EUA: o risco político de 2020

O ano de 2019 ainda não terminou, mas diversos relatórios sobre as projeções de mercado para 2020 já têm sido divulgados. No cenário internacional, o futuro dos EUA estará nos holofotes: não só pela provável desaceleração econômica, mas também pelas eleições presidenciais, marcadas para novembro. No meu último texto, argumentei que o “risco-impeachment” de Trump não parece comparável ao da possível vitória de alguns candidatos hoje rotulados como “perigosos” pelos investidores. Como têm reagido os mercados neste contexto? Quem pode sofrer mais caso o “risco-eleições” aumente nos EUA?

A Warren de hoje, o Trump de ontem?

O nome da senadora democrata Elizabeth Warren tem sido por diversas vezes mencionado como um dos maiores riscos para o ano de 2020, não só em relatórios que circulam pelo mercado, como também em apresentações e reuniões com investidores, segundo o jornalista John Authers, da Bloomberg. Aliás, vale notar: Warren parece ocupar o lugar que Donald Trump ocupava um ano antes das últimas eleições presidenciais americanas, em 2016: todos falam sobre ela, e o tom é de preocupação e grandes incertezas. “Assim como Trump, Warren representa mudança e o desconhecido”, aponta Authers em comentário enviado a clientes nesta quarta-feira, dia 20. Acredite: já conhecido, Trump já não é o que muitos rotularam de “outsider” ou até “anti-establishment”, anos atrás. Outros democratas além de Warren estão na disputa (como Biden e Sanders), mas têm sido deixados de lado quanto o assunto é “riscos para 2020″.

Risco impeachment X Risco eleições

Ainda sobre o texto que escrevi aqui essa semana sobre o impeachment do presidente Trump e sobre o quão improvável é este se tornar o grande risco político dos mercados nos próximos meses, mais relevante do que isto, em minha opinião, será a corrida eleitoral. Se por um lado as reações dos mercados ao processo de impeachment têm sido mínimas, o mesmo não podemos dizer sobre as reações à possível vitória de Warren. No gráfico a seguir, vemos (1) os juros dos títulos de 10 anos do governo dos EUA (em branco; eixo da direita), e (2) a probabilidade de vitória de Warren (em azul; eixo da esquerda) desde o mês de abril. A probabilidade de Warren é calculada considerando a probabilidade de ela ser a candidata escolhida pelo partido Democrata multiplicada pela probabilidade de o partido ganhar as eleições. Chegou em setembro/outubro aos 30%, e está hoje ao redor de 15%. Se ela voltar a ganhar forças, os investidores voltarão a correr para ativos mais seguros, como os títulos do governo? Sim, isto é muito provável.

Quem pode sofrer mais com o risco político?

Segundo análises que têm sido feitas nos mercados, caso Warren ganhe forças, os setores mais afetados tendem a ser o financeiro, energia e saúde. O setor de tecnologia, diante de uma visão pró-regulação e de olho nas chamadas Big Techs, também pode sofrer. São, a final de contas, nestes setores que algumas bandeiras da senadora estão mais presentes. Do lado “positivo”, e por conta da especial atenção de Warren à questão ambiental, alguns investidores estão atentos a iniciativas de empresas e até mesmo uma classe de fundos de investimento que têm esta abordagem como pano de fundo (como é o caso dos chamados ESG funds, por exemplo).

Em suma: hoje em segundo lugar na corrida entre os democratas (logo atrás de Biden), segundo pesquisa do jornal The New York Times, a senadora Warren é um dos grandes “riscos” para 2020. No mínimo, é algo que pode aumentar a volatilidade nos próximos meses. A julgar por alguns movimentos recentes dos ativos (veja o gráfico), o potencial de “estragos” é razoável. Nas últimas semanas, Warren pode até ter perdido algum fôlego (não parece ter havido uma transferência para Biden, e sim para outros candidatos), mas segue forte na disputa. A Warren de hoje parece ser o Trump de ontem.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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