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EUA: muito, muito pacientes. Um erro?

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Nos últimos dias, investidores voltaram as suas atenções à política monetária dos EUA e, em particular, à curva de juros. Esta última reage às políticas do banco central (FED), mas também a outros fatores, incluindo as expectativas de crescimento e as condições financeiras globais. Quais foram as últimas novidades do FED? Qual a tendência para a taxa de juros americana? Neste contexto, como os investidores têm reagido? Mais do que isso: como entender os recentes movimentos da curva de juros? Embora possa ser mais um “sinal” falso, e os EUA não estejam caminhando para uma nova recessão, vale pensarmos no tipo de erro que estamos dispostos a cometer como investidores: “tipo I” ou “tipo II”?

Sobre a decisão e as sinalizações do FED…

O FED (o banco central americano), em sua última reunião de política monetária (dias 19 e 20 de março), decidiu manter a taxa de juros de curto prazo estável, em 2.25-2.50% ao ano. Até aqui, sem grandes surpresas. Além disso, e mais relevante para os investidores, sinalizou que não haverá mais elevações de juros até o final deste ano. Para 2020 e 2021, a mediana das projeções do FED está em 2.50-2.75% ao ano. O recado é o seguinte: não espere uma taxa de juros muito mais alta à frente. Se até há pouco era visto como “paciente”, agora poderíamos dizer que o FED está “muito, muito paciente”.

Entre os membros do FED, 11 dos 17 esperam, segundo documento divulgado neste mês, que a taxa de juros termine 2019 no atual patamar. Dos demais membros, 4 prefeririam uma taxa entre 2.50-2.75% (1 elevação), e somente 2 entre 2.75-3.00% (2 elevações). Difícil haver consenso, mas há pouca amplitude de opiniões. Entre a mínima e a máxima, apenas 1.25 ponto percentual. Como comparação, vale relembrar das projeções feitas em março de 2018. Naquele momento, a diferença entre mínima e máxima para 2019 era de 2.5 pontos. A mediana estava entre 2.75-3.00% ao ano. E, se desconsiderarmos as duas opiniões mais baixas, os membros acreditavam numa taxa de juros que deveria terminar 2019 entre 2.50% e 4.00%.

Sobre o comportamento da curva de juros…

A estrutura da curva de juros dos EUA é algo que tenho ressaltado há algum tempo, diante daquilo que parecia estar por vir. Em maio do ano passado, escrevi um texto ressaltando o raciocínio por trás da importância desta curva, mostrando dados referentes às últimas crises por lá: Uma nova recessão americana. Previu essencialmente toda recessão deste 1950, e foram poucos os “sinais” falsos. Em julho, na comparação com o mês de maio, a diferença entre os juros de 2 e 10 anos já tinha caído pela metade, e estava pouco acima do território negativo — momento em que a curva passaria a estar “inclinada” (juros de curto prazo mais altos que os de longo prazo) e, portanto, sinalizariam algo “estranho” adiante. Naquele momento, afirmei que o risco de uma recessão iminente não era elevado, mas valia a pena acompanhar este indicador.

Nos últimos dias, os juros dos títulos de 10 anos ficaram abaixo de 2.5%, e a diferença com os juros de 3 meses ficou negativa — algo que não acontece desde 2007. Esta métrica — uma alternativa à diferença entre os juros de 2 e 10 anos para medir a diferença entre os juros “curtos” e “longos” — estaria, na opinião de alguns analistas, apontando para uma próxima crise. O receio de uma desaceleração econômica, é claro, também entrou na conta, e explicaria ao menos parte deste movimento. Tal receio, que está presente desde novembro do ano passado (de lá pra cá os juros de 10 anos já caíram aproximados 70 pontos base!), foi reforçado pelo próprio FED. Afinal, este revisou as suas projeções de PIB para baixo. Para 2019, 2020 e 2021 espera agora 2.1%, 1.9% e 1.8%, respectivamente. Em março de 2018, por exemplo, esperava um crescimento de 2.4% para 2019 e de 2.0% para 2020.

O verdadeiro significado da inversão da curva de juros somente será possível entender mais adiante. É possível que, assim como aconteceu em 1998, tal inversão não seja sucedida de uma recessão na sequência. Afinal, foi só em 2001 que o país entrou em recessão, e antes disto a curva precisou inverter novamente. Assim, é possível que, assim como defendeu o economista Mohamed El-Erian em sua coluna na Bloomberg, a inversão da curva de juros não seja desta vez um indicador de recessão adiante. Ainda assim, e mesmo sabendo da dificuldade de tirar conclusões robustas a partir de uma base de dados de poucas observações, parece razoável ter cautela como investidor. Justifica-se, portanto, aumentar a probabilidade de cometer o chamado “erro do tipo I” (assumir que é sinal de recessão quando na verdade é um sinal falso) como contrapartida para diminuir a probabilidade do “erro do tipo II” (assumir que não é sinal de recessão quando na verdade o é).

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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