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EUA: Para você, quem é o inimigo?

As bolsas americanas terminaram a última semana em baixa. Aliás, foi a quarta semana consecutiva de perdas, após novas preocupações quanto às tensões comerciais entre EUA e China, e pressões políticas de Donald Trump sobre o banco central americano, constantemente acusado de ser um dos entraves econômicos dos EUA. Até quando continuaremos falando destes dois assuntos? Estes continuarão a ser uma fonte de volatilidade dos mercados? Quem são os inimigos dos investidores?

Somente na última sexta-feira, dia 24, o índice americano S&P 500 fechou em baixa de 2.6%. Por outro lado, hoje, segunda-feira (26), uma espécie de “alívio” quanto à tensão comercial — segundo Trump, a China quer sentar para negociar com os EUA — contribuiu para uma recuperação das bolsas. Mas não se engane: é, sem dúvidas, cedo para apostar no término das tensões comerciais. Para Trump é conveniente poder colocar a culpa nos chineses, caso a situação econômica se deteriore até as eleições do ano que vem. Além disso, é a sua forma de ser, encarando a força da China e o déficit comercial americano como sendo aspectos claramente negativos. Aliás, em seu Twitter, Trump escreveu na última sexta-feira (23): “Minha única pergunta é quem é o nosso maior inimigo, Jay Powell ou Xi?”, colocando no centro das atenções não só ao líder chinês, mas também ao atual presidente do FED (o BC americano). Para Trump, ambos são inimigos.

Há um receio crescente entre investidores de que os EUA possam estar caminhando para a próxima recessão. A inversão da curva de juros, a desaceleração global e os riscos econômicos espalhados pelo mundo — não só envolvendo EUA-China, mas também Europa e outros países emergentes — têm provocado uma onda de desconfiança e, consequentemente, volatilidade. Neste contexto, Trump gostaria que o FED cortasse ainda mais as taxas de juros do país, hoje entre 2.25-2.00% ao ano — uma forma de tentar minimizar os obstáculos ao maior crescimento no curto prazo, ainda que isto possa aumentar os problemas à frente. Na cabeça da maioria, cortar as taxas de juros é sinônimo de “melhorar” ou “acelerar” a economia. Neste contexto, um interessante artigo na revista Project Syndicate, escrito pelos economistas Summers e Stansbury me chamou a atenção: não deveríamos jogar a responsabilidade nos bancos centrais, nem acreditar que, com juros mais baixos, os problemas serão resolvidos. Atento aos efeitos colaterais, o artigo destaca que esta relação pode estar invertida nos dias de hoje, e juros mais baixos acabarem piorando a situação.

Seja como for, e assim como no caso da tensão EUA-China, parece conveniente para o presidente Trump ter a quem culpar. Neste caso, o FED é — e continuará a ser — acusado de interromper ou dificultar o crescimento americano. Em tempos de eleições, vale tudo. Em última análise, Trump terá como dizer que “se os juros tivessem caído antes…”, as coisas poderiam ter sido diferentes. Isto, no entanto, não quer dizer que o FED não tenha cometido erros: aos olhos de hoje, é difícil não ser crítico quanto à última elevação de juros, adotada no final de 2018.

Antes do tuíte de Trump, na mesma sexta-feira (23), Powell fez um discurso muito aguardado pelos investidores, intitulado “Desafios da Política Monetária”, e proferido em Jackson Hole (Wyoming, EUA). O encontro anual de Jackson Hole, já tradicional entre economistas de mercado, acadêmicos e banqueiros centrais, é uma oportunidade para que alguns líderes — como é o caso de Powell, hoje à frente do FED — passem “recados” e “sinalizações” aos investidores (menos atentos às discussões acadêmicas, porém, ansiosos por “pistas” sobre os próximos passos da política monetária, por exemplo). No entanto, apesar da grande expectativa, o discurso de Powell não trouxe grandes novidades. Nas entrelinhas, vimos um Powell sem muita convicção com relação às futuras quedas das taxas de juros nos EUA — movimentos que os mercados já precificam e ainda devemos ver, em minha opinião, nos próximos meses. Afinal, o mais provável é que ainda estejamos num cenário internacional permeado de riscos, incluindo a tensão EUA-China e as desavenças entre Trump e FED, por exemplo. Assim, Powell, mesmo a contragosto, tende a continuar pressionado por Trump, investidores e um cenário difícil de ser navegado. De forma sucinta, o mais provável é que os juros nos EUA continuem a cair à frente, e a despeito dos riscos apontados por Summers e Stansbury.

Os últimos dias trouxeram um pouco mais do mesmo: mercados voláteis, alguma correção, e investidores sem muita clareza sobre os próximos passos. Os sinais de recessão e preocupações continuam nos EUA. E também continuam as tensões entre Trump e China, e as pressões do presidente sobre o FED. Nada novo. Enquanto alguns buscam inimigos, parece mais razoável entender que o cenário internacional é hoje delicado, e há poucas certezas no ar. Nem mesmo o efeito de quedas de juros sobre o ritmo econômico é óbvio, na opinião de Summers, um dos economistas mais respeitados do mundo. Para mim, o único inimigo dos investidores são as certezas e opiniões imutáveis.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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