Fica como está: no exterior, juros estáveis

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Vai demorar mais para subir. Refiro-me, aqui, às taxas de juros de diversos países ao redor do mundo. Afinal, bancos centrais, diante do atual cenário internacional, têm preferido manter as suas taxas de juros inalteradas, decepcionando àqueles investidores que esperavam novas elevações. Nos últimos dias, além da importante mudança de postura do banco central dos EUA, outras instituições — incluindo as de Austrália, Índia e Reino Unido — parecem ter desistido de subir os juros no curto prazo. Quais os motivos disto? É algo para “comemorar”?

Entre as preocupações atuais, está a desaceleração do crescimento econômico global. Aliás, para o ano de 2019, o FMI recentemente revisou a sua projeção de crescimento, de 3.7% para 3.5%. Se nos EUA o ciclo econômico parece estar chegando ao seu fim, nem da China e muito menos da Europa parece que virá a retomada global. Segundo o economista Larry Summers, “a economia global está muito mais propensa a sofrer de uma desaceleração do que um superaquecimento nos próximos dois anos”. Neste contexto, a maior cautela dos bancos centrais ao redor do mundo é bem-vinda. Continuar com os planos de subir juros e normalizar as políticas monetárias era ignorar os riscos em ascensão — algo que continuaria a aumentar os receios do mercado sobre a próxima crise.

Em relação ao crescimento econômico, grande parte das atenções dos investidores ainda está concentrada na China. Afinal, a guerra comercial com os EUA ainda não chegou ao seu capítulo final, e o país hoje é muito mais relevante para o mundo do que no passado recente. Uma desaceleração teria impactos globais. Embora a projeção do FMI para o PIB deste ano tenha permanecido em 6.2% em sua última atualização, a verdade é que a maioria dos dados de atividade recentes têm vindo abaixo do esperado dos analistas. Neste contexto, as autoridades do país tentam estimular a economia, mas é difícil imaginar uma retomada vindo daqui. Como já disse em textos recentes, é difícil imaginar uma repetição daquilo que vimos em 2016.

Ao mesmo tempo, países da Zona do Euro, com especial destaque para a Alemanha, por exemplo, têm sido grandes surpresas negativas nos últimos meses. A isto — e tantos problemas políticos na região —, soma-se a possível — e cada vez mais provável — separação problemática do Reino Unido da União Europeia. Investidores, que até aqui eram complacentes, estão mais convencidos de que o Brexit sem grandes acordos com as economias do bloco, é, sim, uma realidade. O resultado das negociações não sairá antes do final de março. Seja como for, é mais provável que o continente seja uma fonte de problemas do que de soluções. Ou seja: também é muito difícil esperar uma ajuda para o crescimento global vinda destes países.

Estamos em tempos paradoxais. As principais economias do mundo saíram há bastante tempo da última crise que as atingiu. No entanto, mesmo podendo comemorar o longo período de recuperação econômica, muitos têm começado a se preocupar com a chegada da próxima crise, e a incapacidade que teremos para combatê-la. Esta será, muito provavelmente, uma grande diferença com relação à última grande crise em escala global que tivemos. Seria ótimo se os juros nas economias desenvolvidas já estivessem em patamares mais altos, dando-lhes capacidade para reagir a qualquer choque econômico futuro. Como esta não a realidade, o melhor remédio é a cautela. A manutenção dos juros mundo afora não é motivo de comemoração, mas está longe de ser um motivo para grande alívio.

 

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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