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Europa: eles viram algo que nós não vimos?

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Na semana passada, o banco central europeu (ECB, na sigla em inglês), chefiado pelo italiano Mario Draghi, surpreendeu os investidores: anunciou medidas de estímulo à economia, incluindo uma rodada de empréstimos direcionados aos bancos. A Zona do Euro segue decepcionando em termos econômicos, mas o anúncio do ECB, ao invés de “ajudar”, parece ter reascendido as dúvidas dos investidores. Quais são as razões por trás disto? De modo geral, o que podemos dizer sobre os bancos da Europa? Neste comentário, destaco 2 fatores que contribuíram para a reação negativa dos investidores aos novos anúncios do BC europeu.

1 – Mais é menos…

A primeira “razão” é que uma postura mais “branda” do ECB — ou seja, uma postura mais “agressiva”, e pró-estímulos monetários — significa, na prática, taxas de juros mais baixas. É por isto que fazer “mais” implica, de forma simplificada, em menos juros. Para os bancos, que lucram com a diferença de taxas (spread) entre aqueles que ofertam e demandam recursos, pode ser um fator negativo.

Embora na teoria a relação entre taxas de juros e desempenho/lucratividade dos bancos seja menos clara — além do impacto negativo que comentei anteriormente, é preciso considerar o impacto potencialmente positivo que as medidas do BC terão sobre o ritmo da economia, por exemplo —, na prática, os investidores não parecem ter dado o benefício da dúvida. Afinal, é difícil acreditar que, no curto prazo, a Zona do Euro começará a acelerar por conta destas medidas.

Os juros dos títulos de 10 anos da Alemanha, que já estavam em baixa antes dos anúncios do ECB, continuaram a recuar. Aliás, naquele momento, chegaram a ficar muito próximos do terreno negativo — uma situação que não é vista desde 2016, e que o ECB gostaria de evitar.

2 – Todos já sabem que ele não sabe…

A segunda razão diz respeito à surpresa em si e à interpretação da maioria dos investidores. A verdade é que poucos analistas esperavam que, neste momento, mais estímulos viessem à tona. As ações do ECB, portanto, foram interpretadas como um sinal de desespero. O economista Mohamed El-Erian, em sua coluna à Bloomberg, parece concordar com esta impressão. É como se tivesse ficado claro que o BC não tem “a resposta” correta às dúvidas atuais, e o mercado tivesse se dado conta disto.

Seja como for, é verdade que a Zona do Euro tem perdido fôlego nos últimos meses, e tudo indicava que, mais cedo ou mais tarde, “algo” precisaria ser feito. O Índice de Supresa Econômica reportado pela Bloomberg, por exemplo, é negativo desde o início de 2018. Em outras palavras, significa que os dados de atividade econômica da Zona do Euro têm ficado abaixo do esperado desde então. De lá pra cá, acumulam-se “frustrações”. Neste contexto, o ECB acabou cortando as suas projeções de crescimento e inflação para os próximos anos.

Soma-se à atual fragilidade econômica — e, muito provavelmente, contribuindo para este ciclo negativo — a elevada incerteza política na região. Além do divórcio entre Reino Unido e União Europeia, o bloco também se depara com uma relação desgastaste com a Itália. Na Espanha, a política interna ainda também é algo que nos últimos meses piorou. Não é por acaso que George Soros recentemente voltou a mostrar preocupação com o futuro do bloco.

E do lado “positivo”?

Em meio às dúvidas crescentes sobre a economia e o setor bancário, é possível dizer que os bancos europeus continuam a pagar bons dividendos. Ao menos é isto aquilo que tem sido usado por alguns analistas para defender a recomendação positiva ao setor. Os bancos europeus há muito tempo são considerados mais “baratos” do que os seus pares nos Estados Unidos, mas eles seguem “descontados”, sem terem conseguido obter a tão aguardada recuperação.

Por fim, não está nada claro o futuro dos bancos europeus e, embora possam parecer “baratos” segundo diversas métricas, é difícil acreditar que o contexto econômico da região os ajudará no curto prazo. Neste contexto não muito favorável, já seria positivo para os investidores se os bancos sobrevivessem aos possíveis contratempos que podem aparecer, sem cortarem os dividendos nos próximos anos. Sobre os 2 fatores que enumerei acima: está claro que “mais é menos”, mas é possível que o ECB — embora não tenha as respostas a todas as perguntas —, esteja enxergando algo que nós não estamos vendo. Só o tempo irá dizer.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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