“Devagar que estou com pressa”

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Devagar que estou com pressa”.

Foi esta uma das primeiras frases do atual ministro da Fazenda, Henrique Meirelles, logo que assumiu o seu posto, no início de 2016. Naquele momento, todos estavam com pressa, queriam respostas e, em especial, saber como o tal “desarranjo fiscal” do país seria contornado.

Meirelles, por outro lado, queria ir devagar, analisar, pensar, e só aí propor alguma medida. Ao olharmos para trás, parece ter sido uma boa estratégia: aos poucos, a percepção de risco-país caiu, e boas propostas foram colocadas na mesa (sem revisões que fariam os investidores duvidarem das intenções do governo). Em suma: o timming foi importante. E, em nossa opinião, volta a sê-lo no mês de maio.

Mas, ao contrário daquele momento, agora é o front político aquele que concentra as atenções do mercado. A equipe econômica, de indiscutível capacidade técnica, tem proposto reformas, com o apoio do presidente Temer, mas é no Congresso que estas propostas podem, ou não, ser chanceladas.

Neste contexto, votações recentes em Brasília têm sido vistas como uma espécie de “termômetro” em relação ao apoio ao governo Temer. Em última instância, à votação da Reforma da Previdência – pedra angular que, se aprovada, contribuirá para melhorar as perspectivas do país.

Importante: hoje, não parece ser tão interessante para o Planalto acelerar a votação da Previdência. A razão: são tempos de discussões, convencimento e negociação. Mas a linha é tênue: apressar as votações pode levar o Planalto à derrota; postergá-las pode sinalizar a falta de capacidade em chegar a consensos, e teimosia de alguma parte (ou ambas).

Uma coisa é uma coisa, outra coisa é outra coisa…

Embora o texto-base da Reforma Trabalhista tenha sido aprovada nesta madrugada pela Câmara (por 296 votos a favor e 177 contra) – vitória importante e significativa do governo Temer –, o Planalto ainda precisa se esforçar para aumentar/consolidar a sua “base aliada”. Afinal, para a Reforma da Previdência (que é emenda à Constituição), precisará de um mínimo de 308 votos, e não apenas a maioria simples (257 votos dos 513), como é o caso da Trabalhista.

Como está o cronograma?

A votação da Reforma da Previdência na Comissão Especial da Câmara, o passo seguinte às discussões, deve acontecer dia 3 de maio (próxima 4ª), como a princípio é esperado. No Plenário (passo seguinte, após passar pela Comissão Especial), espera-se que a votação aconteça lá pra 3ª semana de maio (a partir do dia 15, de acordo com as informações hoje disponíveis). E daí? Bem, acreditamos que uma pequena postergação destas votações (desde que no plenário seja votada até o final de maio, por exemplo) não necessariamente deve ser visto, de imediato, como algo preocupante. Mas se a postergação for maior…

Voltamos à linha tênue entre a cautela e a teimosia. Para os mercados, ao invés de o governo estar “usando tempo para convencimento e negociações”, estaria mostrando dificuldades neste processo – algo que tende a pressionar a confiança dos investidores para baixo (com evidentes repercussões negativas em bolsa, câmbio e juros).

O quão longe o governo está da vitória?

Números importantes: considerando as últimas 8 votações na Câmara, parece-nos razoável o Planalto buscar ter, no máximo, 339 votos favoráveis à Previdência. Mais do que isso é pensar num cenário extremamente otimista. Este seria um “limite superior”, levando em conta aqueles deputados que, pelo passado recente, se mostraram ferrenhos à oposição (ou seja, desconsideramos do total de 513 deputados aqueles que muito provavelmente não serão “convencidos”, e são de uma oposição mais ferrenha).

Por outro lado, um “limite inferior” seria o de 259 votos, considerando, neste cenário, que o governo fracassará completamente na tentativa de “convencer” aqueles que, por vezes, já foram favoráveis às propostas do governo Temer. Ou seja: considerando que o governo teria, apenas, aqueles que têm se mostrado mais aliados em votações recentes.

Ou seja, em jogo, o governo tem ao redor de 80 votos para “trabalhar” neste período de discussões/negociações (339-259). Mas não precisa convencer todos estes votos para sair vitorioso. Dito de outra forma: para alcançar os 308 votos necessários, menos da metade destes “indecisos” precisariam ser “convencidos”. Este é o tamanho da briga que hoje enxergamos. Vamos devagar, mas nem tanto.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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