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Internacional: início de outubro manda um recado

O ultimo trimestre do ano começou com as bolsas internacionais em baixa e temores renovados quanto aos riscos à economia global que tenho ressaltado em comentários recentes. Dados sobre o setor industrial em diversos países mostram uma deterioração evidente, e teme-se que isto se espalhe para outros setores. A maior aversão ao risco neste mês de outubro também está relacionada a eventos políticos, como o Brexit, no Reino Unido. Neste contexto, o que deveríamos olhar com especial atenção nos próximos dias? O mês de outubro acaba de começar, e parece mandar um recado importante àqueles investidores que costumam ignorar o cenário internacional.

Nesta quarta-feira, dia 2 de outubro, os mercados no Reino Unido tiveram o seu pior dia em mais de 3 anos, destacava o jornal britânico Financial Times após o término das negociações. O índice FTSE 100 fechou com o pior desempenho desde janeiro de 2016, superando as perdas após o referendo de junho daquele mesmo ano, quando ficou decidido que o Brexit se tornaria uma realidade. Nos próximos dias – e quanto mais nos aproximarmos do dia 31 de outubro –, acredito que o mais provável é que vejamos uma volatilidade ainda alta nos ativos, e uma apreensão quanto ao desfecho que o drama político terá. Afinal, vale lembrar: este é o prazo final para definir o futuro e as condições da saída do Reino Unido da União Europeia. Se considerarmos o mercado de derivativos, a maioria dos investidores parece estar à espera de oscilações na moeda, por exemplo. Na semana passada, por conta destas incertezas na política, a libra fora a pior moeda entre os G-10 na comparação com o dólar, depreciando-se ao redor de 1.3%.

Nos EUA, o desempenho das bolsas neste início de outubro também tem sido negativo. Em especial os setores de materiais básicos e a indústria, de modo geral, têm tido um dos mais afetados nos últimos dias. Mas vale notar que o setor de consumo, que costuma ser mais resiliente, não está alheio à deterioração das perspectivas econômicas do país. Muitos economistas estão especialmente atentos aos dados do mercado de trabalho: estes, se vierem mais fracos, podem dar pistas sobre uma possível desaceleração do consumo à frente. Neste contexto, vale ficarmos atentos aos dados que serão divulgados nesta sexta-feira, dia 4. O relatório de setembro, segundo o consenso de mercado, deve mostrar uma criação de 140 mil vagas em setembro, após 130 mil no último mês. Mas vale notar: dados abaixo do esperado divulgados hoje (relatório ADP), no entanto, colocaram um viés um pouco mais negativo aos dados que sairão na sexta.

Se olhamos o mundo como um todo, vale destacar a fraqueza do setor industrial. Embora eu tenha ressaltado no meu comentário recente sobre a Zona do Euro, no final do mês passado, o desempenho medíocre da indústria vis-a-vis o setor de serviços, uma avaliação parecida poderia ser feita em outros países. Num contexto de “guerra comercial”, a indústria global está sofrendo, e isto é nítido. Nesta semana (dia 1), por exemplo, um índice global do setor (J.P. Morgan Global Manufacturing PMI) deixou claro que, em setembro, a indústria continuou num clima de deterioração. Entre os 40 países considerados, a Alemanha é claramente um dos destaques mais negativos, mas os sinais de recessão no setor também são vistos em Reino Unido e Japão, por exemplo. Como reagirão os demais setores à piora da indústria? Haverá uma disseminação desta fraqueza para o setor de serviços? Esta é uma pergunta interessante no momento. Atenção: hoje, dia 3, dados do setor de serviços ao redor do mundo serão divulgados.

Não há muitos consensos quanto às direções dos mercados internacionais nos próximos meses. Mas os dados da indústria global, mais fracos, aumentam o temor de que isto possa se alastrar para o setor de serviços. Será, portanto, especialmente importante avaliarmos os dados que não envolvem diretamente à indústria. Nesta sexta (4), por exemplo, os holofotes estarão voltados ao mercado de trabalho dos EUA. Se vierem abaixo do esperado, a tendência é que o clima de aversão ao risco continue elevado mundo afora – algo nada positivo para as ações globais. Além disso, tende a colocar maior pressão para que o FED, na sua próxima reunião de política monetária (dias 29 e 30 de outubro), volte a reduzir as taxas de juros, hoje em 1.75-2.00% ao ano. Para quem estava com os olhos atentos apenas àquilo que acontece no Brasil, os dois primeiros dias de outubro mostram que estamos, invariavelmente, conectados com o resto do mundo.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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