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Desportivo Clube-Empresa de Futebol

Se você torce para algum time do futebol brasileiro, é bem provável que este seja o seu sonho: um multimilionário aparecer para investir rios de dinheiro no seu time de coração. Porém, o que talvez não seja do seu conhecimento, é a maneira como ocorre esse processo, de alguém – grande empresa ou “salvador” multimilionário – chegar investindo pesadamente em um clube de futebol qualquer. Para início de conversa, tudo isso geralmente começa com algo chamado clube-empresa.

De maneira simples, clube-empresa é um modo de organização das entidades de prática desportiva (clubes) em sociedades empresariais, tendo como objetivo a obtenção de lucro. Assim, grande parte dos torcedores brasileiros, principalmente aqueles que sofrem torcendo por clubes falidos, sonham para que o time do coração possa se tornar em algum tipo de “Desportivo Clube-Empresa de Futebol”. Motivo para se ter esse tipo de sonho é o que não falta, dada a calamitosa situação financeira de diversos clubes brasileiros, consequência de administrações incompetentes e fraudulentas, algo que se tornou comum até mesmo para clubes de enorme tradição. Cruzeiro, Atlético Mineiro, Botafogo, Fluminense, Vasco e Corinthians, por exemplo, formam um seleto grupo de grandes clubes com seríssimos problemas financeiros. Juntos, os clubes da série A do Campeonato Brasileiro temporada 2018, acumularam cerca de R$ 7 bilhões em dívidas!

Esse desejo de transformar um time falido nessa espécie de próspero Desportivo Clube-Empresa de Futebol tem base em experiências de sucesso na Europa e nos EUA. Clubes famosos como Chelsea, Manchester City, PSG e clubes pertencentes a principal Liga Americana de Futebol (a MLS), são apenas alguns exemplos muito bem-sucedidos de clubes que funcionam como uma empresa. No caso do Brasil, como na América do Sul em geral, os exemplos de clube-empresa são bem mais recentes e escassos. Mesmo assim, já podemos citar – ao menos até o momento – um caso de relativo sucesso, que é o do Red Bull Bragantino.

RB Bragantino, antigamente conhecido apenas por Bragantino, é um time de futebol com certa tradição, no estado de São Paulo, que em 2019 se associou a empresa Red Bull. A empresa Red Bull já atuava em diversos ramos esportivos ao redor do mundo, inclusive no futebol, em países como Áustria e Alemanha, além do Brasil, comandando uma equipe chamada Red Bull Brasil. Com o objetivo de conseguir o acesso à elite do futebol brasileiro, o clube da empresa se fundiu com o Bragantino. Essa associação já resultou no título antecipado da Série B, além de boas expectativas para os próximos anos. Apenas como exemplo, a equipe do RB Bragantino terá R$ 200 milhões em seu orçamento a partir de 2020.

Além dos cases de sucesso, outro ótimo argumento é a questão da busca pelo lucro, algo que difere bastante das velhas sociedades civis sem fins lucrativos. É essa busca pelo lucro (direta ou indiretamente) o principal combustível dos empresários e empresas que investem em clubes de futebol. Tal busca, como ocorre em vários outros segmentos empresariais, tende a elevar o profissionalismo na gestão, dado que, em caso de falência, o dono seria o maior penalizado, não havendo aquela velha socialização do fracasso tão conhecida nas associações. Outra questão está na própria limitação no regime das sociedades civis sem fins lucrativos em captar recursos, dado que é a partir do modelo de clube empresa que os clubes conseguem trazer investidores para o seu capital social, uma vez que nenhum investidor consegue obter participação em associações.

Até mesmo para os órgãos públicos os clubes empresas tendem a ser vantajosos, devido à dificuldade de se fiscalizar as associações. Essa dificuldade na fiscalização é o motivo para tantas administrações desastrosas nos clubes sociais. Afinal, não é coincidência que clubes de futebol organizados na forma de sociedades civis sem fins lucrativos, em vários casos, acabaram sendo extremamente bem rentáveis para vários dirigentes – os emblemáticos cartolas – do futebol brasileiro. Rentáveis para os dirigentes, mas não para os clubes.

No entanto, alguns torcedores, principalmente os mais saudosistas, apresentam uma certa resistência a esse modelo de clube-empresa. De maneira muitíssimo bem justificada, esses torcedores acabam temendo que o clube perca a sua identidade histórica. Por outro lado, também é enormemente justificável que o novo dono ou acionista do clube tome decisões acerca de mudanças, como no nome da equipe, nas cores do uniforme, no nome do estádio, entre outros detalhes.

Desconsiderando os legítimos motivos dos torcedores saudosos, outra questão importante que deve ser observada é que, apesar de poder servir como uma ótima solução, a ideia de clube-empresa deve ser encarada com parcimônia, sem nunca ser vista como uma tacada de mestre ou como a grande salvação. Até porque, dentro do conceito simplificado de clube-empresa, existem muitas particularidades e variações.

Primeiramente, deve-se considerar que os clubes-empresa são empresas, e como toda empresa, são passíveis de fracasso e falência. Para provar isso, podemos revisar alguns cases de insucesso. Entre os casos mais recentes é possível – quem diria – já citar o caso de um time brasileiro: o Figueirense. Apesar de funcionar como um clube empresa, a equipe catarinense passou por maus bocados na atual temporada do Campeonato Brasileiro da série B, além de estar enfrentando uma série de processos devido a salários atrasados de atletas. A Europa também possui os seus fracassos quando o assunto é clube-empresa, a exemplo da falência do tradicional Bury e da quase falência do Bolton.

Em relação às particularidades, é preciso destacar a existência de um verdadeiro universo de diferentes formas de organização de um clube-empresa. Essa diferença ocorre muito em função do tipo de legislação desportiva em vigência, algo que pode variar bastante de país para país. Na Inglaterra, por exemplo, os clubes de futebol desde o início foram empresas, cujos donos eram organizações formadas por milhares de torcedores. Atualmente, ligas como a alemã, a norte americana e até a inglesa, são quase que totalmente abertas para grandes investidores que queiram comprar ou investir em ações de uma equipe de futebol. O caso de Portugal diverge, constituindo-se em um sistema híbrido de clube-empresa, a partir da criação das SADs (Sociedades Anônimas Desportivas), através das quais os clubes – em forma de associações – atuam em conjunto com empresas, ficando como responsáveis por parte da administração do clube.

No caso do Brasil, o nascedouro das equipes de futebol ocorreu na forma de associações. Mas em 1995, sob a batuta da Lei Zico, ficou facultado aos clubes tornarem-se empresas. Posteriormente, em 1998, pela Lei Pelé vigorou como obrigatoriedade a conversão dos clubes profissionais em empresas. Mas por uma série de erros e ambiguidades, essa lei foi estendida, para mais tarde regredir de obrigatoriedade para opção. Atualmente, essa questão voltou a ser discutida pela Câmara dos Deputados, a partir de um projeto de lei elaborado pelo deputado Pedro Paulo (DEM-RJ). Recentemente aprovada pela Câmara, essa lei visa o incentivo – a partir de uma série de benefícios – da migração dos clubes para o formato de organização empresarial.

Desse modo, você, torcedor sofrido de algum clube brasileiro, entenda de uma vez por todas, que a ideia de clube-empresa é incrível! Não obstante, é necessário compreender todas as dificuldades do processo e ter a clareza de que o seu sonho de um Desportivo Clube-Empresa de Futebol aos moldes de Chelsea, Manchester City, PSG e RB Bragantino, é possível, mas também pode por uma série de fatores, tornar-se em um verdadeiro pesadelo, bem parecido com os casos de Figueirense e Bury.

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