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Dólar: o “novo normal” é R$4,00?

A data de descobrimento do Brasil é o ano de 1500 (mais corretamente, 1492). Porém, temos algumas datas que representam mudanças de paradigmas quase análogas ao momento em que “nascemos” como país. Em termos de economia, da possibilidade real que se passou a ter de planejar o valor do dinheiro, essa data é o ano de 1994. O Plano Real, sem exageros, representou uma guinada sobre o problema que se pensava ser eterno em nosso país: a inflação.

Logo de sua criação, dentre outros mecanismos utilizados para demonstrar que agora o plano ia mesmo dar certo, surgiu a equiparação ao valor do dólar. Durante um tempo considerável, (entre 1994 e 1999) nossa recente moeda valia um dólar ou até menos, sendo que a ideia era a de manter a estabilização do que acabava de ser criado sem efeitos inflacionários.

Como em economia nunca há almoço grátis, temos que esse paraíso do dólar custou em juros. Os dois mecanismos, apesar de diferentes, podem se interligar quando o câmbio é fixo: o fluxo de entrada e saída é estimulado ou contraído não apenas com base na compra e venda de dólares, mas também da atratividade gerada ao capital advinda das altas taxas de juros nominais (e dos juros reais altos). No fim das contas, chegamos a ter, em março de 1999, taxa Selic de 45% ao ano.

Vendo não ser possível mais segurar as variações do câmbio, e diante de um processo complexo de crise em países emergentes no final dos anos 1990, decidimos que o câmbio por aqui poderia variar. Inicialmente havia sério temor de que o efeito inflacionário faria a moeda desabar (afinal, menos de cinco anos antes a situação era abarrotada de planos malsucedidos justamente por não fazerem sua parte contra a inflação). Ainda que aos solavancos, não foi o que aconteceu, felizmente.

Porém, nessa virada de século se estabeleceu algo importante. Em 04 de maio de 2000, outro marco importante: a Lei de Responsabilidade Fiscal (LC 101/2000) surge para determinar que há limite de endividamento para a máquina pública. Com essa mudança, junto vem uma discussão que se formulava desde poucos anos antes: era preciso que o país respeitasse o chamado Tripé Macroeconômico.

Expressão muito falada principalmente em tempos de instabilidade – quando se pensa que deixará de existir -, o Tripé Macroeconômico se baseia no seguinte: o câmbio deve ser livre, a inflação deve ter metas e deve haver superávit primário para demonstrar que o lado fiscal está comportado. Não é uma mágica, mas essa estrutura permite de vez que a economia deixe de se preocupar com sua própria estabilidade e passe a focar em desenvolver-se e crescer.

Não muito tempo após esse “tratado de estabilidade”, veio o ano de 2002 e o “efeito Lula”. Alguém que, dizia-se, tinha real capacidade de implodir tudo aquilo que havia sido conquistado com sangue, suor e lágrimas, estava para sentar na cadeira mais poderosa do país. Sorte a nossa, como país, que ele se comprometeu a não fazer isso (na famigerada Carta ao Povo Brasileiro). Foi eleito, cumpriu sua palavra neste aspecto e a economia apresentou evolução interessante. Importante notar que, quando de sua eleição, o dólar superou a temida barreira dos R$4,00.

Políticas econômicas acertadas – ao menos durante a Era Palocci no Ministério da Fazenda – fizeram a dívida pública se reduzir (afinal, havia superávit fiscal considerável todo ano), a inflação não se descontrolar mais e, juntamente ao fluxo imenso de capital que vinha do crescimento superlativo da China (do qual somos até hoje grande fornecedor), vinha um dólar que sinalizava que tínhamos chegado no pote de ouro no fim do arco-íris. Durante muitos anos era possível imaginar que nossa cotação da moeda yankee não superaria os R$2,00.

Lula sai com popularidade e com um histórico razoavelmente positivo de políticas econômicas executadas; teve de “virar a mão” em 2008, como muitos países do mundo, para absorver o choque forte da crise internacional e, supostamente, Dilma, que entraria em 2011, seria a responsável por parar a máquina de gastos em que se transformou o país.

Avançamos um pouco no tempo, estamos em 2014. Ano eleitoral. Vendia-se um país “sem problemas” pelo governo que lá estava e “com necessidade de reformas estruturais” por quem queria chegar a ele pela via eleitoral. Aqui, falamos do dólar, então é impossível não lembrar da bravata de Guido Mantega sobre a cotação: “Vai quebrar a cara quem apostar na alta do dólar”. Parece que foi a senha para que a moeda fizesse uma escalada impressionante. A moeda, que há tempos não superava R$2,50, rompeu a barreira dos R$3,00 e parecia não parar mais de subir. Entre janeiro e fevereiro de 2016, no auge das movimentações do impeachment, que se consumou mais adiante, o dólar novamente supera a barreira dos R$4,00.

Durante o período de Temer, mesmo enquanto as expectativas eram positivas e seu governo não lutava diuturnamente para não cair, o dólar jamais esteve abaixo de R$3,00 – e, em decorrência da turbulência eleitoral, em seu último ano, entre agosto e setembro, viu novamente a marca temida de R$4,00 ser superada.

Agora, com Bolsonaro, no câmbio tivemos um recorde. Todos os 51 fechamentos diários entre 16/08/2019 e 28/10/2019 ficaram acima de R$4,00 (apenas o deste último dia fixou abaixo, em R$3,99). E, mesmo após ter fechado essa sequência, não deixou de abraçar essa faixa ou mesmo superá-la diariamente. Seria então a anteriormente temida marca de R$4,00 o “novo normal” para o câmbio do dólar?

Para onde vai o dólar?

A pergunta “para onde vai o dólar” é perigosa e induz a erro, principalmente quando falamos de previsões que vão até as quatro casas após a vírgula. Porém, no contexto geral, é possível que temos de lidar com esse “novo normal”. Isso acontece em decorrência de um contexto novo que o Brasil passa, em que a taxa de juros consegue ser reduzida com mais sustentabilidade (enquanto você lê este texto estamos com Selic meta de 5% e ela deve encerrar o ano em 4,5%, algo inédito em termos nominais), se foca em ajustar o lado fiscal (previdência já aprovada e outros direcionamentos em constante discussão) e, aparentemente, esse dólar nas alturas não oferece o mesmo perigo inflacionário de antigamente.

Outro ponto que coloca panos quentes sobre a preocupação com o valor da moeda do Tio Sam é a expectativa – por vezes ilusória, dado que ocorre desde 2017 – de que haverá uma grande entrada de capitais externos no país quando algum grande evento de ajuste ocorrer. Dizia-se que esse grande evento era a saída de Dilma Rousseff, depois a aprovação da reforma da previdência ou mesmo uma grande reestruturação do Estado brasileiro.

De fato há um conjunto robusto de reformas em discussão, mas é preciso notar que nosso lado fiscal segue bastante insustentável – ainda neste ano discutimos se a Regra de Ouro (emissão de títulos de dívida para pagamento de despesas correntes) precisaria continuar a valer, ou se o Teto de Gastos não poderia ser flexibilizado – e que, aos que estão se esquecendo, a dificuldade de articulação política para aprovação de medidas segue sendo “Nível Brasil”, não há nada de “jogo ganho” neste país que ainda é o paraíso dos grupos de interesse estabelecidos há décadas.

Parece que superar a marca temida de R$4,00 já não é mais tão assustador assim. Em todo caso, é no mínimo curioso que a marca que significava até muito pouco tempo atrás “liguem todos os alertas porque agora a coisa complicou” tenha virado, possivelmente, o “novo normal”. Aguardemos as cenas dos próximos capítulos.

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