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É uma questão de cinema!

Segundo Martin Scorsese, “Cinema é sobre o que está no quadro e o que está fora”. Esta é a questão. O interessante é que o mesmo poderia ser dito sobre o “crescimento econômico”. Num momento em que os investidores estão extasiados com o bom momento da economia global, fazer o enquadramento correto da cena – do momento econômico – torna-se ainda mais relevante. Vejamos…

Como falei em meu texto da semana passada (“A mensagem está dada”), há um contraste entre a “economia” e a “política”. Aqui, e no resto do mundo. A primeira mostra-se saudável, encorajadora. A segunda desperta alguma cautela. O risco é que a segunda contamine a primeira. Como nada é tão simples assim, a interação entre estas é que precisa ser monitorada.

Um exemplo: no próximo dia 4 de março, eleições gerais na Itália definirão se partidos contrários ao Euro – como o “Five Star Movement”, de esquerda – ganharão forças. Segundo pesquisas, o mais provável é que o atual primeiro-ministro, Paolo Gentiloni, seja reeleito. Afinal, a 3ª maior economia da região tem mostrado uma melhora econômica (deve ter crescido ao redor de 1,5% em 2017, o melhor ritmo desde 2010!). Analistas da Bloomberg, no entanto, classificaram tais eleições como o “o maior risco para a Zona do Euro em 2018”.

Assim como Scorsese, acreditamos que o “enquadramento” dos fatos/eventos é algo relevante. Afinal, embora o mundo cresça de forma coordenada, ao aumentar o período considerado, surge uma preocupação importante. A produtividade de várias economias tem diminuído. Assim, como as decisões de “política econômica” mudarão esta tendência? Ou melhor: reforçarão ou reverterão tal tendência?

Mudanças demográficas podem ser outro entrave ao ritmo de crescimento do mundo. Este é um tema relevante. Afinal, no curto/médio prazo, nem mesmo “política econômica” pode ser capaz de alterar as atuais tendências. Vide o recente exemplo chinês que, ao flexibilizar a restrição de ter filhos, ainda não surtiu o efeito esperado. O entrave é simples: com menos trabalhadores disponíveis, a economia só crescerá mais caso estes se tornem mais produtivos.

Num momento de economias mais aquecidas e, portanto, um mercado de trabalho mais “apertado” (no jargão dos economistas), as empresas têm reagido de diferentes formas à maior dificuldade de contratar trabalhadores. Ou seja: aqui, além da tendência de médio/longo prazo, de diminuição da população economicamente ativa, o momento favorável das economias (além de outras questões pontuais) tem diminuído a oferta de trabalhadores disponíveis.

Um caso interessante: no Reino Unido – que está em pleno processo de “divórcio” da União Europeia –, a disponibilidade de trabalhadores é algo latente. O desemprego, em 4,3%, está em seu menor nível desde 1975. Com o menor ingresso de imigrantes, saídas possíveis são: melhorar o treinamento dos funcionários britânicos ou investir em tecnologia, por exemplo. Mas este é um processo lento. Até aqui, tem aumentado as contratações dos “menos representados” na força de trabalho: pessoas com deficiências e idosos.

O “enquadramento” diferente nos faz pensar: é bastante provável que, no atual contexto, as empresas precisem começar a oferecer salários mais altos para manter e atrair bons funcionários. Falamos do Reino Unido, mas isto também começa a ser visto em outras economias. E daí? A inflação pode começar a subir, e os bancos centrais reagirão a este movimento. Não se esqueça daquilo que está “fora” do “quadro” atual.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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