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EUA: Powell, o fim do ciclo, e uma carta na manga?

As duas “cartadas” de salvação para os mercados internacionais — (i) um acordo comercial entre EUA e China e (ii) cortes de juros do banco central americano (FED) — não devem materializar-se e/ou ter o efeito desejado no curto prazo. O risco comercial continuará no radar dos investidores por mais tempo (leia mais aqui e aqui), e o “alívio” por conta de uma mudança de postura do FED não veio, após o recente corte de juros nos EUA (o primeiro em mais de uma década!). E agora? O que esperar nos próximos meses? Como avaliar os eventos recentes no cenário econômico internacional?

Os riscos são crescentes

O FED cortou os juros de 2.50-2.25% para 2.25-2.00% ao ano no mês de julho (dia 31). De lá pra cá, o índice acionário dos EUA, o S&P 500, recua aproximados 3% (considerando o desempenho até o fechamento da sexta-feira, dia 16 de agosto). Se considerarmos a mínima do período, chegou a cair mais de 4.5%. Em 2019, o índice ainda acumula ganhos de 15%, mas o recuo o desempenho das últimas semanas já é o suficiente para ascender a luz amarela dos investidores. As tensões comerciais entre EUA e China aumentaram no início do mês, e mesmo após momentos de “alívio” (aumento de tarifas postergado para dezembro, por exemplo), não há indícios de que os mercados estão prontos para novas rodadas de ganhos no curtíssimo prazo. Se a “ajuda” dos bancos centrais não surtir mais o efeito desejado e as tensões comerciais não se dissiparem de forma crível, estes dois fatores continuarão a ser empecilhos para que o bom momento dos ativos se mantenha por mais algum tempo.

Fim do ciclo

Além disto, cresce uma importante dúvida: estamos caminhando para a próxima recessão econômica? Tudo indica que estamos no final do ciclo econômico. Aliás, nas últimas semanas, o número de comentários sobre a tal “inversão” da curva de juros dos EUA parece ter se multiplicado. Não é pouca coisa: aos gritos, estes indicadores sugerem que as expectativas para os próximos meses não são das melhores. Pelo contrário. No último dia 14 de agosto, por exemplo, a diferença entre os juros dos títulos de 2 anos e 10 anos ficou negativa pela primeira vez desde fevereiro de 2006. Dito de outra forma: os juros de 2 anos ficaram acima dos juros de 10 anos. Isto sugere que o mercado está preocupado com o desempenho dos próximos anos da economia, e é mais um sinal de que as coisas não estão bem. É bem verdade que há quem diga que “desta vez é diferente”, e há sim motivos para isto, mas seria ingênuo ignorar estes sinais, mesmo que tais “inversões” sejam momentâneas. Neste contexto, nem mesmo o corte de juros do FED em julho parece ter sido entendido como algo “positivo” (vide o desempenho recente da bolsa americana, por exemplo). Registre-se: dois dias antes do anúncio do corte do FED, escrevi um texto aqui para o blog da Guide chamando a atenção para o “erro” de considerarmos esta ação dos bancos centrais como sendo algo inevitavelmente “positivo” para os mercados acionários.

Ajude-me, por favor

Os mercados esperam que o FED continue a sustentar aquilo que, mais cedo ou mais tarde, será insustentável. Para a próxima reunião de política monetária (dias 17 e 18 de setembro), muitos esperam um corte de 50 pontos base – o dobro da “dose” de 25 pontos tradicionalmente utilizada para elevações ou cortes de juros por lá. O problema é que o FED está pressionado não apenas pelo mercado, mas também pelo presidente Donald Trump. O republicano acusa a instituição de todo e qualquer dado econômico considerado ruim – algo que tende a se intensificar às vésperas das eleições presidenciais do ano que vem, diga-se de passagem. Numa delicada situação, Jay Powell, o presidente do FED, fará nesta semana (sexta-feira) um discurso no tradicional encontro anual de Jackson Hole (EUA). Qual será a mensagem? Conseguirá guiar as expectativas do mercado? Conseguirá pressionado e criticado por Trump? Se os mercados continuarem à espera de um corte maior e o FED decepcioná-lo em meados do mês que vem, será muito difícil ver uma recuperação dos mercados.

Para os próximos dias, portanto, vale acompanhar as sinalizações de Powell no encontro de Jackson Hole. Antes disto, na quarta-feira (21), o FED divulgará a ata da última reunião de política monetária, na qual os juros caíram pela primeira vez em mais de uma década. Quanto aos EUA, estes talvez sejam os dois eventos mais relevantes da semana. Estamos em tempos de extrema dependência dos bancos centrais, e toda e qualquer sinalização pode ser importante para mexer com os mercados internacionais. Sem muita capacidade para prever os próximos capítulos da tensão comercial entre EUA e China (embora acredite que esta continuará no radar por mais tempo do que os “otimistas” acreditam), acompanhar o comportamento do FED seguirá sendo importante. Powell, nesta semana, deve indicar que está pronto para agir, se necessário. A questão é: mesmo que isto seja verdade, conseguirá ele nos livrar da próxima recessão? Difícil acreditar em cartas na manga.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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