FMI: Era “brilhante”, mas hoje é “delicado”. Como será amanhã?

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“Um ano atrás, a atividade econômica estava acelerando em praticamente todas as regiões do mundo. Um ano mais tarde, muito mudou”. Foi assim, e com tamanha dose de realidade, que a coletiva de imprensa de Gita Gopinath, a atual economista-chefe do FMI, começou nesta semana. O FMI lançou um novo relatório atualizando as suas projeções de crescimento para o mundo e serviu como um estopim para que muitos parassem para pensar: o que virá nos próximos meses? Serve também para entendermos o momento atual da economia global, os desafios, os riscos e é um lembrete sobre como as coisas podem mudar de forma relativamente rápida. Afinal, quais são as novas projeções do FMI? Como podemos classificar o atual momento?

Com o recém-lançado relatório em mãos (World Economic Outlook), Gita foi logo citando razões por trás da desaceleração na segunda metade do ano passado, e que devem continuar a contribuir para um crescimento mais fraco na primeira metade de 2019. Entre estes, destacam-se: a escalada das tensões comerciais entre EUA e China; a menor expansão do crédito na China; os desafios macroeconômicos de Argentina e Turquia; e as condições financeiras mais restritivas ao redor do mundo, um fruto da normalização das políticas monetárias de economias avançadas. Tudo isto contribuiu para que o FMI reduzisse a sua projeção de crescimento global para 2019, de 3.5% para 3.3%.

Uma característica da desaceleração econômica deste ano é que ela é “generalizada”, afirmou Gita. Ou seja: é decorrência não só de uma frustração com as economias avançadas, mas também com os emergentes. A partir da segunda metade deste ano, no entanto, o FMI espera ver alguma “recuperação”. Mas, é claro, dependerá de muitos fatores. Do lado positivo, tende a ter o suporte das atuais políticas monetárias de economias avançadas como EUA, Zona do Euro, Japão e Reino Unido (que parecem ter interrompido a “normalização” que estava em curso). Dito de outra forma: os juros, ainda baixos nestes países, devem demorar mais para voltar a níveis antes considerados “normais”. Isto exigirá, como contrapartida, atenção redobrada dos reguladores nestes países, apontou Gita. Ou seja: recairá uma responsabilidade grande sobre as chamadas políticas “macroprudenciais”, que tentam evitar o aumento do risco sistêmico.

Se 2019 será “morno”, não espere uma economia global muito aquecida a partir de 2020. O próprio FMI descreveu que a provável “recuperação”, se concretizada, será “precária”. É difícil enxergar gatilhos para um crescimento sólido adiante. Assim, a advertência que o FMI faz desde (ao menos) abril de 2018 tem se mostrado importante: antevendo uma possível desaceleração (que acabou acontecendo!), a instituição recomendava aos líderes dos países que se preparassem para uma possível piora do cenário. Na ocasião, quando publicou o World Economic Outlook em abril do ano passado, dizia nas entrelinhas: “aproveitem a oportunidade, façam o crescimento durar o máximo possível, e se equipem para a próxima desaceleração”. Embora tais alertas tenham sido dados por Maurice Obstfeld, o então economista-chefe, Gita Gopinath parece concordar com o seu antecessor, e reforçou os diversos riscos que ainda pairam sobre a economia global.

Ainda sobre o futuro que nos espera: em 2020, o mundo deve crescer 3.6% — número inalterado em relação à projeção anterior do FMI. Enquanto as economias avançadas crescerão 1.7%, emergentes e países em desenvolvimento crescerão 4.8%. A partir de 2020, segundo Gita, China e Índia são os que puxarão o crescimento deste segundo grupo. E aproveitou para aclarar que há grande heterogeneidade dentro dos chamados “emergentes”. Enquanto os asiáticos crescerão 6.3% em 2019 e 2020, a América Latina crescerá 1.4% em 2019 e 2.4% em 2020. O Brasil não parece ser um claro destaque positivo: crescerá 2.1% e 2.5%, respectivamente. Aliás, Gita chegou a citar em sua coletiva que o Brasil vive um momento de incerteza política e que tem postergado as reformas fiscais. Sem avançarmos neste front, continuaremos frágeis aos olhos do exterior.

Enxergando mais motivos para desacelerar do que acelerar, Gita — e o recém-lançado relatório do FMI — dão a entender que é momento para estarmos atentos. Aos poucos, o clima de euforia e exuberância dos mercados que perduraram em 2017, e o ainda otimismo no início de 2018, foram sendo substituídos por uma cautela e uma pilha de incertezas. Aliás, os próprios títulos dos relatórios do FMI são prova desta significativa mudança. No início do ano passado, por exemplo, o título do World Economic Outlook começava com “perspectivas brilhantes, mercados otimistas”. Agora, o ambiente é “delicado”. O que nos espera para amanhã?

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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