Fique por dentro do mundo da economia!


CADASTRE-SE AQUI

No último mês, a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OECD) – Organização composta por 32 países, do Chile à Noruega, entre tantos outros – publicou um estudo sugerindo que a probabilidade de automação no mercado de trabalho é elevada, independente do país em questão. Aliás, este processo de automação é, em nossa opinião, irreversível.

 

Em meio ao envelhecimento populacional (que afeta Europa, Japão, EUA e já começa a preocupar os chineses), a tecnologia deve começar a substituir a mão de obra humana. É uma espécie de “saída” para continuarmos a crescer. Termos como big data, machine learning, e blockchain são cada vez mais comuns no noticiário. É um processo. Uma tendência. Assim como os PCs, novas tecnologias começam a entrar, cada vez mais, no dia a dia das pessoas comuns.

 

Nos próximos anos, 14% dos empregos estão em “risco elevado”, aponta a OECD, referindo-se aos países da Organização. Ou seja, a probabilidade de automação destes empregos é superior a 70%. Outros 32% dos empregos também estão em “risco”. Neste caso, a probabilidade de sofrerem mudanças com a automação é ligeiramente mais baixa (algo entre 50-70%). Seja como for, a OECD prevê que quase 50% dos empregos serão afetados por conta da automação, da robótica e da inteligência artificial, nos próximos anos. O Banco Mundial, em estudo de 2016, aponta para algo semelhante: 57% dos empregos dos países da OECD devem ser transformados com a automação nas próximas 2 décadas.

 

Vale notar: o potencial de automação é distinto entre os países. Parte disto se deve à diferente composição setorial (30%) e parte se deve às diferenças ocupacionais, dentro de cada setor, e independente do mix setorial de cada país (70%), segundo estudo da OECD. A seguir, mostramos o quão distinto é este potencial, considerando o mercado de trabalho de cada país.

grafico - Percentual de trabalho que pode ser automatizado, de acordo com o “risco” disto acontecer

Além do potencial de automação de cada país, podemos pensar numa outra variável: a rapidez com a qual estas tecnologias devem ser introduzidas em cada país. Neste quesito, Taiwan e Indonésia, por exemplo, tendem a ser rápidos. Japão e EUA, países-sede de muitas empresas do setor, estão logo atrás. Bem mais lentos nesta absorção, estão países como Brasil e Índia.

Ranking Mundial da automação, robótica e inteligencia artificial

A verdade é que automação e inteligência artificial afetarão mais àqueles com menor grau de escolaridade e treinamento. Aliás, os mais jovens e os mais velhos serão os mais afetados. Vemos, portanto, um efeito em formato de “U”: a probabilidade de automação é mais alta nos extremos da distribuição etária.

 

O receio em relação ao desenvolvimento tecnológico, diga-se de passagem, é algo antigo. Desde John Maynard Keynes, em 1930, existe uma preocupação sobre o seu efeito sobre o mercado de trabalho. Ainda assim, nos últimos anos esta preocupação aumentou, diante da sua inserção em áreas que, até aqui, pareciam mais “blindadas”, como o próprio setor de serviços.

 

“We are being afflicted with a new disease of which some readers may not have heard the name, but of which they will hear a great deal in the years to come—namely, technological unemployment”, Keynes, 1930

“Labor will become less and less important. . . More and more workers will be replaced by machines. I do not see that new industries can employ everybody who wants a job”, Wassily Leontief, 1952

“Diante do rápido avanço da automação, robótica e tecnologias de inteligência artificial, cresceu a preocupação sobre o trabalho se tornar redundante”, Acemoglu e Restrepo, 2017.

“Espera-se que robôs e, em particular, robôs industriais, se espalhem de forma rápida nas próximas décadas e assumam tarefas que até aqui eram desempenhadas por trabalhadores humanos”, Acemoglu e Restrepo, 2017.

 

Neste contexto, economistas como Acemoglu e Restrepo, nos últimos 2 anos, fizeram estudos interessantes sobre o tema. Os autores concluem que a desigualdade tende a aumentar com a adoção destas novas tecnologias, mesmo considerando um “modelo de equilíbrio geral”. Ou seja: mesmo considerando que, diante deste processo, empresas e trabalhadores não ficarão imóveis e tentarão reagir da melhor forma possível. Vale a ressaltava: há, aqui, óbvias implicações importantes sobre a política. Recentes resultados de eleições nos EUA e Reino Unido, por exemplo, foram afetadas por uma população insatisfeita com os avanços da globalização.

 

A Boston Consulting Group, uma consultoria estrangeira, traçou, em 2015, 2 cenários até 2025. No mais agressivo, acredita que o estoque de robôs quadruplicará até lá. Isto corresponderá a um aumento de 5,25 robôs a mais por 1.000 trabalhadores nos EUA. Hoje, este número está abaixo de 2. No cenário mais conservador, acredita-se que o estoque de robôs crescerá pouco menos de 3x. As previsões são, mesmo com hipóteses conservadoras, bastante otimistas.

Gráfico Estoque de robos a cada 1000 trabalhadores

Em suma: nos EUA e mundo afora, parece-nos que a tendência é clara e favorável à adoção destas tecnologias de automação, robótica e inteligência artificial. Isto nos ajudará a produzir mais e permitirá a criação de novos empregos em áreas, até aqui, menos exploradas. A desigualdade, por outro lado, tende a aumentar. Isto é algo que a política econômica precisará endereçar. Num futuro não muito distante, eu, nós, e os robôs, precisaremos aprender a conviver.

 

Referências:

Banco Mundial (2016), “World Development Report 2016: Digital Dividends”;

Boston Consulting Group (2015), “The Robotics Revolution”;

OECD (2018), “Automation, skills use and training”;

Acemoglu and Restrepo (2017), “The race between machine and man: implications of technology for growth, factor shares and employment”;

Acemoglu and Restrepo (2017), “Robots and Jobs: Evidence from US Labor Markets”.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

740 visualizações

relacionados

Bitnami