Endividamento e ignorância: uma combinação perigosa

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Embora o período pós-Segunda Guerra Mundial possa ser caracterizado pela expansão do crédito, é na segunda metade do século 20 que o crédito privado* tem registrado uma expansão ainda mais vertiginosa. Considerando os países industrializados, o crédito privado direcionado às famílias — mais do que aquele direcionado às empresas — têm chamado a atenção de diversos economistas. Aliás, olhando a História recente, podemos dizer que as famílias nunca estiveram tão endividadas. Dado que o crédito continua a subir como proporção do PIB, deveríamos nos preocupar com isto? Estamos mais frágeis do que na última crise? O que podemos dizer?

Dentro do crédito privado direcionado às famílias, é o crescimento do crédito no setor imobiliário aquilo o que mais tem atraído os holofotes, dado o seu peso no endividamento como um todo. Dívidas hipotecárias, por exemplo, deixam as famílias mais alavancadas e muito expostas a choques econômicos. Num trabalho recente**, os economistas Jorda, Schularick e Taylor, por exemplo, destacaram alguns fatos importantes dos últimos ciclos econômicos, considerando uma base de dados de 150 anos e 17 países industrializados. Neste longo período, está claro que desde 1970 o crescimento do crédito privado como proporção do PIB acelerou, e muito (veja no gráfico). O crédito voltado ao setor imobiliário, além de ter puxado este crescimento***, parece ter um impacto importante do ponto de vista macroeconômico. É evidente, em minha opinião, que isto tornou estas economias mais frágeis. Explico mais a seguir.

Embora empresas também possam se endividar, e muito, a compra de uma moradia por parte de qualquer pessoa é motivo suficiente para deixá-la numa situação financeira muito mais frágil. Ao contrário das empresas, as pessoas não costumam enfrentar o famoso trade-off entre “dívida” e “capital próprio” quando precisam decidir como irão financiar as suas “atividades”. Não faz muito sentido pensar na segunda opção neste caso e, sem muita alternativa, é apenas através da primeira — dívida — que elas conseguem aumentar o consumo quando a renda atual não é alta o suficiente. Assim, se muitas famílias estiverem nesta situação de fragilidade econômica, qualquer distúrbio no mercado de crédito tem grande potencial para se tornar uma grande dor de cabeça. Para eles, e para o restante da economia. Qualquer relação com a última crise financeira de 2007-2008 nos EUA, portanto, não é mera coincidência.

Compreender melhor os ciclos econômicos e, em especial, as crises financeiras, requer uma base de dados longa. Afinal, crises são eventos “raros”, por definição. E é justamente pela construção da rica base de dados que o trabalho de Jorda, Schularick e Taylor se tornou um bom ponto de partida para estas discussões. Os economistas fizeram uma separação dos 150 anos em 2 períodos: um pré e outro pós-Segunda Guerra Mundial. Neste último, na qual se observa o acelerado aumento do endividamento, os ciclos econômicos parecem ser menos voláteis, mas com severos “eventos de cauda” (eventos muito pouco prováveis, mas muito negativos), chamados também de “black swans”.

Dito de outra forma: o maior endividamento desde a Segunda Guerra parece ter exposto mais as economias a “crashes” profundos, pouco frequentes. No primeiro período, por outro lado, os ciclos econômicos eram mais curtos, e também se observavam choques negativos um pouco mais suaves. Assim, concluem os autores que mais crédito parece ter ajudado a suavizar os ciclos, mas não nos livrou das crises que, agora, quando ocorrem, são geralmente mais profundas do que período pré-Segunda Guerra. Neste contexto, não é por acaso que os economistas têm dado maior atenção à iteração entre as variáveis financeiras e a chamada economia “real”. Os próprios bancos centrais têm estado mais atentos a estas variáveis.

Nos dias de hoje, não é nenhuma novidade dizer que alguns importantes bancos centrais — como o FED, nos EUA — estão num processo de normalização de suas políticas monetárias, já passados os principais efeitos da última crise financeira (2007-2008). Paradoxalmente, o “problema” do endividamento elevado — concentrado em algumas regiões e em certo tipo de famílias — segue presente, e tem se acentuado nos últimos anos, como mostra o gráfico. Assim, estes bancos centrais, que têm reagido à gradual recuperação econômica e tentam ganhar “poder de fogo” para combater uma próxima crise****, estão praticamente de mãos-atadas, e presos na própria armadilha. Não é por acaso que o FED sinaliza que será mais “paciente” à frente. Não é tão fácil subir as taxas de juros, após muitos terem se envidado de forma exagerada. Qualquer erro pode ser fatal, e os bancos centrais sabem disso. Segundo frase atribuída a Warren Buffett, “Quando você combina ignorância e endividamento, você obtém resultados bastante interessantes”.

Observações e referências:

*Considero o “crédito privado” como sendo o crédito direcionado ao setor não-financeiro;

**”Macrofinancial History and the New Business Cycle Facts”;

***No período que antecede a Segunda Guerra Mundial, a média da taxa de pessoas com moradia própria nas 17 economias industrializadas estudadas por Jorda, Schularick e Taylor estava em aproximados 40%. Nos anos 2000, 50 anos depois, este número havia passado para 60%;

****Em média, e considerando um período longo de tempo, o banco central americano precisou cortar a taxa de juros de curto prazo em 500 pontos base (5%) para sair das crises. Agora, ainda muito baixas, não haveria espaço suficiente para isto, sem precisar entrar no perigoso terreno de juros negativos.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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