Indicações: O que lemos em 2018

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Nossa equipe se juntou para copilar indicações do que lemos em 2018. Veja abaixo:

The Secret of our Sucess – Joseph Henrich

Victor Cândido

Nós, seres-humanos, somos uma espécie animal intrigante. Se fôssemos abandonados na natureza, muito provavelmente não iríamos conseguir superar até os desafios mais básicos, como obter comida, construir abrigos ou evitar predadores e morreríamos rapidamente. Sem falar que nossos “filhotes” possuem mobilidade quase nula e cabeças enormes que nem terminaram de se fechar quando nascem. E mesmo com todos esses fatores jogando contra, nós vencemos a natureza no jogo evolutivo e dominamos o mundo.

Como? A resposta óbvia que vem na cabeça de todos é: com a nossa inteligência singular no mundo animal. Mas não foi, nossa inteligência nem é tão singular assim, mas sim a nossa cultura, ela é a grande responsável pelo nosso sucesso estrondoso como espécie. Humanos são a única espécie com uma cultura exorbitante.

Nas mais de 460 páginas de The Secret of Our Success (Princeton University Press – R$89,90 ), o antropólogo formado em engenharia, Joseph Henrich, nos leva num divertido e cuidadoso ensaio, cheio de evidências empíricas que confirmam sua tese principal: Humanos não deram certo pela inteligência individual, e nem são a espécie mais inteligente, porém, foram capazes de criarem um super cérebro coletivo, denominado de cultura, que se perpetua de geração em geração. Se não fosse a cultura altamente desenvolvida dos humanos, nós não teríamos vencido os neandertais e produzido tecnologias engenhosas, linguagens sofisticadas e instituições complexas que nos permitiram e permite nos expandir com sucesso em uma ampla gama de ambientes diversos.

Apenas para ilustrar a questão da limitada inteligência individual dos humanos, o próximo experimento foi extraído do livro, mostra uma comparação interessante, onde macacos e humanos foram colocados para jogar um teste, que consegue medir alguns tipos de inteligência, como memória de curto prazo, memória de trabalho e a inteligência social (que mede a nossa capacidade de aprender com a experiência de nossos pares). O resultado é incrível, os chimpanzés e o orangotangos tiveram desempenho similar aos humanos em todos os testes, exceto em um, o de inteligência social, onde ganhamos de lavada.

Logo fica claro que o sucesso estrondoso dos humanos não é fruto de nossa cabeça gigante, mas sim de uma enorme cabeçona coletiva, que pensa sem parar a milhares de anos.

Structural Reform Priorities for Brazil – IMF Working paper, Nina Biljanovska e Damiano Sandri

Rachel Borges

Sob o contexto de décadas de baixo crescimento econômico e produtividade estagnada, os pesquisadores do FMI conduzem um estudo empírico partindo da necessidade urgente de reformas estruturantes para acelerar a produtividade no Brasil. Desenvolvem então uma análise empírica para definir as reformas de maior prioridade a serem conduzidas pelo governo brasileiro de modo aumentar a produtividade e, portanto, retomar o crescimento econômico sustentável.

Para tanto, estimam primeiro o impacto de diferentes reformas na produtividade do país (incluindo à estrutura jurídico-legal, leis trabalhistas e abertura comercial) com base em dados históricos e de outras economias com estruturas semelhantes. Depois, usam dados empíricos sobre a opinião pública em relação a cada uma destas reformas – pois, afinal, políticos precisarão aderir a causa e defender no Congresso reformas muitas vezes com impactos em grupos de interesse específicos, pensando sempre em se manter no poder via seus eleitores, não é mesmo?

O estudo traz então uma interessante conclusão: reformar o setor bancário terá o maior impacto na produtividade total dos fatores na economia brasileira, além de levar consigo o maior apoio popular, além de não requererem grandes mudanças legislativas. Na linha de recentes esforços liderados pelo Banco Central e o Ministério da Fazenda, os pesquisadores apontam para reformas que visem a melhora da alocação de recursos via redução de crédito subsidiado, diminuição da participação do Estado e fomento à competição no setor financeiro (como Fintechs). Importantes primeiros passos foram dados nos últimos dois anos, esperemos que o novo governo valorize também essa ótima leitura.

Princípos – Ray Dalio

Pedro Lula

“Princípios: Vida e Trabalho” é um daqueles livros marcantes. Ray Dalio, um dos maiores investidores do mundo, é fundador da Bridgewater Associates, a quinta empresa privada mais importante dos Estados Unidos e a mais eficaz gestora de hedge funds do mundo, teria então todos os motivos para viver no conforto de sua vida e ciclo social, com tudo, desde os anos 90 Ray vem nutrindo junto a seus investidores uma série de cartas e recomendações sobre investimentos e sobre a vida pessoal-profissional, que após longos anos decidiu transformá-las em um magnífico livro.

O autor tem o cuidado de transformar o livro numa espécie de conversa, uma bate-papo inicialmente sobre a sua jornada de vida, usando de exemplo as diversas situações que passou, quando quebrou sua primeira empresa, seu filho especial, quando errou sua tese de investimento e custou muito milhões, quando desenvolveu sua nova metodologia de investimentos, como tratou e selecionou seus funcionários, enfim, o que Dalio chama de jornada do aventureiro, para depois, na segunda parte do livro abrir para a sua série de Princípios.

Nesse sentido, o autor escreve uma espécie de guia, com uma série de situações hipotéticas e conselhos, para conseguir alcançar sucesso pessoal e profissional, de uma forma muito autêntica. Conceitos como mente aberta, radicalmente transparente, radicalmente sincero, evolução pessoal, não tolerar problemas, definição de objetivos, discordância construtiva, reputação e pessoas extraordinárias são vistos ao longo da diversas páginas de leitura.

O próprio Ray comenta que sua atual fase de vida é de transmitir conhecimento, promover um mundo melhor e apoiar as pessoas, com certeza a leitura desse livro é uma viagem a cabeça de uma pessoa genial, que deixa um legado de vida incrível.

100 dias entre o Céu e o Mar – Amyr Klink

Eduardo Scovino

Essa eu dedico para todos que, assim como eu, são amantes do remo. Amyr Klink é um sujeito deveras ousado. Nesse relato, ele conta a vez que saiu do porto da cidade de Lüderitz, no sul da África, e remou até Salvador durante 100 dias.

Isso mesmo, amigos. Remando. A bordo do Paraty, Klink nos fala de sua intensa (bota intensa nisso) relação com o mar, da vida marinha que o acompanhou durante a travessia e também alguns dramas por estar completamente sozinho em alto mar.

O que me chamou muita atenção no livro foi que, antes de qualquer coisa, era um desafio de logística. Tudo havia sido muito bem calculado, levando em consideração o lugar da partida – preste bem atenção quando ele fala das correntes de Benguela – e da alimentação balanceada e do estoque de comida e água a bordo.

A cereja do bolo: Amyr Klink é economista de formação. Nunca pensei que economia e remo fossem dar uma mistura tão rica e intensa como “100 dias entre o Céu e o Mar”.

Job Market Signaling – Michael Spence (1973)

Arthur Lula

Você já parou para pensar que se as pessoas não tivessem diplomas ou certificados, e não tentassem construir um bom currículo, as empresas simplesmente não conseguiriam diferenciar os trabalhadores? Pois é, Spence ilustra nesse elegante paper, que é um resumo de sua tese de doutorado e foi publicado no The Quarterly Journal of Economics, como funcionam as sinalizações de mercado, sobretudo no mercado de trabalho. Claro, utilizando modelos teóricos. Essa dica de leitura vai para aqueles que desejam um pouco de abstração, mas lidando com um tema muito interessante e que aborda situações de informação imperfeita nos mercados.

O problema todo começa do fato de que os empregadores não conseguem apenas “no olhar” saber quão produtivo é um trabalhador, num clássico caso de assimetria de informação. Há um tempo de aprendizagem logo quando se contrata alguém, e esse tempo varia de trabalhador para trabalhador, logo escolher o trabalhador que minimize esse tempo é certamente uma decisão de investimento – uma decisão sob incerteza, quase uma loteria, para ser mais claro. Essa decisão pode ser baseada em probabilidades condicionais e experiência passadas.

Se existem o mesmo número de pessoas com alta produtividade e outras de baixa produtividade, você tem chances iguais de contratar cada tipo, caso não tenha informações sobre elas. Se você pretende remunerar o trabalho pela produtividade, mas não tem conhecimento desta, acaba oferecendo uma remuneração esperada (algo como a média dos dois grupos). Essa situação pode gerar um caso extremo em que não há incentivos para pessoas de alta produtividade participarem do mercado, pois estariam recebendo remuneração abaixo da sua produtividade, sobrando um mercado de apenas pessoas de baixo desempenho – o caso da seleção adversa (que não é tratada pelo paper, mas vale a pena ler sobre).

Resumindo de forma bem grosseira, o autor propõe alguns modelos, mas destaco o de sinalização via educação (ainda que custosa) como forma de aumentar a informação, diferenciação e identificar produtividade. Dado a estrutura de mercado e a avaliação dos empregadores de qual é a escolaridade média (por exemplo) que pretendem contratar, os indivíduos vão ajustar o seu próprio nível de escolaridade mediante ao custo de fazê-lo. Alguns podem achar muito custoso e não o fazer, por exemplo. Em algum equilíbrio desse mercado, o empregador poderá fazer previsões da produtividade esperada para qualquer indivíduo desse mercado teórico, observando seu nível educacional.

O problema é que esse equilíbrio teórico pode não indicar um aumento de bem-estar, dado o custo de adquirir escolaridade para sinalizar a produtividade. De certa forma, só será vantajoso adquirir mais educação se os custos de sinalização estiverem negativamente correlacionados com a produtividade.  Você já parou para pensar que educação pode ter retorno social negativo, mas um retorno privado positivo? É um caso particular e se ficou curioso, leia o paper.

Em suma, esse é um dos trabalhos iniciais bem interessantes que há no ramo da economia da informação, de cunho bem teórico, mas que pode aguçar sua vontade de estudar essa área.

A Loja de Tudo – Jeff Bezos e a Era da Amazon

Caio Augusto

Provavelmente você leitor já fez ou conhece quem fez alguma compra na Amazon. Deve saber também da revolução tecnológica e varejista que ela representa – e que faz dela, não surpreendentemente, uma das maiores e mais valiosas empresas do mundo atual.

O que você não sabe sobre a Amazon pode encontrar neste livro. Divido em três partes, apresenta um dos empreendimentos mais bem sucedidos da história juntamente a seu representante maior, Jeff Bezos.

Superdotado, versátil e sempre buscando pesquisar empreendedores de sucesso – tendo em Frank Meeks, franqueador da Domino’s Pizza de Virgínia que enriquecera -, Bezos foi um dos tantos que apostou na internet na virada do milênio (e um dos poucos que conseguiu provar que seu modelo de negócios era robusto o suficiente para seguir em frente).

Com nome inspirado no maior rio do mundo e logo que dá a entender que lá você encontrará tudo “de A a Z”, a atual loja de tudo começou com o objetivo de superar o serviço de livrarias virtuais existente à época, meados dos anos 1990. Desde o início o plano era de ser imenso – primeiro como “a maior livraria do mundo” e, com o passar do tempo, “a maior seleção da Terra”.

A ambição traduziu-se em prática a partir do foco maior sobre dois aspectos fundamentais: o atendimento ao cliente e a eliminação de inconformidades na cadeia de fornecedores objetivando oferecer produtos aos menores preços possíveis. Hoje, a percepção sobre a empresa é exatamente essa.

A obra apresenta, em suma, como a Amazon e seu criador estão umbilicalmente ligadas e, assim sendo, como o avanço da empresa tem conexão com o pensamento ambicioso de Bezos em oferecer de tudo a todas as pessoas.

Sapiens: Uma Breve História da Humanidade – Yuval Harari

Arthur Solow

A história dos humanos no planeta Terra é bem mais interessante do que você imagina. Se antes os Sapiens – a espécie humana que prevaleceu e resiste até hoje – disputava comida e bens de sobrevivência com outros animais, em condição de igualdade, hoje subjuga completamente fauna e flora ao seu bel-prazer, em nome do desenvolvimento econômico.

Misturando história, biologia, filosofia e sociologia, Harari descreve momentos históricos da evolução humana em detalhes, como a Revolução Cognitiva, da Agricultura, a Industrial e finalmente a Revolução Científica. Essa última, inclusive, é aos olhos do autor uma das mais perigosas, pois não sabemos muito bem as implicações de seus estudos e experimentos. ‘Realidades Imaginadas’, nos termos do autor, foram determinantes para a evolução humana, como a formação dos impérios e posteriormente dos estados nacionais, adoção do sistema capitalista e a influência das religiões.

A evolução não foi nada linear, e muitas escolhas foram tomadas para chegar onde estamos atualmente. Destruímos florestas e extinguimos espécies inteiras de plantas e animais (e inclusive outras espécies de humanos) em nome do progresso.

Será que depois de tudo isso e com toda a tecnologia atual e a oferta abundante de bens de consumo, que até pouco tempo era inimaginável, nos tornou mais felizes que antigos caçadores-coletores de 15 mil anos atrás? Perguntas como essa rondam a cabeça do autor, e nos fazem refletir sobre o nosso próprio modo de vida.

Development as Freedom – Amartya Sen

Lucas Adriano

Quando o objetivo é analisar os efeitos da pobreza e a sua intensidade sobre diferentes grupos sociais, o livro “Development as Freedom”, do Nobel Amartya Sen, é simplesmente in-dis-pen-sá-vel.

Nessa obra, Sen analisa a pobreza de uma maneira pioneira, considerando a sua incidência em diferentes dimensões. É dado destaque para certos fatores, como: educação, saúde, regionalismo e empoderamento feminino. Tais fatores são considerados como responsáveis pelo agravamento de uma situação de pobreza.

“Development as Freedom” possui um quê de filosofia, algo devido ao próprio entendimento da pobreza, como algo que limita a liberdade dos indivíduos, mas também pela crítica profunda realizada ao libertarianismo. Mas esse “quê de filosofia” de modo algum torna a obra abstrata e distante da realidade, muito pelo contrário! A discussão filosófica apenas eleva o nível de entendimento acerca de exemplos econômicos reais, que são apresentados ao longo do texto.

A obra de Sen ultrapassa o estudo da pobreza e de suas causas, percorrendo um caminho mais abrangente, que é o de entender o real significado do que seria liberdade humana.

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