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Trump Impeachment: Até onde vai e possíveis efeitos nas bolsas americanas

Na terça-feira passada, a presidente da Câmara de Representantes, Nancy Pelosi, – uma análoga ao nosso Rodrigo Maia- abriu oficialmente um inquérito de impeachment contra o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. O inquérito tem como intuito investigar a conduta do presidente americano, que pode ter cometido o crime de solicitar a ajuda de um agente externo para influenciar a eleição presidencial americana. Trump sugeriu que o presidente da Ucrânia investigasse a conduta do seu rival político e possível candidato a disputar a Casa Branca, Joe Biden, em vista de trabalhos de consultoria prestados pelo filho dele, Hunter Biden, a uma distribuidora de gás natural no país europeu.

As etapas e o verdadeiro significado de impeachment

Os democratas debatem a possibilidade do afastamento do republicano desde que ele foi eleito no final de 2016, mas só agora, após uma denúncia anônima trazer a chamada com presidente ucraniano à tona, deram início ao processo de afastamento. A constituição americana determina o rito do processo de afastamento, que envolve uma série de etapas ocorridas dentro Congresso. Antes que o processo possa ser analisado em plenário, se inicia uma investigação que será realizada pela Comissão de Inteligência. Em seguida, será necessário a aprovação, por maioria simples, da abertura do processo pela Comissão de Justiça. Em ambas as fases, o presidente será desfavorecido pela composição partidária dos colegiados- as duas comissões são compostas majoritariamente por democratas.

Na seguinte etapa, existe uma distinção importante que deve ser feita entre o termo impeachment e o afastamento efetivo do presidente. Caso a Câmara dos Representantes vote a favor do processo que ameaça o mandato do presidente, os americanos consideram que presidente foi impeached (impichado). Porém, após o voto na Câmara, ainda restará a análise pelo Senado, onde será necessário um nível de aprovação maior (maioria qualificada >2/3) para afastar definitivamente o líder do Executivo. Por isso, pode se dizer que o ex-presidente Bill Clinton foi impichado, logo que a Câmara aprovou o seu afastamento na época, apesar da sua absolvição integral ter ocorrido posteriormente no Senado.

A autorização do procedimento de afastamento pela Câmara é uma possibilidade concreta. Será necessário angariar o apoio de 218 representantes para realizá-la.  De acordo com um levantamento feito pelo canal de notícias CNN, pelo menos 224 dos representantes apoiam a abertura do inquérito. Um resultado nada surpreendente em vista da composição da Câmara que, como no caso das comissões que a antecedem no processo, é composta por maioria democrata. Esse levantamento é um bom indicativo que, caso o processo avance até a plenário da Câmara, ele provavelmente será aprovado e o presidente estará oficialmente impichado.

Já no Senado, que dará a última palavra sobre a continuação do mandato do presidente, a situação é bem diferente. Entre as 100 vagas que compõe a casa legislativa, 53 são republicanas. Em vista da necessidade de conquistar o apoio de uma maioria qualificada, superior à 2/3, será necessário convencer ao menos 20 desses senadores republicanos a votarem favoravelmente ao afastamento para concretizar a expulsão de Donald Trump.

Probabilidade do afastamento

Não é impossível, mas é e improvável, a não ser que surja algum desenvolvimento bombástico que não possa ser contornado por qualquer argumento racional. Caso o cenário improvável se materialize, Trump será o primeiro, entre os 45 presidentes a serem eleitos desde a revolução americana, a ser afastado do mandato por um processo de impeachment.

Impacto nas bolsas

Em relação ao impacto do processo de afastamento sobre as bolsas de valores americanas, não existem muitos exemplos que possibilitam uma análise comparativa. Nos últimos 150 anos, Bill Clinton foi o único presidente a ser impichado pela Câmara. O presidente Richard Nixon, que desocupou a Casa Branca em 1974, abdicou o mandato voluntariamente ao perceber que a aprovação pelos representantes era iminente.

O processo de impeachment do Nixon ocorreu durante um ciclo econômico recessivo em conjunto com uma das piores ondas inflacionárias na história dos Estados Unidos, causada pela crise de petróleo vivida no início da década de 70. Durante o decorrer do processo contra o presidente Nixon, começando com a abertura do inquérito e terminando com a sua saída da Casa Branca, o índice S&P registrou queda de 26%. O processo provavelmente causou algum efeito negativo sobre o índice, mas é difícil mensurá-lo em meio ao impacto muito mais contundente da crise inflacionária.

Como no caso do presidente Nixon, fatores macroeconômicos determinaram o valor dos ativos de risco norte-americanos durante o processo de afastamento contra o presidente Clinton. O Federal Reserve, o banco central americano, tinha dado início a um ciclo de cortes de juros e a bolha das empresas “ ponto com” já tinha inflacionado o índice. Como resultado, em 1998, quando ocorreu o processo de impeachment contra o então presidente Clinton, entre a abertura do inquérito e o arquivamento resultante da absolvição no Senado, o índice S&P registrou um rali de 39%.

Analisando a tendência baixista de Nixon e a altista de Clinton nota-se que os fatores macroeconômicos exerceram um papel muito mais impactante do que o processo político. No caso de Donald Trump, o mesmo seria verdade. Os fatores que devem determinar o valor das ações negociadas nas bolsas americanas são as tensões comerciais com a China e a ameaça de recessão global. No dia que Pelosi abriu formalmente o inquérito, o S&P registrou queda de 0,84%. No dia seguinte, Trump sinalizou que um acordo com a China estava por vir, e o índice quase recuperou a perda do dia anterior, registrando alta de 0,62%.

Obviamente, a incerteza gerada pelo afastamento definitivo de um presidente geraria volatilidade nas bolsas americanas. A eleição presidencial está chegando, e a incerteza sobre quem seria o representante do partido republicano teria um efeito negativo sobre os ânimos dos investidores. Entretanto, mesmo com a confirmação deste cenário improvável e politicamente apocalítico, haveriam soluções de curto e médio prazo. Bastaria o partido eleger um novo nome ou determinar que o vice, Mike Pence, seria confirmado como candidato a concorrer na eleição. Outra salvação: uma pesquisa eleitoral que demonstrasse que o candidato democrata tem uma liderança intransponível, tornando a candidatura republicana irrelevante. Da mesma forma que a bolsa caiu, ascenderia de novo.

Impacto positivo

Além disso, existe a possibilidade que o processo pode impactar positivamente o índice. Trump agora luta uma guerra de duas frentes. O processo de impeachment pode incentivar o presidente a buscar uma trégua mais rápida com a China para focar na defesa do seu mandato. Outro possível impacto positivo seria se o FED enxergasse o processo como outra incerteza que fundamente a implementação de uma política monetária mais agressiva, dando vez a outro corte, ou um corte mais agressivo, na taxa de juros básica americana.

Conclusão

Para a bolsa, o processo de impeachment é mais barulho do que ameaça concreta. O tempo dos investidores lá fora (e dos brasileiros) será melhor aproveitado avaliando a evolução dos fatores macroeconômicos que regem e continuaram regendo as altas e baixa dos índices.

Conrado Magalhães Conrado Magalhães

Analista Político

Formado em ciências políticas pela universidade Marymount Manhattan College (NY-EUA), com pós-graduação em administração pelo Insper. Possui cinco anos de experiência no ramo de consultoria política como analista da Arko Advice e agora é o analista político da Guide Investimentos.

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