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Glenn Greenwald: arquiteto do vazamento

No dia 5 de junho de 2013, o governo norte-americano teve seu programa de vigilância em massa exposto por uma matéria publicada pelo jornal britânico The Guardian. A reportagem denunciava excessos cometidos durante o governo do ex-presidente Barack Obama, relacionados ao registro de chamadas domésticas e internacionais, feitas pela operadora Verizon, líder do setor de telecomunicações nos Estados Unidos. Os documentos revelados eventualmente exporiam que os Estados Unidos espionavam o Brasil, a presidente Dilma Rousseff, ministros, assessores e integrantes do Partido dos Trabalhadores.

O vazamento originou do cerne do próprio governo. Edward Snowden, analista da Agência Nacional de Segurança (NSA), compartilhou milhares de documentos expondo a escala que o serviço de monitoramento – criado incialmente para combater o terrorismo após os ataques às Torres Gêmeas em 2001 – tinha atingido durante a década em que esteve em vigência.   Glenn Greenwald estava entre os primeiros a publicar os documentos vazados por Snowden. Os esforços do jornalista americano para expor o monitoramento do seu governo foram reconhecidos com Prêmio Pulitzer, uma espécie de Nobel do jornalismo.

Seis anos depois, em uma tarde de domingo, o nome do jornalista premiado voltou aos destaques, dessa vez no Brasil. Um site, The Intercept, virou o centro das atenções após divulgar conversas entre o então juiz Sérgio Moro e o procurador da República, Deltan Dallagnol, onde os dois discutiam o caso Lava-Jato.

Aos poucos as redes sócias começaram a borburar. Aderentes do movimento #LulaLivre, que clamavam por um desenvolvimento positivo na saga jurídica do ex-presidente, demonstraram sua euforia propagando e ressaltado a relevância dos vazamentos.

O nível de saliência das mensagens reveladas depende da ideologia de quem opina. Entretanto, enxergo como razoável o entendimento, especificamente em relação ao julgamento do ex-presidentes Lula, que é pouco provável que a colaboração tenha afetado o desfecho dos processos, ou a pena determinada pelo juiz Paranaense, logo que a mesma foi confirmada e até ampliada em instancias distintas, até então não enredadas na controvérsia.

Tendo dito isso: o fato que as conversas divulgadas ente Moro e Dallagnol deram sustento a tese de que a justiça coordenava seus esforços para assegurar a condenação do ex-presidente é irrefutável.

Além do mais, vale ressaltar o efeito das conversas sobre o mais popular dos ministros do novo governo. Moro, até então, era o epicentro da moralidade do Executivo – simbologia que se tronou ainda mais importante após a abertura da investigação da COAF, que envolvem o filho do presidente, Senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ).

Mas o que trouxe o Nova Yorkino para no Brasil? Não existem injustiças a serem combatidas no governo Trump? O interesse de Glenn Greenwald pelo Brasil aparenta surgir do relacionamento cultivado com o deputado David Miranda (PSOL-RJ), que ingressou na Câmara como suplente do ex-BBB, Jean Willys (PSOL-RJ), que agora viaja pelo exterior defendendo a tese do golpe e minando a imagem do presidente Bolsonaro.

Miranda colaborou com Greenwald durante o caso Snowden.  Além disso, articulou com Luciana Genro, ex-deputada federal e fundadora do Partido Socialismo e Liberdade, para possibilitar asilo ao jornalista americano em território brasileiro. A intermediação de Miranda com o partido levou a filiação do deputado ao PSOL, partido que hoje representa na Câmara dos Deputados.

Glenn Greenwald vem retornando o favor, atacando o partido conservador do presidente, que o PSOL opõe no Congresso. O jornalista explicitou o seu antagonismo diante do governo em tweet feito em julho de 2018 “Os jornalistas ainda não têm uma estratégia eficaz para bater Bolsonaro… É preciso desenvolver uma rapidamente”.

Em menos de um ano, a estratégia foi desenvolvida e implementada com o primeiro vazamento. Apesar da euforia inicial dos que se opõem ao presidente, as revelações não agradaram o establishment como um todo.

Quando o real escopo das invasões foi revelado, atingindo inúmeros membros do judiciário, incluído o ex-procurador-geral da República, Rodrigo Janot, a classe política percebeu que estava vulnerável e desprevenida. Independente do posicionamento dos juízes e parlamentares diante do governo Bolsonaro, a vulnerabilidade dos seus celulares, onde todo tipo de assunto e interesse é tratado, criou grande apreensão.

Além de revelar a vulnerabilidade dos meios comunicativos dos parlamentares, Greenwald também prometeu atingir a rede Globo, a mais poderosa formadora de opiniões do Brasil. Segundo a rede de televisão, o jornalista americano entrou em contato com a emissora buscando usar o seu alcance para melhor disseminar os vazamentos.

Segundo o jornalista, os colaboradores da televisora foram proibidos de trabalhar com ele pelo vice-presidente do Conselho de Administração do grupo, João Roberto Marinho, filho do fundador da emissora.

Na última sexta-feira, 14 de junho, Greenwald participou do programa de rádio Pânico, da Jovem Pan. Durante o programa, o jornalista esclareceu que não trabalha para derrubar a operação Lava-Jato, e que acredita que os vazamentos podem fortalecer o combate à corrupção no pais.

O desfecho das controvérsias dependerá da munição detida pelo Greenwald e o site The Intercept, mas os interesses contrários aos jornalistas já se organizaram para combater a influência do americano. Existe também a tese que a colaboração com hackers constitui um crime, e que o jornalista pode ser responsabilizado pela quebra do sigilo dos inúmeros juristas que sofreram os ataques.

Por hora, só nos resta aguardar o próximo vazamento e observar como governo, seus aliados e seus opositores reagirão as futuras revelações.

Conrado Magalhães Conrado Magalhães

Analista Político

Formado em ciências políticas pela universidade Marymount Manhattan College (NY-EUA), com pós-graduação em administração pelo Insper. Possui cinco anos de experiência no ramo de consultoria política como analista da Arko Advice e agora é o analista político da Guide Investimentos.

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