Atualização: Os impactos econômicos do coronavírus

Em um outro texto produzido para o blog versei sobre os possíveis impactos do Covid-19, tanto no lado da demanda, quanto no lado da oferta, sobre a economia chinesa e mundial. Na época, não imaginei, como tantos outros, que a disseminação do vírus poderia tomar as atuais proporções, isto é, chegar ao ponto de ser taxado de pandemia e forçar medidas de confinamento em uma gama de países. Nesta revisão, e à luz do que já observamos no que tange ao desenvolvimento da conjuntura, focarei em abordar algumas questões que não mencionei no último texto, além dos novos desenvolvimentos na frente fiscal.  Vamos lá.

Nível de preços

Primeiro, ao que tudo indica, o impacto da pandemia sobre o nível de preços será, com alta probabilidade, fortemente deflacionário. A queda de demanda, decorrente do reduzido fluxo de consumidores às lojas, restaurantes, cinemas, etc, pressiona negativamente a rentabilidade das companhias. Ao passo que as empresas percebem a queda no consumo e rentabilidade, ofertam bens e serviços a preços descontados numa tentativa de recuperar parte da demanda perdida. Assim, o que temos em questão é a formação de uma possível espiral deflacionária. A queda inicial de consumo reduz os preços e rentabilidade; depois, empresas oferecem descontos para recompor a demanda, porém a demanda não se recupera devido à expectativa de que os preços podem cair ainda mais, forçando uma segunda rodada de baixas e assim por diante. A queda na cotação internacional das commodities, em específico a do preço unitário do barril, que está consistentemente abaixo dos US$ 30, reforça este movimento. Agora, esta dinâmica desinflacionaria tem dois importantes corolários para a trajetória futura da economia.

O grande primeiro ponto a se notar é que, na ausência de uma forte atuação por parte das autoridades fiscais e monetárias, a materialização de tal espiral tem efeitos nefastos sobre a economia. Antes de pontuar tais efeitos, temos de lembrar que a década de 2010 foi caracterizada pela presença de juros extremamente baixos, ou até negativos (como na Europa), o que gerou um processo de alavancagem em massa por parte de uma gama de empresas.

A alavancagem, per say, não é um problema. A questão é que muitas empresas potencialmente ineficientes se alavancaram, o que significa que a dinâmica desinflacionaria, ao passo que eleva o valor real das dívidas das empresas, aumenta drasticamente a probabilidade de default destas empresas que já não conseguirão gerar caixa suficientemente devido ao choque proveniente do Covid-19. A incapacidade de honrar dividas pode e vai ocasionar uma onda de falências, intensificando os choques de demanda e oferta inicialmente observados. Digo que ele intensifica ambos os choques pois, pensando na demanda, empresas que falham demitem empregados que param de consumir, enquanto se pensarmos na oferta, temos que lembrar que, empresas, assim como consumidores, também demandam bens e serviços de outras empresas. A redução na quantidade de insumos demandados pela empresa A afetam as vendas, e, portando, produção, da empresa B.

Investidores sabem que tal movimento pode ocorrer e, ao perceber que muitas empresas não conseguirão pagar suas dívidas, vendem os títulos de dívida corporativos para adquiri títulos de alta qualidade e livre de risco, como os T-Bills do governo americano. Este movimento, na medida em que reduz os preços dos títulos de dívida das empresas, eleva os juros dos mesmos, fortalecendo ainda mais a dinâmica de inadimplência pela qual uma gama de empresas pode chegar a experimentar.

Felizmente não vivemos em um mundo onde a política fiscal e monetária estão ausentes. Muito pelo contrário, ambas as autoridades, mas principalmente os bancos centrais, já tomaram e vão continuar tomando uma série de medidas para atenuar, ou, no limite, prevenir a formação de um declínio constante nos preços. O Federal Reserve nos EUA, BC de lá, já anunciou que o seu programa de compra de títulos públicos e privados não terá limite. Ou seja, ao passo que o Fed entra no mercado de títulos corporativos e injeta liquidez e corrige disfuncionalidades, amortece a alta dos juros dos títulos de dívida das empresas e exerce uma pressão altista, via estímulo sobre a demanda, nos preços em geral, contrariando a possível formação da espiral deflacionária. Em outras palavras: se os investidores e consumidores estão, respectivamente, causando uma alta nestas taxas e uma baixa nos preços em geral, o Fed está lá exatamente para causar um movimento na direção contrária, reduzindo a possibilidade de default das empresas na economia.

Front fiscal

No front fiscal, os governos ao redor do mundo, e principalmente o americano, têm preconizado grandiosos pacotes de gastos para, assim como o Fed, evitar um processo deflacionário, mas também garantir o emprego e a renda dos agentes econômicos. Na Europa, os diferentes governos, além de direcionar recursos para os setores mais afetados pela crise como aviação e hotelaria, pretendem garantir empréstimos baratos, subsídios salariais e adiantamento no pagamento de impostos. Na média, a zona do euro deve gastar aproximadamente 1% do PIB total da região. Nos EUA, o pacto é mais ambicioso ao totalizar um valor próximo de 5% do PIB. O pacote de gastos americano é muito parecido com o europeu, porém contempla uma transferência direta de renda de US$ 1.200 para as mãos dos consumidores. Além disto, também prevê uma extensão nos benefícios do seguro desemprego.

Aqui no Brasil, o banco central, assim como o Fed nos EUA, tem tomado medidas para evitar um aperto das condições financeiras e garantir o fluxo de liquidez e empréstimos baratos. Entre estas medidas, estão, por exemplo, a redução do compulsório bancário, corte de juros, retomada de operações compromissada e a flexibilização das regras do LCA. No âmbito fiscal, o governo antecipou uma gama de recursos que estavam previstos para o segundo semestre, como a primeira parcela do décimo terceiro e o abono salarial, além de criar linhas de crédito, via o BNDES e Banco do Brasil, para o setor de aviação. O decreto de estado de calamidade pública abriu as portas para elevar a meta do déficit fiscal, possibilitando os gastos necessários face ao combate contra o Covid-19.

Neste quesito, vale um breve comentário com relação ao futuro da economia brasileira. A atual crise não dispensa a necessidade de implementar uma expansão de gastos, por mais que tenhamos pouco espaço para fazê-lo. Muito pelo contrário, a urgência e necessidade é gigante face a futura queda de atividade, emprego e renda pela qual vamos passar. A questão é que, infelizmente, acredito que teremos que aceitar uma elevação da razão dívida/PIB, pois, além de não termos recursos em caixa no Tesouro – o que forçara a emissão de títulos públicos para financiar tal expansão de gastos–, a queda na atividade comprometerá fortemente a capacidade de arrecadação do estado. De uma forma ou outra, relação dívida/PIB aumentará, pois o numerador aumentará e o denominador cairá. Naturalmente, tal dinâmica afetará – ou melhor, já está afetando – a confiança e percepção dos agentes sobre a economia. O CDS de cinco anos, métrica de risco-país, opera em torno dos 300 pontos base e tem, como efeito colateral, o impacto de intensificar a trajetória de depreciação do real ante o dólar. A curva de juros, principalmente nas partes longas, também explicita tal elevação na percepção de risco. Ao passo que a crise se agrava, investidores embutem cada vez maiores prêmios de risco para qualquer dada data de vencimento.

A situação é difícil, complicada e, com certeza, com muitos custos. Contudo, como qualquer grande crise que afeta as economias capitalistas, podemos tomar uma grande lição de tudo isto para o futuro. Para a economia global, devemos sempre levar em conta que qualquer cuidado médico é sempre importante. Se o mundo tivesse levado o vírus mais a sério, sua disseminação teria sido menos intensa. Aqui no Brasil, o enorme custo fiscal – em termos de aceitar uma relação dívida/PIB maior, além da queda na atividade econômica – nos ensina que deveríamos ser muito mais responsáveis com as finanças públicas do país. Em tempos como estes, há de se ter espaço fiscal para atenuar os impactos negativos; o setor privado por si só não consegue fazer isto. Ou seja, tal ocorrência reascenderá a enorme necessidade de seguir em frente com as medidas que visam reestruturar o estado brasileiro, vulgo, PEC Emergencial, PEC do Pacto Federativo e a Reforma Administrativa. Espero que nossos governantes realizem isto.

Alejandro Ortiz Cruceno Alejandro Ortiz Cruceno

Equipe Econômica

Atualmente cursando o último ano de Ciências Econômicas no Insper. Sua principal área de pesquisa é Macroeconomia, com principal interesse em política fiscal e monetária.

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