Fique por dentro do mundo da economia!


CADASTRE-SE AQUI

FMI: juros mais baixos, riscos em alta?

Na semana passada, o FMI fez um alerta. O risco de uma desaceleração econômica global tem contribuído para que os bancos centrais adotem políticas de estímulo mundo afora. Apesar disto ter afastado os perigos no curtíssimo prazo, os seus desdobramentos em prazos mais longos ainda são, em grande parte, desconhecidos. Afinal, quais poderiam ser as consequências destas ações? Neste contexto é que o FMI divulgou, nos últimos dias, um relatório sobre a estabilidade financeira global, o chamado “Global Financial Stability Report”, um bom ponto de partida para discutirmos riscos à economia global. Qual é a visão do FMI sobre os dias de hoje? Quais são os riscos apontados pela instituição? Mais do que isso: entre as economias avançadas, quem parece ser a mais frágil?

O pano-de-fundo são os bancos centrais. A postura mais “branda” — ou “dovish”, em inglês — de diversos bancos centrais, como os de EUA, zona do euro, Reino Unido e Japão, têm tido uma repercussão clara: as taxas de juros ao redor do mundo estão cada vez mais baixas. Prova disso, um tanto alarmante, é que o montante de títulos com taxas de juros negativas subiu a impressionantes 15 trilhões de dólares. Isto mesmo: retornos negativos para quem investe nestes ativos! E este cenário de juros baixos (ou até mesmo negativos) dificilmente mudará nos próximos anos, em meio à tentativa de que a economia global volte a acelerar. Há dúvidas quanto à real capacidade que estas políticas de estímulo têm nos dias de hoje, e há dúvidas em relação aos efeitos colaterais não-desejáveis (e possivelmente ainda desconhecidos) que poderiam vir à tona. Desta forma, alguns, com razão, se perguntam: é possível que antes de a economia global voltar a acelerar tenhamos que encarar problemas vindos das políticas que vieram nos “salvar”?

Parece que sim, na opinião do FMI. Em seu relatório sobre estabilidade financeira, a instituição aborda esta questão em detalhe, em mais de 100 páginas de estudos e análises do cenário. Em linhas gerais, poderíamos dizer que o Fundo faz alertas para que medidas “urgentes” sejam tomadas pelos governos, e nem tudo fique como responsabilidade dos bancos centrais. É nítido que estes, sozinhos, não conseguirão reverter as fraquezas da economia global sem criar novos desequilíbrios. O sistema financeiro parece estar ficando mais frágil e, entre os calcanhares de Aquiles, destaca-se o setor corporativo: a dívida das empresas está em níveis alarmantes, ainda emitindo dívida aos montes neste cenário de muita demanda por ativos que paguem taxas de juros positivas, e poucas opções disponíveis. Neste contexto, “choques” econômicos, por menores que sejam, poderiam ser o estopim para que esta fragilidade se alastre para outros setores, incluindo o bancário. No gráfico a seguir, veja como têm evoluído os juros dos títulos soberanos nas economias avançadas – um bom resumo do FMI para este panorama de “juros baixos por mais tempo”.

Quem é o mais frágil? Se considerarmos as três principais economias do mundo, a zona do euro parece ser a menos preocupante, afirma o FMI. Medidas implementadas após a crise de 2012 ainda surtem efeitos positivos. Na China, as empresas, embora possam ter problemas numa recessão, estão sendo alvo de políticas públicas. E muitas das grandes são estatais, diga-se de passagem. Assim, é nos EUA aonde as fragilidades são mais preocupantes – um quadro que poderia se agravar ainda mais após os recentes cortes de juros do banco central. Recentemente, o jornalista do Financial Times Gavyn Davis, reconheceu: “Nos últimos seis meses, a situação financeira das empresas nos EUA se tornou mais preocupante”. No mundo como um todo, vale reparar: o mês de setembro registrou um recorde de emissões das empresas, totalizando mais de 400 bilhões de dólares, segundo dados da Dealogic.

Melhor no curto prazo, mas preocupante no médio. O FMI acredita que, a despeito dos efeitos positivos no curtíssimo prazo dos juros baixos (os mercados têm respondido bem a estes estímulos, por exemplo), no médio prazo os desafios são crescentes. Afinal, estimula-se a tomada de risco em excesso, especialmente daqueles investidores institucionais que, por mandato, precisam atingir um determinado retorno esperado. Não é por acaso que um capítulo inteiro da publicação da instituição aborda este assunto. Isto, no entanto, não quer dize que os bancos centrais estejam alheios à discussão. No final de setembro, Lael Brainard, do banco central americano, reconheceu os crescentes riscos à estabilidade financeira, e a situação de fragilidade no setor corporativo do país. Nos próximos meses, é razoável que os bancos centrais coloquem mais atenção a estes desequilíbrios, especialmente porque o cenário de “juros baixos por mais tempo” é uma realidade que veio para ficar. Em suma: ao contrário do que muitos acreditam, juros mais baixos também podem ser uma fonte de problemas.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

109 visualizações

Utilizamos cookies para melhorar a sua navegação

Entendi
Bitnami