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EUA: eles serão GREAT para sempre?

MAKE AMERICA GREAT AGAIN. Foi assim, com a sua já tradicional frase, que o presidente Donald Trump reagiu no Twitter aos números da economia americana. Tais estatísticas foram publicadas no último dia 26 de abril. O PIB do país cresceu 3.2% nos primeiros três meses de 2019 (taxa anualizada), surpreendendo positivamente à grande maioria dos analistas. O que podemos dizer sobre este crescimento? Às vésperas da próxima reunião de política monetária do FED, o PIB do primeiro trimestre terá algum impacto?

Tem sido “GREAT”. Mas até quando?

Após um impasse no Congresso que provocou o chamado “shutdown” do governo americano; estímulos fiscais que não devem ter efeitos positivos no longo prazo; receios de que o FED (o banco central do país) tivesse subido os juros mais do que o razoável em 2018 e uma economia global nada brilhante (vide recente publicação do FMI, por exemplo), parecia improvável que os EUA fossem manter um crescimento forte em 2019. O mercado, segundo pesquisa feita pelo The Wall Street Journal, esperava que o crescimento no primeiro trimestre deste ano tivesse ficado mais próximo de 2.5%. Isto não aconteceu, mas não se engane: a probabilidade de desaceleração nos próximos trimestres ainda é alta, após crescimento recente bem acima do potencial.

Na economia, nem tudo aponta na mesma direção

Se analisarmos o PIB deste início de 2019 com mais cuidado, a primeira impressão parece exagerada. Afinal, ao redor de 1 ponto percentual dos 3.2% se deve à queda das importações e ao crescimento das exportações — componente relativamente volátil e que poderia desapontar caso o crescimento global não se sustente adiante. Além disso, outros 0.65% se devem às mudanças nos estoques — outro componente que, ao se normalizar, tende a contribuir de forma menos positiva à frente. Por fim, o consumo — o componente mais representativo do PIB —, cresceu meros 1.2%, o menor ritmo desde os primeiros três meses de 2018. Ao contrário do ano passado, parece difícil esperar que o consumo siga tão forte neste ano, e não foi por acaso que o FMI reduziu de 2.0% para 1.8% o crescimento projetado para 2019.

A inflação segue sendo um “mistério”

Como um importante contraponto aos números surpreendentes do PIB, vale lembrar que a inflação continua baixa nos EUA. O índice de preços que o FED mais acompanha está em 1.3%, excluídos os preços voláteis de energia e alimentação. Se considerarmos o índice “cheio”, a inflação é ainda mais baixa: 0.6%. A meta, como todos sabem, é de 2.0%. Isto, é claro, tem contribuído para que o mercado precifique um corte de juros por parte do FED ainda neste ano. Não está claro se isto acontecerá, mas é impensável imaginar que a postura do FED — que recentemente se tornou mais “branda” quanto à normalização das taxas de juros (mais “dovish”, no termo em inglês) — deva mudar por conta dos números do PIB do primeiro trimestre. Como apontei anteriormente, mesmo ainda forte, a economia americana parece caminhar para alguma desaceleração adiante, e os números de inflação estão longe de serem confortáveis para os dirigentes do FED.

A política monetária deve continuar “paciente”

Aliás, ainda com relação ao FED, vale apontar: em sua última reunião de política monetária (20 de março), a maioria dos dirigentes sinalizou que a estabilidade dos juros neste ano, nos atuais 2.25-2.50% ao ano, parece ser o mais razoável. Nesta semana (30/1 de abril/maio), o novo encontro do FED estará no radar dos investidores, e o mais provável é que a postura de paciência e flexibilidade ainda seja mantida. Embora a instituição sempre se diga atenta aos dados, é de praxe dizer que números de curto prazo não irão interferir em suas decisões de política monetária. Os do PIB, embora não possam ser considerados de “alta frequência”, acabam de ser publicados, e são “preliminares”. Ou seja: nos próximos meses, é possível que as revisões sejam significativas.

Nem sempre “GREAT”

A economia dos EUA segue forte, e o início de 2019 parece ter sido melhor do que o esperado. Isto não quer dizer que as políticas de Donald Trump tenham tido o sucesso que ele julga ter. Os próximos trimestres tendem a ser o melhor julgamento sobre os números de hoje e as interpretações que têm sido feitas. O perigo é o presidente, diante de uma corrida eleitoral que se aproxima, “dobrar a aposta” e tentar manter o forte ritmo dos últimos trimestres. As consequências serão vistas apenas no médio prazo, e elas não serão “GREAT” assim.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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