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FED: são tempos de julgamentos difíceis. E daí?

“Hoje, decidimos reduzir as taxas de juros”, afirmou Jay Powell, o presidente do FED, na última reunião de política monetária (18). Em linha com o esperado pelo mercado, os juros nos EUA passaram de 2.25-2.00% para 2.00-1.75% ao ano – o segundo corte consecutivo do FED (o primeiro foi anunciado no final de julho). Mas nem todos ficaram felizes com as decisões Powell e Cia. O mercado esperava uma sinalização mais favorável a futuros cortes de juros; mas isto não veio. O presidente Donald Trump também esperava algo diferente e, contrariado, foi direto ao ataque no Twitter: “Jay Powell e o FED falharam de novo”. Afinal, quais foram as novidades e quais foram as sinalizações do FED? O que devemos esperar pela frente?

A decisão quanto ao corte de juros não surpreendeu; e vejo pouco para ser comentado sobre o segundo corte de juros do FED em mais de uma década. Já estava na “conta”. O importante, em minha visão, diz respeito às sinalizações da instituição e àquilo que pode acontecer nos próximos meses. Aqui, e contrário àquilo que muitos esperavam, o FED não parece muito inclinado a continuar com tais cortes. O mercado, antes da reunião do FED, precificava ao menos mais 2 cortes até o final de 2020, segundo cálculos da Bloomberg (algo que levaria os juros para um patamar de 1.50-1.25% ao ano). A mediana das projeções oficiais do FED, por outro lado, prevê uma estabilidade dos fed funds rates até o final de 2020 (tais projeções foram divulgadas ontem, junto com perspectivas sobre PIB, desemprego e inflação).

A despeito dos riscos à economia americana – Powell, desde o início, destacou as tensões comerciais e a desaceleração econômica global –, o corte de juros anunciado ontem pelo FED acabou com um gostinho de “decepção”. Uma espécie de “quero mais” que, aos olhos da maioria, não fora atendido. Aliás, o recente “choque” de petróleo havia aumentado esta expectativa de que o FED pudesse se mostrar mais favorável aos estímulos monetários; mas vimos um FED ainda otimista quanto ao futuro da economia americana, e confiante que os ajustes que têm sido feitos continuarão a nos levar para o bom cenário que os dirigentes traçam em suas projeções. Embora muito atento aos eventos internacionais, e com opiniões distintas dentro do próprio comitê de política monetária (um dos dirigentes do FED votou a favor de um corte de 50 pontos base, e não 25; e 2 dirigentes voltaram a votar a favor da manutenção das taxas de juros), o FED mostrou-se mais cauteloso com relação às suas futuras ações.

Na coletiva de imprensa com jornalistas, Powell foi logo perguntado sobre a continuidade dos cortes de juros. O jornalista queria saber se ele ainda enxergava estes cortes como sendo um mero “ajuste”, ao invés de uma mudança no ciclo. Talvez tenha sido este um dos momentos em que ficou mais claro que Powell não vê uma grande necessidade de continuar com os cortes adiante. Começou a destacar o bom momento pela qual passa a economia dos EUA, e aproveitou para relembrar dois episódios na História recente em que “ajustes” do FED na política monetária foram o suficiente para acomodar os riscos econômicos de forma bem-sucedida. Mas vivemos tempos diferentes. O mesmo valerá hoje? Aliás, Powell reconheceu que “Quando a direção é relativamente clara, é relativamente fácil alcançar a unanimidade”, mas “Este é um momento de julgamentos difíceis, como você pode ver, perspectivas díspares”. Aqui, obviamente, referia-se Powell aos três votos dissidentes neste encontro.

Não há consensos quanto à direção do FED a partir de agora. A próxima reunião de política monetária será nos dias 29 e 30 de outubro. Depois, virá a última de 2019, dias 10 e 11 de dezembro. Os riscos de guerra comercial e desaceleração econômica global devem, ao meu ver, continuar. A economia americana deve desacelerar nos próximos trimestres, embora muitos já esperem esta queda no ritmo. Donald Trump, caso as coisas piorem, continuará a culpar o FED, às vésperas das eleições de 2020. Neste contexto, será difícil vermos o FED mais unânime em suas decisões, e teremos que esperar para ver quais serão os próximos capítulos. Talvez o mais razoável hoje seja acreditar que os juros podem cair mais até o final de 2020, mas não espere algo “linear” e decisões “óbvias”. Afinal, este é um momento de julgamentos difíceis.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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