este maior alinhamento com a visão que os investidores já tinham, aliás, explica por que a reação dos mercados na última semana foi “pequena” vis-a-vis a radical mudança de postura de Jerome e Cia.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

59 visualizações

relacionados

Bitnami