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Europa: por favor, acorde!

A Europa está dividida. Não faltam exemplos de conflitos políticos e econômicos na região que, ao se retroalimentarem, têm colocado em xeque o protagonismo da União Europeia no resto do mundo. Neste mês, o respeitado investidor George Soros voltou a destacar a sua preocupação com relação ao futuro do bloco. O título de seu texto, na plataforma Project Syndicate, não poderia ser mais sugestivo: “Europa, por favor, acorde”. Segundo Soros, nem os líderes destes países e nem a população perceberam a relevância do momento atual. Segundo ele, é possível que a União Europeia caminhe para ser a União Soviética de 1991.

O próximo grande “teste” para a região acontecerá no final de maio, entre os dias 23 e 26, quando há novas eleições ao Parlamento Europeu. Esta é a instituição que representa 28 membros e mais de 500 milhões de pessoas. É um bloco enorme, cada vez mais desigual e cheio de dificuldades de voltar a crescer de forma sustentável. No atual contexto, acredita-se que forças anti-Euro continuem a ganhar forças pelo continente, e não há nada que aponte, de forma minimamente clara, numa direção de união e fortalecimento dos princípios que fundaram tal União. A opinião é compartilhada por Soros.

Na Alemanha, por exemplo, a aliança política que coexistia de forma relativamente pacífica entre os dois principais partidos do país já dá sinais de enfraquecimento. Extremos têm ganhado forças, e este é o caso do partido de direita “Alternativa para a Alemanha” (AfD, na sigla em alemão), fundado em 2013. Por muitos é caracterizado como nacionalista e “anti-Euro”, com traços racistas e xenófobos. No momento, acredite: se há 5 anos era minúsculo, hoje já é o terceiro maior partido do país, e tem representação em praticamente todas as suas regiões. Como este, há outros exemplos no continente.

Outros conflitos se espalham pela região. Na Itália e na Espanha, por exemplo, líderes de partidos pequenos e sem grande articulação com as forças políticas mais tradicionais têm mostrado fragilidades que voltaram a ameaçar o seu futuro econômico. A incerteza aumentou, e não há um ambiente que estimule investimentos por parte das empresas. Sem a força da Alemanha, a principal economia da União Europeia, estes países “periféricos” também tendem a ter dificuldade para manter a rota do crescimento que até há pouco parecia ser uma nova realidade.

Nos últimos meses, a Alemanha praticamente entrou em recessão (se ainda não “regrediu”, podemos dizer que está “estacionada”). Após o PIB contrair no terceiro trimestre de 2018, ficou estável no quarto trimestre. Além disso, o perigo da “deflação” voltou a ameaçar as maiores economias da Zona do Euro. As expectativas de inflação, medidas pela inflação implícita dos títulos de 10 anos de economias como Alemanha, França, Itália e Espanha, por exemplo, têm recuado, e estão entre 0.50-1.00% ao ano, aproximadamente. Para fins de comparação: no primeiro semestre de 2018, estes números estavam mais próximos de 1.00-1.50%. Como reagirá o banco central europeu, hoje (ainda) chefiado pelo italiano Mario Draghi?

De volta à política, temos que uma das últimas surpresas da União Europeia veio da Espanha. Após pouco mais de 8 meses de poder do atual presidente do Governo Pedro Sánchez, eleições gerais foram convocadas para o dia 28 de abril (pouco antes, no dia 26, os espanhóis também vão às urnas, por conta de eleições regionais). Para o enfraquecimento de Sanchez, foi decisiva a relação com a Catalunha — uma região que reivindica regras distintas, maior autonomia política e tem extremistas que defendem a independência. O próximo morador do “Palacio de la Moncloa”, em Madrid, já sabe: a relação com o “Palau de la Generalitat”, em Barcelona, não será fácil.

A Europa vive tempos de difícil coordenação política, cujas implicações econômicas não são triviais. Acontecimentos mais recentes deveriam servir para nos convencer de que tais problemas podem aumentar antes de melhorar. Relendo as opiniões de George Soros nos últimos meses, é nítida a sua preocupação crescente em relação ao futuro da União Europeia. Em maio de 2018, por exemplo, Soros desejava sorte aos líderes da França e Alemanha. Hoje, se dirige a todos: “por favor, acordem”.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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