Do nazismo aos dias de hoje: a relação entre economia e política

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A polarização política pode ter consequências econômicas. Tornou-se uma realidade global e não é difícil encontrar, em países emergentes e avançados, exemplos deste fenômeno. Mas a relação de causa-efeito não é sempre tão clara. Ou melhor: pode ser de mão-dupla e, somente uma análise caso a caso, considerando as especificidades do momento, é que pode ajudar a determinar a direção. Quero dizer o seguinte: também é verdade que a polarização pode ser uma consequência de fatores econômicos. É neste contexto que muitos economistas acreditam que a Grande Recessão (2007-2008) contribuiu — e ainda contribui — para os movimentos radicais que temos visto ao redor do mundo. Mas há outros casos na História? Ou estaríamos diante de um fenômeno novo? Um interessante estudo recente explora este tema, e traz insights importantes para os dias de hoje.

A resposta simples e direta é a seguinte: sim, há outros importantes exemplos na História deste link entre crises (especialmente as severas e que incluíram crises bancárias) e ascensão de populistas nacionalistas e visões extremas. Dada a dificuldade em atribuir a “causalidade” às variáveis estudadas, a literatura econômica tem procurado explorar “experimentos” ou eventos que se aproximam a isto. Afinal, estudos que analisaram vários países ao mesmo tempo (numa visão mais “macro”) são, em geral, inconclusivos. Neste contexto, estudos recentes, que de forma mais cuidadosa se focaram algum período/país específico, chegaram à conclusões diferentes e interessantes. Este é o caso do paper dos economistas Hans-Joachim Voth (Zurich University), Sebastien Doerr (Zurich University) e José-Luiz Peydró (Barcelona GSE). Segundo eles, a crise bancária de 1931 na Alemanha contribuiu para fortalecer o movimento Nazista, por exemplo.

A Alemanha dos anos de 1930 vivenciou uma das piores recessões já registradas: uma economia que contraiu mais de 25% e um desemprego que foi às alturas. Isto foi agravado por uma severa crise bancária no verão de 1931, que ajudou a tornar aquilo que poderia ter sido uma “mera” recessão numa “Grande Depressão”. O gatilho foi o colapso do Danatbank, um dos grandes bancos alemães (naquele momento, dirigido por um famoso banqueiro judeu chamado Jakob Goldschmidt), após a crise bancária iniciada em maio na Áustria se alastrar para outras partes do continente. Os autores, ao analisarem uma base de dados detalhada das relações entre empresas e bancos, concluem que a significativa perda de renda da população fez aumentar, nas regiões mais afetadas, o apoio aos políticos mais radicais. Isto, é claro, contribuiu de forma direta para aumentar o apoio aos nazistas. O link é claro: regiões que dependiam mais de bancos em problemas (como o Danatbank) acabaram tendo empresas que sofreram mais e, por sua vez, trabalhadores que foram também mais impactados.

As evidências apresentadas por Voth, Doerr e Peydró mostram que o aumento da radicalização política da época não foi apenas consequência dos eventos econômicos, mas também de outras questões. Mesmo controlado pelos diferentes impactos econômicos que cada região vivenciou, o apoio aos nazistas parece ter crescido mais em certas regiões por outros motivos (“não-econômicos”). Os judeus estavam “super-representados” no setor financeiro alemão, destacam os autores. Desta forma, o declínio de importantes bancos — além do Danatbank, também quebrou o Dresdner Bank, por exemplo — foi considerado o “culpado” pelo sofrimento dos alemães. As distorcidas teorias dos extremistas se aproveitaram disto e não foi difícil culpar um pequeno grupo da sociedade pelos problemas da época. Para reforçar esta conclusão, os autores verificaram que casamentos entre judeus e não judeus caíram mais rapidamente em regiões afetadas pela crise bancária.

A questão é: e agora? O que poderíamos fazer, nos dias de hoje, diante de tais evidências? Em primeiro lugar, ter em mente que os efeitos de crises bancárias têm, em geral, consequências muito mais graves que os de uma recessão “normal”. Isto reforça o papel dos reguladores e das políticas macro prudenciais, que visam não só diminuir os estragos das crises, mas também evitar que elas aconteçam. Ainda não há respostas a muitas perguntas, mas está claro que a sociedade tem reagido às insatisfações econômicas dos últimos anos. Tudo indica que recentes eventos — como o Brexit e outras eleições em países como Estados Unidos, Brasil, Itália, Espanha e Grécia — têm tido alguma influência dos choques econômicos que estes países vivenciaram. Mais estudos, caso a caso, podem reforçar este entendimento. Por enquanto, é sim razoável dizer que as crises têm radicalizado aos eleitores.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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