Elon Musk: De Space-X à Tesla

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Elon Musk, o verdadeiro rocket man, criador da Space-X, primeira empresa privada de lançamento de foguetes a ter sucesso, e dono da Tesla, a primeira fabricante de carros elétricos que fossem desejados pelo público. Recentemente ele combinou Tesla e Space-X ao colocar um carro da Tesla no topo do maior foguete já construído por sua companhia especial. Enquanto a Space-X voa em direção às estrelas, a Tesla parece estar a ponto de perder o rumo e voar em direção ao solo.

 O problema é que a empresa tem queimado caixa em velocidade celestial: mais de 1 bilhão de dólares por trimestre, e não consegue aumentar o número de unidades produzidas em velocidade suficiente para cobrir os custos crescentes (os custos estão crescendo mais rápido que a receita, o que tem assustado boa parte dos acionistas). A empresa está queimando caixa igual um foguete da Space-X queima combustível. Segundo cálculos da Bloomberg, US$6500,00 por minuto, um número insustentável.

Essa semana, na conferência de resultados da Tesla, Musk, que além de controlador é o CEO da empresa, perdeu a cabeça com um analista e disse que se eles não querem volatilidade e risco é melhor que nem comprem a ação. Pouco depois, com outro analista, insinuou que perguntas sobre as finanças eram chatas e que estava entediado. As falas repercutiram extremamente mal e afundou a ação, além de aumentarem o custo da dívida da empresa. O mercado está começando a ficar sem paciência com o homem foguete e seu temperamento elétrico.

Musk precisará do mercado para captar mais dinheiro para manter a empresa aberta. Analistas dizem que, em muito em breve, ele vai precisar emitir mais dívida ou até mesmo fazer uma emissão secundária de ações. Outros analistas, como o lendário professor Damodaran, dizem que a empresa só vai gerar caixa entre 2025-2026, ou seja, até lá a empresa vai precisar da mão amiga do mercado. A fortuna de Musk (US$ 2,8 Bilhões) não cobre um ano de caixa da Tesla. 

Brigar com o mercado agora beira a irracionalidade e coloca o futuro da empresa na berlinda.

 A Tesla tirou do carro elétrico a imagem de carrinho de golf. Até a Tesla mostrar ao mundo seus carros, ninguém acreditava que o carro elétrico era algo possível de ser desejado pelos consumidores. Onde já se viu um carro ter que ser carregado na tomada, igual a um celular? O sedan model-S conseguiu a proeza de ser o primeiro carro a tirar nota acima de 100 no consumer report, um guia de produtos que é publicado nos Estados Unidos. O sedan também foi o primeiro veículo de rua a vir equipado com um sistema de piloto automático, onde o carro é dirigido pelos computadores e sensores enquanto está em autoestradas (o sistema ainda não funciona para todas as situações do trânsito).

Apesar do sucesso avassalador com os clientes, os carros sempre foram muito caros, os modelos mais baratos começando por volta de US$60.000, valores bem distantes da realidade do consumidor médio americano. Musk então decidiu lançar um veículo que pode ser a bala de prata para o setor de carros elétricos, o primeiro “popular” que as pessoas realmente vão querer. O Model 3, custando por volta de US$30.000. E é no Model 3 que residem os problemas da empresa.

O modelo é o carro chefe da companhia e, por ser o mais acessível, é o que os clientes mais procuram. Existem em depósitos de reservas mais de US$800 milhões, o que indica que as pessoas querem muito o carro. Não é um problema de demanda, mas sim de oferta. A empresa não consegue aumentar o número de unidades produzidas. A Tesla está penando na transição de empresa de tecnologia para gigante automobilística.

No ano passado, na última emissão de dívida, Musk conseguiu captar US$1,8 bilhões, a uma taxa que muitos consideraram horrorosa, muito cara. A captação deveria ter vindo de uma venda de ações, mas Musk é relutante em abrir mão de suas ações (20% do capital da empresa) e que lhe dão o controle. Caso ele não tivesse a maioria, poderia ser defenestrado da empresa hoje. Dado seu histórico de não querer aumentar o capital, é provável que mais dinheiro virá via dívida para a Tesla, que já tem um estoque de dívidas de mais de US$10 bilhões.

Outro problema da emissão de dívida, é que os credores possuem total prioridade na hora de receberem. Caso a empresa enfrente algum estresse financeiro mais grave, pode ser que seus fornecedores fiquem sem receber para que os credores sejam honrados, paralisando completamente a produção e explodindo a empresa.

Musk não vai desistir fácil. Na Space-X, que hoje é um sucesso absoluto, a empresa quase faliu no começo. 3 foguetes explodiram iguais fogos de artifício em seus primeiros lançamentos, apenas o quarto conseguiu voar (detalhe: só existia dinheiro para mais uma tentativa). Musk sempre leva seus projetos ao extremo, como é bem mostrado no livro: Elon Musk – Como o CEO bilionário da Space-X e da Tesla está moldando nosso futuro. Ele foi um dos co-fundadores do pay-pal, que foi vendido e originou sua atual fortuna que permitiu financiar todos esses grandes empreendimentos.

O ponto é que Musk quase sempre consegue virar o jogo e todos apostam nisso. Foi a mesma coisa na Space-X, porém o mercado está perdendo a paciência com ele. Basta olhar o preço das ações ou o custo da dívida da Tesla para ver que o homem foguete pode estar mais próximo de explodir do que ele imagina.

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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