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FMI: desaceleração global sincronizada

O crescimento global está em desaceleração. Mais do que isso: esta desaceleração é sincronizada e não se restringe a um único país. Esta é a análise macro do FMI, no recém-divulgado relatório da instituição.  O “World Economic Outlook” (WEO) já é a publicação tradicional do FMI, com uma leitura interessante para termos uma idéia do panorama geral, e a tendência do crescimento econômico. Além disso, uma série de estudos costumam abordar temas atuais, aplicando metodologias rigorosas. Nesta versão, o título do WEO é bastante enfático: “Desaceleração global da manufatura, crescentes barreiras comerciais”. Afinal, quais foram as novidades destacadas pelo FMI?

Segundo o WEO, o crescimento global será de meros 3% em 2019 — o menor patamar desde a 2008-09. Para 2020, espera-se um crescimento ligeiramente melhor, de 3.4%, refletindo uma esperada melhora econômica em países da América Latina, Oriente Médio e Europa emergente. No entanto, em meio a um mar de incertezas, e projetadas desacelerações de China e EUA, a balança tende a continuar pesando para o lado mais negativo — algo que, diga-se de passagem, tem acontecido nos últimos meses. Aproveito para destacar outras projeções do FMI: os EUA, após crescerem 2.9% em 2018, devem crescer 2.4% em 2019, e 2.1% em 2020; a China, após 6.6% em 2018, desacelerará para 6.1% em 2019 e 5.8% em 2020. Na contramão, está o Brasil: após 1.1% em 2018, terá um desempenho pífio de 0.9% em 2019, mas deve acelerar para 2.0% em 2020. A seguir, mostro num gráfico aquilo que o FMI espera para o crescimento global: o quão crível é a recuperação projetada para 2020?

Nada novo e a tendência continua. A última divulgação do WEO foi em julho deste ano: naquele momento, o FMI também havia reduzido as suas projeções e passou a esperar 3.2% para 2019 e 3.5% para 2020. Passados três meses, estes números voltaram a recuar. Mas o ponto é que não é nada muito novo, ou inesperado: num comentário do dia 25 de julho, pós-divulgação do WEO, aproveitei para advertir que o mais provável era termos projeções mais baixas à frente, antes de vermos uma melhora. Isto implicaria em bancos centrais num modo mais “expansionista” (favoráveis aos cortes de juros, por exemplo) e mercados tentando ver estes movimentos como positivos, a despeito de riscos crescentes. De lá pra cá, no entanto, vemos que as bolsas (a julgar pelo desempenho do S&P 500, nos EUA, e o Ibovespa, no Brasil) pouco saíram do lugar, mas ao menos permanecem próximas às suas máximas.

O FMI reconhece uma “notável desaceleração” da indústria global — uma consequência de diversos fatores, incluindo (1) uma brusca queda da produção e venda de automóveis (compras caíram 3% em 2018), (2) fraca confiança dos investidores em meio às tensões comerciais entre China e EUA (e que também envolvem o setor de tecnologia), e uma (3) desaceleração da demanda chinesa, após esforços regulatórios para conter os níveis de endividamento por lá. Este menor ritmo do setor industrial também está relacionado ao menor ritmo comercial, é claro. E não é surpresa que o volume de comércio global esteja praticamente estagnado: segundo o FMI, os primeiros seis meses de 2019 registraram o ritmo de crescimento mais baixo desde 2012. No gráfico a seguir, mostro o comportamento recente do setor de serviços vis-a-vis o setor industrial: ambos têm desacelerado, mas a piora é muito mais evidente no segundo.

O FMI volta a fazer um alerta nesta semana e ressalta aquilo que não é surpresa para ninguém: a desaceleração global é uma realidade e é possível que continuemos a ver números mais baixos antes de o crescimento melhorar. Conseguirão os demais países crescer em meio à esperada desaceleração de EUA e China? Como reagirão as economias às recentes políticas de estímulo dos bancos centrais? Parece-me que parte da recuperação do crescimento projetada para 2020 depende da reação (positiva) destas economias a tais políticas. Hoje, assim como há três meses, continuo a me perguntar: conseguirão os bancos centrais reanimar ao crescimento econômico? Ao que tudo indica, será preciso fazer mais: contra uma desaceleração econômica sincronizada, somente políticas também sincronizadas — não só monetária, mas também fiscal e comercial, por exemplo — é que poderão interromper esta tendência negativa.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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