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Economia X política: a nossa identidade em jogo

Como a economia afeta a política? Ainda é possível estabelecer algum link entre as variáveis econômicas mais tradicionais, como PIB, desemprego e inflação com os resultados eleitorais, por exemplo? Entender até que ponto a economia afeta e molda o cenário político é uma tarefa importante, especialmente às vésperas das eleições presidenciais nos EUA, marcadas para novembro de 2020. Em minha visão, este é, diga-se de passagem, um dos maiores riscos para os mercados internacionais ao longo dos próximos meses. Quando se trata da economia americana, a perspectiva é de desaceleração. Mas isto quer dizer que uma reeleição de Trump será cada vez menos provável? Qual é a ligação entre economia e política mais importante nos dias de hoje? Segundo estudos recentes, quais são os fatores que deveríamos olhar? Isto é algo que pode ser útil para entender aquilo que está acontecendo nos EUA e no resto do mundo desenvolvido.

A revista The Economist trouxe recentemente este debate à tona: será que a economia já não é tão relevante para a política? Segundo ela, “os debates mais acalorados de hoje dizem respeito a questões de identidade e cultura – abertura a imigrantes ou livre comércio; atitudes em relação ao aborto ou banheiros transgêneros”. No início do ano, por exemplo, a revista já havia feito um estudo mostrando que nos EUA a correlação entre confiança do consumidor e aprovação pública do presidente já não era tão forte como antes. No entanto, se variáveis como PIB, inflação e até mesmo salários importam menos do que no passado, o mesmo não podemos dizer sobre aquilo que define a “identidade” das pessoas. Questões ligadas àquilo que se define como “identidade” poderiam estar por trás da volta do populismo e/ou movimentos radicais em muitos lugares, seja nos EUA ou Europa. Segundo estudos recentes, há dois fatores especialmente importantes: (1) a sensação de insegurança que acompanhou o movimento de globalização e (2) a frustração relacionada aos preços das moradias.

Os economistas Italo Colantone e Piero Stanig, da Universidade Bocconi (Itália), estudaram as eleições em 15 países da Europa, e chegaram à seguinte conclusão: regiões que se depararam com uma competição maior das importações chinesas foram as mais favoráveis aos partidos nacionalistas, por exemplo. Além disso, assuntos como “robôs” e “automação” são também seriam importantes na determinação dos votos. Os economistas Carl Benedikt, Thor Berger e Chinchih Chen, da Universidade de Oxford (Inglaterra), afirmam que regiões dos EUA mais afetadas pelo uso de robôs em suas indústrias acabaram sendo mais favoráveis a Donald Trump nas eleições de 2016, mesmo considerando outras variáveis, potencialmente importantes nesta disputa política. Ou seja: alguns efeitos da globalização, seja a competição maior de outros países e/ou introdução de novas tecnologias, parecem ter implicações maiores do que se esperaria num primeiro momento. A sensação de “estar ficando para trás” é algo que preocupa a muitos.

Além de questões como globalização e automação, os economistas Bem Ansell, da Universidade de Oxford, e David Adler, da European University Institute, encontraram que os preços das moradias também têm um papel importante sobre a “identidade” das pessoas. Ao analisar o referendo de 2016 sobre o Brexit, no Reino Unido, eles encontraram que regiões nas quais os preços nominais das casas triplicaram acabaram sendo mais favoráveis à permanência na União Europeia quando comparadas a outras regiões, por exemplo. Mais: ao analisarem as eleições da França de 2018, encontraram que regiões nas quais os preços das casas subiram de forma significativa foram mais favoráveis a Emmanuel Macron ao invés de Marine Le Pen, considerada extremista. Este efeito “moradia” estaria mais ligado à sensação de liberdade, de poder decidir morar em outro lugar, e não estar preso àquele lugar sem ter condições de decidir ir ou ficar. Vale notar: em muitos países desenvolvidos, a diferença de preços entre regiões ricas e pobres aumentou nas últimas décadas. Isto, portanto, estaria por trás de parte da insatisfação de parcela da população.

A relação direta entre as variáveis econômicas “tradicionais” e os resultados políticos não é a mesma de antes. Embora oscilações do PIB e desemprego ainda sejam importantes, outras variáveis devem entrar na análise dos economistas, de acordo com estudos recentes. Na maioria dos casos, tornou-se importante entender questões ligadas à “identidade” das pessoas. Além disso, perceba que os fatores aqui discutidos, como os efeitos da globalização, automação e preço de moradias não mudam de uma hora para a outra. Ou seja: o mais provável é que continuemos a ver eleitores insatisfeitos e potencialmente mais radicais nos países desenvolvidos por algum tempo, até que os governos consigam endereçar estas questões. Por fim, continuará a ser desafiador fazer previsões sobre os efeitos da economia sobre a política. Este é mais um motivo para mantermos os olhos abertos a possíveis surpresas vindas do front político mais adiante.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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