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Indexar, ou não, seus investimentos? Cuidado com os desequilíbrios

A discussão entre estratégias de investimento “passivas” e “ativas” segue acalorada mundo afora. Não há grandes consensos, mas é inegável que a primeira estratégia tem crescido de forma acelerada nos últimos anos. Aliás, deve continuar crescendo, especialmente em mercados em que isto ainda é uma espécie de novidade, como no caso brasileiro. Faz bastante sentido, é uma estratégia mais barata para os investidores, e diminui aquela imagem do gestor profissional como sendo aquela pessoa com habilidades excepcionais para encontrar arbitragens, e gerar o chamado “alpha”. Mas, a despeito das vantagens, o crescimento desta estratégia tem gerado preocupações das mais variadas no cenário internacional. Por exemplo: investir num índice global de ações, embora pareça ser uma boa ideia em muitas situações, nem sempre é uma estratégia tão “global” quanto o próprio nome sugere. Além de o investidor não ter comprado o que imagina, qual a consequência disto para os mercados?

A seguir, mostro os pesos do índice FTSE global de acordo com o país. A disparidade, claramente favorável aos EUA, deixa nítida a falta de diversificação “global” que, a princípio, qualquer um de nós esperaria. O link entre tamanho populacional do país (ou tamanho do mercado) e percentual investido é muito fraco, para dizer o mínimo. Perceba o pequeno peso da China; e que a Alemanha está atrás de Suíça ou Canadá, por exemplo. Este viés – na literatura, apelidado de “home bias” – mostra que, na maioria das vezes, o investidor escolhe uma carteira limitando-se àquilo que está ao seu alcance, seja por ter um maior conhecimento sobre os produtos (neste caso, empresas), pela facilidade do idioma, comunicação, ou por um mero viés em suas preferências.

O comportamento que destaquei em relação ao índice FTSE global não é uma exceção neste grupo dos chamados índices globais. Não é raro encontrarmos índices que se dizem “diversificados” com este viés. O “home bias”, assim como qualquer outro viés, nem sempre é detectado, e costuma passar desapercebido. As pessoas tendem a investir mais em seu próprio país e menos no resto do mundo do que deveriam, se fossemos considerar aquilo que a teoria nos recomenda fazer. Neste contexto, Victor Haghani, quem comanda a Elm Partners Management LLC em Londres, escreveu um artigo apontando algumas consequências deste comportamento. A mais interessante é a forma de ver a acalorada discussão entre estratégias de investimentos: “passivos” X “ativos”.

Os fluxos tendem a ir em direção aos países “grandes”, e tendem a sair dos países “pequenos”. Esta é, muito provavelmente, o ponto mais importante feito por Haghani, ao considerar um experimento simples que tenta retratar a falta de proporção dos índices globais, como o FTSE que eu comentei no início. Isto acontece porque as pessoas muitas vezes investem desproporcionalmente mais nos “grandes” do que deveriam, considerando o valor de mercado deste país. Há, no jargão utilizado por Haghani, um “excesso de demanda” pelos ativos do país grande (neste caso, os ativos dos EUA). Isto serve para explicar a razão de os ativos dos EUA serem considerados “caros”, tanto em termos relativos quanto absolutos. Aliás, de uma forma um pouco diferente, destaquei num outro artigo este “fluxo” rumo aos EUA como sendo um dos pontos que explica, mesmo em tempos de receios de recessão, a valorização dos ativos por lá.

De volta ao “home bias” de Haghani: sabemos que este viés existe, independente da nacionalidade do investidor. O brasileiro, por exemplo, tende a investir desproporcionalmente mais no Brasil do que deveria. Leve isto em consideração. Mas o ponto de Hagahi é outro: ao destacar que os investimentos “passivos” têm crescido (investir num índice global de ações ao invés de fazer uma seleção ativa de mercados e empresas, por exemplo), o fluxo de recursos pode estar favorecendo alguns mercados, como o dos EUA. A solução para diminuir este “desbalanceamento” global de fluxos seria os investimentos passivos aumentarem, porém, considerando proporções mais realistas dos mercados. Isto evitaria que os “grandes” se tornem maiores ainda. Ou pior: que os fluxos de recursos aumentem desequilíbrios globais.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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