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Guerra de preços Rússia x Arábia Saudita

Os movimentos de sell-off nas bolsas verificados ao longo das últimas semanas, decorrentes do espalhamento do Covid-2019, passaram por uma intensificação logo na segunda-feira após a iniciação de uma guerra de preços por parte da Arábia Saudita, segundo maior produtor de petróleo no mundo. Tamanha foi a incerteza gerada pelo evento que o famoso Circuit Breaker – evento em que as negociações são interrompidas por uma hora caso a bolsa caia mais de 10% – foi acionado no S&P500 nos EUA e no Ibovespa aqui no Brasil.

Após elevar a produção da commodity e oferecer seu produto a um preço severamente descontado, o preço do petróleo do tipo Brent, benchmark internacional, despencou 20% e passou a ser negociado em torno dos US$ 36/barril. A elevação na oferta acabou intensificando a queda no preço que já vinha sendo observada em função da desaceleração da demanda chinesa e, em menor grau, global. A razão: um desalinhamento de interesses entre o país saudita e a Rússia, ambos membros da Opep +.

Se por um lado a Arábia Saudita pretendia, desde fins de fevereiro, restringir a oferta do produto de modo a sustentar uma elevação nos preços, após dias de reunião com membros da organização, a Rússia, importante player no mercado internacional, visava a manutenção para melhor compreender os efeitos do vírus sobre a evolução da demanda pela commodity. No pano de fundo, porém, os Russos teriam assumido tal posição em função de uma oportunidade única para atingir produtores americanos. Outrora, produtores americanos teriam indiretamente se beneficiado de cortes promovidos pela Opep, puxando a Rússia para às margens do mercado.  A Arábia Saudita, irritada com a postura singular dos Russos dentro da Opep, teria implantando o aumento de produção para roubar-lhes parte do mercado, tratando, assim, de elevar sua posição como um dos principais exportadores de petróleo no mundo.

Desde que se iniciou a guerra de preços entre os dois país, parece ser o caso que será duradoura. Em movimento inédito e agressivo, a Arábia Saudita anunciou hoje (10/03) que irá ofertar 12,3 milhões de barris por dia para o mercado, indicando que o reino saudita pretende utilizar não só sua produção, mas seus estoques. Não obstante, a Rússia, pouco comovida, já anunciou que têm recursos suficientes para sustentar gastos governamentais na medida em que a receitas das exportações advindas do petróleo passam por um declínio. O ministro das finanças alertou que o país tem um fundo soberano com recursos que totalizam US$ 150 bilhões e cuja duração se estende pelos próximos seis a dez anos.

O grande quê da questão, porém, é por quanto tempo perdurará este baixo nível de preços e se, no limite, ele pode cair mais. Isto é de suprema importância, principalmente para países cujo petróleo detém uma participação relevante na pauta exportadora, como o caso do Brasil, que é de 10%. A razão é lógica: com menores preços, caem as receitas da venda do produto no mercado internacional, afetando a rentabilidade da Petrobras e, por conseguinte, as receitas da União, criando um canal de transmissão adicional que dificulta o atual ajuste fiscal em curso.

O impacto deste choque sobre as finanças públicas se dá diretamente pela via da arrecadação de royalties e participações, conhecidas como “demais receitas” nas estatísticas da União. De acordo com Adriano Pires, presidente do Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE), a queda no preço do petróleo deve gerar uma perde de aproximadamente R$ 20 bilhões para os cofres públicos. Indiretamente, a redução no preço da commodity piora os termos de troca, isto é, a razão entre o preço dos produtos exportados e importados, pressionando negativamente uma recuperação mais duradoura do setor externo brasileiro. O anúncio de mais estímulos fiscais e monetários nas economias desenvolvidas, contudo, cria uma força na direção contrária pois produz um ambiente mais benigno face à queda nos termos de troca.

Antes da iniciação da guerra, o preço já estava sendo pressionando devido à reduzida demanda chinesa, criando a expectativa de que um rebound ocorreria assim que o Covid-2019 fosse contido rapidamente. Com a intensificação do espalhamento do vírus além das fronteiras chinesas, este não parece ser o caso. Assim, com a iniciação da guerra, criou-se um ponto de pressão baixista adicional, dificultando a situação ainda mais. Assim, o que estamos atualmente experimentando no mercado de óleo não tem precedentes na história e tem impacto por outras duas vias.

No mercado de dívida corporativas, onde existem uma gama de empresas de energia à beira da falência, um aperto das condições financeiras é quase que inevitável ao passo que uma redução dos preços eleva o valor real da dívida das empresas, aumentando a probabilidade de default. Na ponta potencialmente positiva, menores preços no mercado internacional geralmente se traduzem em menores preços nas bombas, estimulando a demanda. Este último canal, porém, é pouco impactante dada a conjuntura atual. De que servem menores preços se as pessoas vão, com boa probabilidade, não gastar devido ao medo de contágio advindo do coronavírus?

De modo geral, por não ter comparativo na história do mercado de petróleo, a nova dinâmica que o caracteriza cria incertezas que dificilmente se dissiparão no curto prazo. Porém, sabemos que algo é certo: até que algum outro país produtor de petróleo se manifeste, ou a situação em torno do coronavírus passe por um apaziguamento relevante, a tendência é que o petróleo siga sendo negociado a estes patamares baixos. Assim sendo, países dependentes da comercialização do produto no mercado exterior, assim como empresas á beira da falência, devem passar por um momento de intensidade.

Alejandro Ortiz Cruceno Alejandro Ortiz Cruceno

Equipe Econômica

Atualmente cursando o último ano de Ciências Econômicas no Insper. Sua principal área de pesquisa é Macroeconomia, com principal interesse em política fiscal e monetária.

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