Desconfiança na Argentina e Turquia: um recado para o Brasil?

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Diversos países emergentes ainda se encontram numa situação delicada. Afinal, estes precisam conviver não só com um mundo menos “favorável” do ponto de vista internacional – os juros nos EUA devem subir outras duas vezes neste ano, por exemplo –, mas também com os seus próprios problemas. Nos últimos dias, Argentina e Turquia estiveram no centro das atenções dos investidores, e não é por acaso. Ainda assim, vale destacar a diferente postura destes países. Seria este um recado para o próximo presidente no Brasil?

Tanto a Argentina quanto a Turquia têm uma inflação alta e insistente, um déficit em conta corrente e uma elevada dívida em moeda estrangeira. São características que os tornam “frágeis” do ponto de vista macroeconômico, num momento em que o banco central americano segue normalizando as suas taxas de juros. Como este já foi tema de outros comentários no blog da Guide, me limito a dizer que este cenário desafiador — como o próprio Banco Central brasileiro o tem caracterizado, há meses — persistirá. Mais do que isto: para os países emergentes, ainda é difícil vislumbrar um período tão favorável como fora 2017, por exemplo. Num recente artigo, o britânico Financial Times afirmou: “Embora Turquia e Argentina sejam os países mais frágeis, estes não são os únicos que podem sofrer com a mudança da política monetária (global) ”.

Apesar das dificuldades de Argentina e Turquia, e embora ambos tenham “apertado” a sua política monetária (ao menos de formas diferentes), seus líderes têm se comportado de maneiras distintas. O argentino Mauricio Macri reconhece que o mercado tem expressado uma falta de confiança em seu governo, e a continuidade das reformas (as próximas eleições serão em outubro do ano que vem); e buscou ajuda com o FMI. Já o turco Recep Tayyip Erdogan faz uma interpretação diferente. Afinal, ele é quem desconfia dos investidores e vê os recentes movimentos nos mercados – incluindo a expressiva depreciação da moeda – como um mero reflexo das políticas americanas, incluindo a elevação de taxas sobre suas exportações, por exemplo. Vale o registro: desde 2013, quando Erdogan tomou posse como primeiro ministro, a moeda turca perdeu mais de 70% de seu valor. Além de seu ceticismo, Erdogan insiste na tese de que juros mais altos produzem mais inflação, impedindo o bom funcionamento do banco central.

A verdade é que os emergentes continuarão a ter dias difíceis pela frente. Mas isto não é uma grande novidade. O ponto aqui é compreender que os líderes destes países podem adotar abordagens distintas aos problemas. Estão aqueles que se dão ao trabalho de tentar extrair sinalizações dos mercados, e estão abertos a dialogar com o resto da sociedade; e aqueles que insistem em ignorar estas sinalizações, e se arriscam em agravar a situação do país. Para nós que estamos num processo de escolha do próximo presidente, aqui no Brasil, parece ser algo relevante a se considerar. Em tempos especialmente delicados, um líder precisa estar disposto a escutar, dialogar, e aprender com os seus próprios erros. Isto não é garantia de sucesso, mas já é um começo.

O Brasil não é exceção entre os países emergentes, e o enorme desafio fiscal nos coloca numa situação, se não tão ruim como a de Argentina e Turquia, não muito longe disto. Aliás, num texto do dia 7 de junho, aqui no blog, mostrei um índice de vulnerabilidade de emergentes, corroborando tal afirmação que acabo de fazer. Naquele momento, com o dólar ao redor de R$3,85, parecia ser bastante provável que este fosse para R$4,00, ou algo acima disto. Diante da incerteza eleitoral, e um quadro externo que segue desafiador, isto se concretizou. Aqui, neste momento, desconfio que será difícil vermos um grande alívio nas próximas semanas (considerando os mercados brasileiros), dada a proximidade do 1o turno das eleições. Ainda é preciso cautela.

 

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista-chefe da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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