EUA: economia hoje X projeções para 2020

O mercado de trabalho dos EUA parece estar mais forte do que nunca. De acordo com dados divulgados na última sexta-feira (6), a economia americana segue forte, tendo superado as expectativas da maioria dos economistas. Os dados mexeram com os mercados e contribuíram para que o índice S&P 500 terminasse a semana no azul, mais próximo das máximas históricas. No entanto, diante das projeções de desaceleração econômica mais adiante, como conciliar estes dados tão positivos? A tendência estaria mudando neste final de ano? Qual é a avaliação geral sobre os EUA? Nesta semana, o FED divulgará novas projeções sobre PIB, desemprego e inflação. O que esperar?

De acordo com os números mais recentes, a taxa de desemprego de novembro foi de meros 3.5%, o menor nível registrado desde 1969. No penúltimo mês do ano, a criação de empregos ficou em 266 mil vagas, muito acima dos 180 projetados pelos analistas. Embora estes dados estejam sujeitos a grandes revisões com o passar do tempo (são, a final de contas, números preliminares), eles não deixam dúvidas: no curtíssimo prazo, a economia está forte e bastante aquecida. Esta avaliação, portanto, parece se contrapor às perspectivas de desaceleração para os próximos trimestres, que eu tenho comentado aqui nos textos? Em minha opinião, “não”. Tais dados, embora positivos e relevantes, dizem pouco a respeito do futuro dos próximos 12-24 meses; são uma espécie de “retrovisor”. Mesmo após os cortes de juros do FED nos últimos meses e a despeito das manchetes recentes nos jornais internacionais, a tendência segue sendo menos brilhante do que nos últimos anos.

Mas quando o assunto é “mercado de trabalho”, ainda haveria espaço para melhoras nos próximos meses? Alguns acreditam que sim. Vale notar: se o ritmo de criação de empregos se mantiver acima dos 100 mil por mês (um número bastante modesto em comparação ao histórico recente), a taxa de desemprego tende a cair ainda mais até o final de 2020. Isto pode sim ajudar na reeleição de Donald Trump no ano que vem, mas não deixa de ser uma questão intrigante para os economistas: como diante de uma economia tão aquecida a inflação segue tão baixa? Afinal, a taxa de desemprego, abaixo da chamada “taxa natural de desemprego” (NAIRU), deveria em algum momento puxar a inflação para cima. O FED, no entanto, não está muito preocupado com isso. Estes são momentos pouco convencionais na economia, e nem todas as reações “tradicionais” fazem sentido. Para ele, a inflação deve passar dos atuais 1.8% para 1.9% em 2020, e atingir a meta de 2.0% em 2021. Se em 2018 ele estava atento a estes riscos inflacionários, em 2019 houve uma mudança de narrativa, e o FED termina aliviado com os bons números da economia.

Nesta semana, dias 10 e 11, o FED fará a sua última reunião de política monetária do ano. Não se esperam mudanças nas taxas de juros, e o discurso deve indicar que, na ausência de grandes novidades, os juros continuarão ao redor de 1.50-.175% ao ano. Faz sentido. Os cortes recentes contribuíram para diminuir os riscos de recessão, e restabeleceram uma certa tranquilidade aos mercados. Mas como evoluirão as projeções para PIB, desemprego e inflação? Neste momento, o FED espera um crescimento do PIB de 2.2% neste ano, 2.0% em 2020 e 1.9% em 2021. Mais: de acordo com as projeções mais recentes (setembro), espera-se um desemprego em 3.7% este ano e 2020, e 3.8% em 2021. Sem mudanças de política monetária, será interessante monitorar esta semana as novas projeções oficiais que o FED divulgará ao mercado.

O resumo é que no curto prazo os dados seguem fortes e 2019 termina com menores receios de recessão nos EUA. Ao longo do ano, estas preocupações cresceram bastante, mas os cortes de juros do FED e uma resiliência maior do que a imaginada no consumo das famílias, por exemplo, fizeram a diferença. Ainda assim, e a despeito de alguns dados positivos, não é o momento para contar com uma mudança de tendência. O próximo ano deve ser um pouco mais fraco em termos econômicos e, apesar da força do mercado de trabalho, ainda não há sinais de força vinda da inflação. Aos olhos de hoje, será uma surpresa se os juros americanos mudarem muito de patamar.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

324 visualizações

Relacionados

Utilizamos cookies para melhorar a sua navegação

Entendi
Bitnami