Em 2019: mercados X bancos centrais?

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Após o término do mês de dezembro de 2018 — de elevada volatilidade e perdas em diversas classes de ativos —, investidores ao redor do mundo se preparam para o ano de 2019. Afinal, quais serão os principais temas de 2019? Neste texto, abordo 2 bastante relevantes, que se referem tanto aos EUA quanto à Europa. Ambos têm potencial para mexer com os mercados ao redor do mundo: mercados X bancos centrais. Você está atento a estes acontecimentos?

Estados Unidos: o mercado está muito pessimista?

Os juros americanos já subiram 9 vezes desde o início da chamada “normalização” da política monetária, no final de 2015. Somente em 2018 foram 4 elevações de juros. Para 2019, o próprio Fed (o banco central) espera outras 2. Isto levaria os juros de 2,25-2,50% para 2,75-3,00% ao ano. Em meio às elevações dos juros de curto prazo — que também são chamados de Fed Funds Rates, por estarem no controle do Fed —, sinais menos animadores têm sido emitidos pelos juros mais longos (taxas que, ao contrário das primeiras, não são fixadas pelo Fed; e que rapidamente respondem às oscilações dos mercados).

De forma mais precisa, todos continuarão de olho no diferencial entre os juros longos e curtos. Ou seja, na diferença entre estas taxas. Na maioria das vezes, os analistas consideram a diferença entre os juros de 2 e 10 anos. Esta é, sem dúvidas, uma das variáveis mais importantes para continuarmos a monitorar. Utilizado para prever a próxima recessão, se o diferencial se tornar negativo — ou seja, os juros de 2 anos maiores que os juros de 10 anos —, algo de errado estaria prestes a acontecer. Nas últimas crises, isto sempre aconteceu.

A economia americana está aquecida, mas tem sido crescente a expectativa com relação à chegada da próxima crise. Talvez em 2019. Talvez em 2020. Segundo levantamento da Universidade de Duke, nos EUA, 48,6% dos CFOs entrevistados esperam uma crise até o final deste ano. Mesmo diante de um diferencial de juros que parece prestes a se tornar negativo, estaria o mercado muito pessimista? Vale acompanhar.

Europa: um banco central que “ajudará” menos. Isso é bom?

Em meio a tantas questões que ainda parecem mal resolvidas — como o Brexit no Reino Unido; a relação do governo populista da Itália com Bruxelas; ou até mesmo os separatistas da Catalunha, na Espanha —, o banco central europeu se prepara para o fim do programa de compra de ativos, conhecido como “quantitative easing” (ou QE, na sigla em inglês), e que começou em 2015. De acordo com a sua última reunião, as compras de títulos (tanto públicos quanto privados) terminaram em dezembro de 2018. O que isso quer dizer?

O QE visava diminuir as taxas de juros mais longas, e fora do direto controle da instituição. Afinal, ao aumentar a demanda por estes papéis os preços sobem e, consequentemente, os juros diminuem. Em momentos de crise, fazer isto tem como objetivo aquecer a economia, e dar mais liquidez ao sistema. Funcionou. Passado o pior momento, e evitada a deflação, a Europa — assim como os EUA — estão em processo de “normalização”.

Sem as compras dos ativos por parte do BC, não haverá uma grande pressão compradora sobre estes papéis e, consequentemente, os juros destes ativos tendem a subir, tudo mais constante. Ou seja: é espero alguma reversão do processo. O impacto pode não ser imediato, dado que o BC tem sinalizado o fim das compras há algum tempo. Além disso, continuará a reinvestir os títulos que forem vencendo. Ou seja: o seu balanço não aumentará, mas tampouco diminuirá. Isto, para quem está preocupado com a menor liquidez à frente, é algo positivo.

Espera-se, portanto, que o balanço do BC europeu se mantenha nos aproximados 2,6 trilhões de euros atuais. Seja como for, teremos um BC que “ajudará” menos aos mercados neste ano. O ano de 2018 não foi um ano brilhante, mas manteve-se a percepção de que o pior já passou, e que agora é o momento para diminuir os estímulos.

Resta saber se as diversas dificuldades que existem no continente europeu conseguirão interromper os planos de Mario Draghi, o ainda presidente do BC. Sem um bom desempenho nos últimos anos, os mercados acionários da região não parecem muito bem posicionados no momento. Isto mudará ao longo do tempo?

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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