EUA: para onde vão os juros, a economia e a bolsa em 2020?

O FED, o banco central dos EUA, decidiu manter as taxas de juros estáveis na sua última reunião de política monetária de 2019. Os chamados Fed Funds Rates estão hoje em 1.50-1.75% ao ano, e devem permanecer assim ao longo de 2020. Este é, aos olhos de hoje, o cenário mais provável. A desaceleração econômica para os próximos trimestres já está “na conta” do FED e não parece haver tanto receio quanto a uma possível recessão. Com a inflação ainda baixa (na casa dos 1.6%), e abaixo da meta de 2%, não há pressa para retomar a normalização destas taxas. O que mais podemos dizer sobre a reunião do FED e os seus próximos passos? E sobre os rumos da economia, das taxas de juros e dos mercados acionários para 2020?

A reunião do FED desta semana foi bem recebida pelos investidores. Aliás, se os juros continuarem mesmo no atual patamar pelos próximos meses, este terá sido um indicativo de que as coisas vão bem. Neste “cenário-base”, o mais razoável é esperar que a próxima elevação de juros venha somente em 2021, e de forma bastante lenta. Dado o contexto, aproveito para mostrar um gráfico divulgado pelo próprio FED e que exemplifica as perspectivas para este processo: as “bolinhas” representam as opiniões dos dirigentes da instituição, dando uma ideia daquilo que pode vir a ser a trajetória dos Fed Funds Rates para os próximos anos. Embora o viés de alta para as taxas de juros seja evidente, há hoje, na comparação com os últimos meses, um maior consenso de opiniões dentro do FED, e a trajetória de normalização dos juros tende a ser mais lenta do que o imaginado no final de 2018 e início deste ano.

Se deixarmos de lado o gráfico e nos concentramos nas linhas e entrelinhas da comunicação do FED, perceberemos uma instituição hoje bastante aliviada com os bons números do mercado de trabalho, por exemplo. Além disso, o FED destacou menos as tais “incertezas” ao cenário econômico (apesar dos riscos quanto às tensões comerciais, entre outros), e mostra-se confiante dizendo que a atual política monetária é “apropriada” para apoiar a expansão econômica do país. Como um todo, e a pesar de não ter cortado os juros nesta semana, o tom do FED é de “suporte” à economia americana. Após três cortes de juros em 2019, e ter mudado a sua narrativa para os eventos internacionais, o tom do FED segue sendo relativamente “dovish”, utilizando o jargão em inglês. Mas isto seguirá dando impulso aos mercados acionários, já bastante esticados?

O futuro para as bolsas dos EUA parece ainda positivo no curtíssimo prazo. No médio prazo, no entanto, e diante de uma economia num estágio avançado quanto ao ciclo econômico, nem todos estão tão otimistas. Após 25% de ganhos neste ano, esperar o mesmo desempenho adiante parece um pouco exagerado. Mas apesar de eu concordar com aqueles que vem um upside bem mais limitado, a maioria dos analistas ainda espera uma alta da bolsa para 2020 (veja no gráfico a seguir, do Financial Times). Quanto à economia, e ao contrário das perspectivas para a bolsa, a manutenção dos juros em níveis baixos não deve ser capaz de interromper a já esperada desaceleração. Segundo o FED, a economia deve crescer 2.2% neste ano, e 2.0% no próximo. Ao final de 2019, há uma espécie de consenso: para 2020, devemos ter uma “pausa” nos juros, na economia e, provavelmente, nos ganhos em bolsa.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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