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FED: sem mais cortes de juros (por enquanto)

O FED cortou nesta semana (dia 30) as taxas de juros pela terceira vez em 2019, em linha com o esperado pelo mercado. A partir de agora, e após mudanças em sua comunicação – não só no comunicado oficial, mas também na coletiva de imprensa do presidente Jay Powell –, o mais provável é que o FED se mantenha em “modo de espera”. Ou seja: o cenário-base é de manutenção das taxas de juros nos EUA pelos próximos meses, no atual patamar de 1.50-1.75% ao ano. A dose de política monetária mais expansionista, recentemente rotulada como se fosse uma espécie de “seguro” contra possíveis riscos à frente, já teria sido dada. Mas o que pode fazer esta análise estar errada e os juros caírem ainda mais? Na direção oposta, deveríamos então nos preparar para elevações de juros nos EUA?

A comunicação não é a mesma

Com relação ao comunicado, vale pontuar: se até há pouco o FED falava que agiria “conforme apropriado para sustentar a expansão”, agora preferiu dizer que “continuará monitorando as implicações das informações recebidas para as perspectivas econômicas”. Mas é claro que, se necessário, o FED voltará a cortar os juros. Powell repetiu o já tradicional alerta: “A política [do FED] não está em um curso predefinido”. Ou seja: embora o mercado ainda atribua alguma probabilidade de corte na última reunião do ano (dias 10 e 11 de dezembro), somente uma piora de cenário significativa no curto prazo (dados mais fracos ou expectativa forte de que isto aconteça) fará os juros recuarem ainda mais, abaixo do patamar atual. O mercado parece concordar com a “pausa” do FED. Para 2020, apenas 1 corte parece estar precificado, por exemplo. Com as informações atuais, não há razões para esperar novos estímulos (por enquanto).

Se não vão cair mais, então que dizer que os juros subirão em breve?

Não. Pelo contrário: Jay Powell, ao dizer que somente uma “séria” elevação da inflação faria o FED voltar a subir os juros, contribuiu para que as expectativas dos investidores se ajustassem na tarde desta quarta-feira (30), e este cenário se tornasse ainda menos provável (para dizer o mínimo). Prova disto é que os juros dos títulos soberanos mais longos recuaram mais do que os curtos. A verdade é que, de modo geral, o viés do FED ainda é de mais estímulos nos próximos 12-24 meses, a despeito desta “pausa”. Afinal de contas, a economia americana está em desaceleração: segundo as últimas projeções do FED, o PIB deve crescer 2.2% este ano, e cair para 2.0% em 2020 e 1.9% em 2021. Mais: há riscos mais negativos no radar. No início deste mês, o FED de NY atualizou o seu modelo de risco de recessão para os próximos 12 meses: a probabilidade de isto acontecer é de expressivos 34%.

Em suma: o FED, após 3 cortes de juros, deve fazer uma “pausa” para observar a evolução de cenário. A dose de estímulos – o famoso “ajuste no meio do ciclo” ao que Powell se referia em meados deste ano – foi dada. Agora, é esperar para ver como evoluirá o cenário, e esperar que o FED não precise continuar cortando os juros. Isto significaria que as condições econômicas estão deteriorando no exterior. Neste contexto, vale notar que os investidores parecem ter “concordado” com os planos do FED. Também é curioso que o índice S&P 500 tenha revertido as perdas do início da sessão desta quarta-feira (30), e fechado com ganhos, em novo recorde de pontuação. Por enquanto, convenhamos: o FED tem sido hábil em sua comunicação e bem-sucedido em sua missão.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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