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Eleições na Argentina: qual é a direção mais provável?

As eleições presidenciais na Argentina têm sido destaque no noticiário internacional. Mexeram com os mercados e podem continuar a ser uma fonte de volatilidade para os ativos dos países emergentes. Insatisfeitos com o desempenho econômico dos últimos anos, os argentinos foram às urnas no último domingo (11) para participar das chamadas “eleições PASO” (eleições “Primárias, Abertas, Simultâneas e Obrigatórias”; uma espécie de rodada eliminatória para determinar quem serão os candidatos à presidência). A principal chapa de oposição, composta por Alberto Fernández e Cristina Kirchner, obteve 47% dos votos. Mauricio Macri, o atual presidente, e o vice Miguel Angel Pichetto, “meros” 32%. A inesperada derrota vem acompanhada de uma importante pergunta: tal diferença entre as chapas ainda poderia ser revertida? O primeiro turno das eleições presidenciais está marcado para o dia 27 de outubro. Até lá, o que podemos esperar? O que podemos dizer sobre as eleições na Argentina?

A vantagem de 15 pontos obtida pela chapa Fernández-Kirchner em relação a Macri-Pichetto nas PASO surpreendeu a todos. Ninguém — nem governo e nem mesmo a oposição! — imaginava tamanha vantagem neste momento, apesar da precária situação econômica pela qual o país passa desde 2015, quando Macri assumiu o comando. As pesquisas eleitorais, mais uma vez, se mostraram redondamente equivocadas. A maioria delas projetava um empate técnico; no máximo uma leve vantagem de 2-4 pontos para Fernández-Kirchner. Sobre as regras da eleição, vale notar: se a dupla Fernández-Kirchner obtiver mais de 45% dos votos em outubro, ou pelo menos 40% com uma diferença de no mínimo 10 pontos sobre a segunda chapa, a vitória já será decretada no primeiro turno. Assim, Macri tem pouco mais de 2 meses para reverter a sua situação delicada; luta para ir ao segundo turno e, quem sabe, absorver os votos dos demais candidatos que hoje estão na disputa. Para isto, precisará de motivação — algo que, pelas recentes aparições e declarações, ainda não tem.

Aliás, foi exatamente para ganhar motivação que a campanha de Macri-Pichetto fez um vídeo nos últimos dias, tentando viralizar uma mensagem de esperança e determinação. Ao traçar um paralelo entre as eleições atuais e a famosa luta de boxe entre Muhammad Ali e Joe Frazier pelo campeonato mundial, Macri busca energias para manter-se de pé, mesmo exausto, mesmo chocado com a pancada que acaba de levar. O boxeador Ali conseguiu ganhar. Macri conseguirá? Assim como na luta, teremos que esperar até o final. Mais: assim como Ali precisou do ânimo de seu treinador, Macri precisará receber ânimo da população que o votou, e que ainda pode mudar de ideia até o final de outubro. Uma coisa é certa: mesmo após a humilhante derrota nas PASO, as eleições argentinas não serão antecipadas como alguns chegaram a cogitar. A transição entre governos, se houver, deverá esperar. O atual mandato de Macri vai até o dia 10 de dezembro. Portanto, independente do ganhador desta “luta”, um longo período de incertezas já está contratado para a economia argentina.

Os investidores e a eleição

Após as PASO, investidores reagiram de forma negativa às novidades: além do período de incertezas que virá pela frente, teme-se um retrocesso àquilo que fora visto nos anos de governo Kirchner. O dólar e o risco-país argentino foram às alturas; e a bolsa despencou. Apelidado de “dólar-Fernández”, a moeda dos EUA tem operado acima dos 60 pesos argentinos — uma inevitável fonte inflacionária para os próximos meses. Tais movimentos também tiveram repercussão sobre os ativos no Brasil, embora argumente-se, de forma correta, que uma crise nos vizinhos deva ter impactos menores hoje do que no passado. Apesar de o presidente Macri ter cedido nos últimos anos em diversos momentos e ter adotado políticas nem sempre de cunho estritamente “liberal”, a vitória de Fernández-Kirchner seria uma interrupção desta guinada menos intervencionista que começara a prevalecer nos últimos anos na região. Investidores temem que Fernández seja apenas um “fantoche”, e que o país venha a ser governado, mais uma vez, por Cristina. Além disto, que a Argentina possa dar o calote em seus títulos, que o próximo governo queira renegociar o acordo de US$57 bilhões firmado no ano passado com o FMI, e que os avanços institucionais fiquem para trás. Mesmo sendo uma rodada eliminatória, as eleições PASO parecem ter mostrado ao resto do mundo que as coisas podem mudar, radicalmente, na Argentina, e que há grande insatisfação da sociedade, sem paciência para esperar.

Para piorar a situação, atordoado pelos resultados — e assim como um boxeador que acaba de levar uma pancada sem saber como reagir —, Macri fez declarações politicamente “ruins” e pouco construtivas após os resultados do último domingo (11). Culpou àqueles que votaram na chapa Fernández-Kirchner pelos movimentos dos mercados, aumentando a polarização política já elevada no país e mostrando-se pouco flexível frente aos desejos da sociedade. “As medidas que tomei e que vou compartilhar agora são porque os escutei. Escutei o que quiseram me dizer no domingo”, afirmou. Na quarta-feira (14), em um discurso de pouco mais de 8 minutos, tentou reverter a má repercussão de suas palavras: pediu desculpas, disse ter entendido a população, e aproveitou para anunciar algumas medidas econômicas (um tanto desesperadas, populistas e ainda em discussão; incluindo um congelamento de preços da gasolina por 90 dias e o aumento do salário mínimo, por exemplo).

O clima de insatisfação popular é nítido na sociedade argentina. As melhoras econômicas e as mudanças prometidas por Macri, ainda em 2015, têm demorado a se materializar. Neste contexto de frustração coletiva, experiências internacionais recentes servem para relembrar-nos que a vantagem política está com aqueles que desafiam o status-quo e propõe algo “diferente”, embora estejam cobertos de irresponsabilidade e hipocrisia. O governo de Macri — o primeiro não-peronista a terminar um mandato na História recente, diga-se de passagem — tentava fazer a Argentina atravessar o rio que separa os países sérios e com alguma previsibilidade daqueles que insistem no populismo e seus atalhos. Ainda longe de conseguir cruzá-lo, a correnteza inesperadamente aumentou. Neste momento, o cenário mais provável é que a Argentina retroceda e volte à margem já conhecida. Mas verdade seja dita: se os mantimentos se esgotaram e a viagem tem sido mais longa do que se esperava, a culpa é dos marinheiros e do capitão do barco, não daqueles que simplesmente compraram os ingressos para embarcar. Somente uma virada de tempo brusca — um cenário que inclui algum erro grosseiro da dupla Fernández-Kirchner — poderia manter o país rumo à margem ainda desconhecida. Ao contrário do embate entre Ali e Frazier, não será suficiente manter-se em pé para ganhar. Macri, para vencer Fernández, precisará fazer algo a mais. O resultado só virá no round final.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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