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Europa: Lagarde e os descontentes

Christine Lagarde é a nova presidente do banco central europeu (BCE). No início deste mês, substituiu Mario Draghi e ficará no posto pelos próximos oito anos. Após decisões pouco consensuais do BCE em setembro, ainda sob o comando de Draghi, há ainda uma espécie de insatisfação dentro da instituição. Será Lagarde capaz de lidar com estas questões? Aliás, como será o BCE sob o seu comando? Estas são dúvidas importantes no cenário internacional, dada a expectativa sobre a continuidade das políticas de estímulo à Zona do Euro. Sem consensos, Lagarde conseguirá manter estas políticas de suporte às economias da região? Mais: como reagirão os mercados?

As críticas continuam e Lagarde está sob pressão

 O descontentamento é nítido dentro do BCE. Alguns dirigentes, através de entrevistas e discursos recentes, têm se manifestado de forma contrária às recentes decisões da instituição, incluindo os cortes de juros e, de forma especial, à volta do pacote de compras mensais de ativos, também conhecido como quantitative easing (QE). Estas decisões foram tomadas na reunião de política monetária de setembro. Assim, aproveitando a saída de Draghi, há uma grande pressão para que Lagarde altere algumas regras do funcionamento da instituição. Muitos querem que o BCE se assemelhe mais ao FED, dos EUA: lá, há um número determinado de dirigentes com direito a voto nas decisões de política monetária, e estes votos são, de alguma forma, reportados ao público. No BCE, ainda não há tal transparência. Nesta semana, Lagarde terá reuniões com os dirigentes do BCE, e investidores aguardam novidades. Se algumas regras mudarem, o mais provável é que seja agora no início da sua gestão.

A estrutura: committee X governing council.

 De acordo com uma matéria do Financial Times (FT), Draghi chegou a ignorar uma carta que lhe fora enviada em setembro pelo committee de política monetária do BCE, contrária à volta dos estímulos. Sem a necessidade de acatar as opiniões e os estudos deste committee, Draghi e o chamado governing council optaram por mais estímulos, como já sabemos. Os juros de curto se tornaram ainda mais negativos e o QE – que visa reduzir os juros de longo prazo – recomeçou neste mês. Serão injetados mensalmente 20 bilhões de euros, como comentei num texto recente sobre o BCE. Sob o comando de Lagarde, é possível que as decisões se tornem um pouco menos “concentradas” e, consequentemente, que o BCE se torne ainda mais “lento” para reagir às necessidades da região. Registre-se: apesar de um terço ter sido contrário às medidas de Draghi, a maioria do governing council, composto por 25 dirigentes, as defendeu.

Mais estímulos, mais retornos?

Enquanto as dúvidas com relação ao BCE continuam, os mercados têm se tornado um pouco mais céticos quanto à continuidade das suas políticas de estímulo. Afinal, um BCE mais dividido será um entrave a futuros cortes de juros (se é que ainda há muito espaço para isto) e a um QE mais intenso, como alguns esperam ainda para 2020. Desta forma, de setembro até aqui, os juros de longo prazo na Zona do Euro têm se ajustado a este cenário, por exemplo. Mas vale notar: além da mais recente (embora não-consensual) ajuda do BCE, um tom mais positivo entre EUA e China tem ajudado às ações na Europa. Em 2019, o índice Stoxx 600 já sobe ao redor de 20%. E praticamente metade deste desempenho foi obtido desde meados de agosto. Se não houver grandes surpresas, o ano de 2019 caminha para ter um bom fechamento.

O futuro do BCE seguirá sob o radar dos investidores. Lagarde tem dias difíceis pela frente, mas mostra-se hábil para criar consensos. A sua experiência no FMI, por exemplo, sugere que o BCE pode se tornar uma instituição um pouco mais plural. O outro lado da moeda é que isto pode torna-la mais lenta para agir. À frente, somente uma piora das expectativas deve fazer o BCE acelerar as suas políticas de estímulo. Por enquanto, o mais razoável é ver uma espécie de “pausa”, embora mudanças possam vir do lado da “regulação” e funcionamento interno da instituição. Com relação aos mercados, no curtíssimo prazo, segue o bom momento, e somente grandes surpresas negativas é que podem ofuscar o bom desempenho dos últimos meses.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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