Há (mais) motivos para pensar sobre o cenário internacional

tags Intermediário

Na última semana, o investidor que já estava “preocupado” ganhou motivos para continuar assim. Quem não estava, talvez tenha cogitado ficar. No mínimo, há motivos para pensar sobre as perspectivas para o cenário internacional. Alguns sinais não deveriam ser ignorados. Diante de um quadro complexo e cheio de incertezas, quais são estes “sinais”? Há uma narrativa única para explicar os recentes movimentos dos mercados americanos?

Como pretendo ser o mais objetivo possível, baseando-me, ao máximo, em fatos e números, deixo logo explícito que não é possível — ao menos ainda, e em minha opinião — assegurar que tempos piores virão pela frente. Parece bastante óbvio que, em algum momento, os EUA precisarão enfrentar uma nova recessão. Mas quando? Não há respostas convincentes. Sobre isto, é válido ressaltar: embora os modelos geralmente utilizados para prever recessões ainda não apontem nada muito fora do “normal”, há motivos para continuarmos alertas como investidores. Não espere mercados calmos nos próximos meses.

Mesmo sem muitas certezas há, sim, alguns sinais menos encorajadores no ar. Aqueles investidores que ainda mantêm uma narrativa mais positiva, se depararam, portanto, com algum desconforto para sustentar tal otimismo no período recente. Na última semana, a curva de juros dos EUA voltou a entrar nos holofotes: a “inclinação” — diferença entre os juros de 10 anos e 2 anos — diminuiu (mais!). Na última terça-feira (04), esta diferença ficou em 0,11%; aproximando-se do território negativo. Aliás, está nas mínimas desde meados de 2007. Em julho deste ano, já trouxe o assunto de uma recessão americana diferente, e esta diferença era de 0,24%. Pouco antes, em maio, a nova recessão americana estava em 0,47%. A tendência, portanto, segue bastante clara.

Tentar encontrar uma única e convincente “narrativa” para os últimos movimentos dos diversos mercados — incluindo não só o mercado de juros, mas também bolsas e moedas — é sempre, no mínimo, desafiador. Mas as últimas semanas têm sido particularmente mais difíceis de se compreender. Aqui, me restrinjo a dois claros exemplos: (i) as bolsas americanas recuaram após “boas” notícias sobre o comércio internacional (o índice S&P 500, próximo dos 2.800 pontos antes da reunião do G-20 em Buenos Aires, caiu abaixo dos 2.700 pontos nos dias seguintes); e (ii) o mercado de juros dos EUA se manteve praticamente alheio às “sinalizações” importantes feitas pelo presidente do Fed, no final de novembro (considerando os juros de 10 anos).

No curto prazo, não parece haver uma única boa e razoável “narrativa” para entender os mercados internacionais como um todo. Somente uma análise que considere um prazo mais longo talvez seja capaz de trazer luz às discussões atuais, e saciar a vontade de “entender” aquilo que está acontecendo. Neste contexto, e de volta aos dois exemplos que acabo de dar, parece razoável (i) pensar que alguns investidores continuarão aproveitando notícias “positivas” para “sair” do mercado; (ii) reconhecer que o aclamado “alívio” comercial entre EUA e China não é nada sólido ou duradouro (texto da semana passada); e (ii) manter a preocupação — que já dura alguns meses — com relação aos “sinais” da curva de juros americana. Há motivos para pensar no cenário internacional.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

100 visualizações

relacionados

Bitnami