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Estamos na fase do “alívio“: até quando?

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Nos anos de 2015 e 2018, a revista britânica The Economist alertou os seus leitores sobre “a próxima recessão”. Apesar do momento de fragilidade no qual a economia global ainda se encontra, este momento de recessão ainda não chegou. Mais do que isso: entre os dois alertas da revista, em 2017 o mundo experimentou uma forte recuperação e estabilidade que há muito não se via, com recordes de alta das bolsas e volatilidade baixíssima ao redor do mundo. De lá pra cá, no entanto, o cenário parece ter ficado mais volátil, e investidores têm se acostumado a ciclos mais curtos, numa espécie de pêndulo que vai de momentos de receio sobre uma possível desaceleração econômica e outros de alívio, com preços dos ativos em elevação e busca por retornos maiores. Como explicar estes movimentos? Quais têm sido as respostas dos governos e bancos centrais? Em qual momento estamos?

Sem um governo centralizador e/ou um banco central único, poderíamos dizer que a economia global é uma espécie de “resultado” daquilo que acontece com as economias individuais. No entanto, com “pesos” distintos atribuídos a cada país, é claro. Os EUA, por exemplo, ainda são peça-chave para entender a direção das “coisas”, seja o ritmo econômico global, a direção das moedas e bolsas ou, de forma mais ampla, o chamado “humor” dos investidores internacionais. Hoje, os principais determinantes deste pêndulo parecem ser a “guerra comercial” e as sinalizações/ações do seu banco central (FED), chefiado por Jerome Powell. Aliás, quando o assunto é banco central americano, estudos* recentes apontam para grandes “spillovers” (influência) de suas políticas sobre o resto do mundo (especialmente os países emergentes) e uma significativa capacidade de influenciar os ciclos financeiros globais.

Neste contexto global, é interessante notar como têm se comportado as políticas domésticas de EUA, Europa e China nos últimos meses, por exemplo. Afinal, estas, embora possam ser analisadas sob o ponto de vista específico de cada país, têm evoluído de maneira bastante “coordenada”, numa tentativa de dar maior suporte às suas economias locais. Além disso, estas também têm tido um papel fundamental na determinação dos ciclos mais frequentes (entre receios e alívios dos investidores) dos investidores. Como isto também afeta aos mercados brasileiros, parece-me impossível separar estes movimentos daquilo que tem acontecido no resto do mundo. Se, e quando, uma nova recessão atingir uma grande economia avançada, será difícil encontrar um refugio em ativos locais, por exemplo. Aliás, um estudo de 2013 mostra que as ações do FED ampliam os já pro-cíclicos fluxos de capitais para os países emergentes, e estes países não conseguem se “blindar” com políticas voltadas para frear tais efeitos (embora a “qualidade institucional” de cada país faça, de fato, uma relevante diferença no resultado destes efeitos).

De volta aos dias de hoje, temos que os principais bancos centrais do mundo — incluindo não só o americano, mas também o europeu — têm tentando deixar para trás o período de juros extremamente baixos e políticas monetárias expansionistas. Sem sucesso, e reagindo aos receios crescentes de que, sem estas, as economias acabariam entrando em recessão, eles parecem ter voltado atrás em suas intenções iniciais. Nos EUA, por exemplo, o FED subiu os juros em 2018 e indicava novas elevações para 2019. Aparentemente, desistiu. Aliás, o mercado precifica cortes até o final do ano. Na Europa, algo semelhante: o banco central terminou o programa de compra de ativos em dezembro do ano passado, e sugeria que as taxas de juros poderiam subir num futuro próximo. Hoje, é claro o viés de que a instituição possa adotar mais estímulos, caso necessário. Por fim, na China, o governo também tem precisado voltar atrás: sem conseguir mudar o modelo de crescimento econômico de forma rápida, diante de sinais de desaceleração econômica este volta a injetar estímulos. Estas economias são uma espécie de paciente viciado em remédios, ainda incapaz de voltar à normalidade.

Diante de um quadro de fragilidade da economia internacional, foram — e continuarão a ser — bem-vindas as mudanças de posturas destes bancos centrais e governos nas últimas semanas. Tudo indica que, por conta destes “suportes”, os receios sobre a proximidade de uma nova recessão ficarão adormecidos no curto prazo, e investidores seguem digerindo um momento de alívio nos mercados internacionais. Embora a The Economist tenha tido razão em fazer os alertas em 2015 e 2018, o mais provável é que as suas previsões demorem um pouco mais em se concretizar, mantidas tais políticas de suporte. Ainda assim, será importante acompanhar as futuras ações destes bancos centrais e governos, sempre levando em consideração aquilo que se espera deles e/ou está sendo precificado nos mercados. Vale lembrar: após a fase de “alívio”, o passado recente sugere que uma nova rodada de receios invadirá aos mercados internacionais.

Referências:

*Dois interessantes estudos ilustram a importância da política monetária americana sobre o resto do mundo: (1) Fratzscher et al. (2013), “On the international spillovers of the US quantitative easing” e (2) Miranda-Agrippino and Rey (2019), “US monetary policy and the global financial cycle”.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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