Depois do Fiscal vem o mais difícil

tags Iniciante

 O problema fiscal é a nossa droga, estamos viciados em discutir o problema, estamos sob o efeito deste entorpecente, que obviamente precisa ser discutido e resolvido, porém, vai chegar o momento em que tal problema será superado ou jogado debaixo do tapete pela classe política e vamos atacar a discussão de como fazer o país crescer de forma sustentável no longo prazo.

E para crescer só existe um caminho, o da produtividade. E a situação brasileira neste setor é igual ou pior a sua situação fiscal.

Primeiro vamos entender rapidamente o que é a produtividade. Pense em um mecânico de automóveis, agora pense que existe um brasileiro e outro alemão. Em um dia de trabalho o mecânico brasileiro consegue consertar, digamos, 4 carros. Enquanto, o alemão consegue consertar 8.

Isto é, o trabalhador alemão, neste caso, é duas vezes mais produtivo que o brasileiro.

Mas o que determina a produtividade? Basicamente duas coisas, o acesso ao capital físico que no caso dos mecânicos, seriam as ferramentas para se realizar o trabalho na oficina e o conhecimento avançado sobre automóveis, tal conhecimento que no termo técnico os economistas se referem como capital humano.

Como está o Brasil nesse mix de capitais? Não muito bem…

No capital físico, o país até que não vai tão mal, apesar do alto custo dos bens de capitais e industriais, no final do dia as empresas aqui conseguem ter acesso a máquinas e ferramentas de tecnologia similar, se não igual aquelas presentes em outros países. Basta ver a Embraer que tem acesso as melhores máquinas industriais ou uma grande fazenda de soja que possui os melhores tratores que o dinheiro pode comprar.

Mas da porta da fábrica/fazenda pra fora a coisa complica bastante, nossa infraestrutura de transporte é sofrível para dizer o mínimo. Um container as vezes precisa esperar semanas no Porto de Santos, o maior porto do país, para ser embarcado. O porto se tornou pequeno e não foi ampliado, navios passam semanas esperando por espaços em uma doca, essa demora se traduz em um frete mais caro, tempo é dinheiro. A soja que sai das fazendas do Mato Grosso demora até duas semanas para percorrer apenas 2.000km até o principal porto por onde a produção é escoada.

Sem falar que menos de 50% da população tem esgoto encanado. Nem no quesito saneamento básico o país consegue ir bem. Algo simples.

O capital humano é pior ainda…

O capital humano brasileiro é claramente de péssima qualidade. Retornando ao exemplo dos mecânicos, se o Brasileiro e o alemão fossem colocados na mesma oficina, o Alemão ainda será 50% mais produtivo que o Brasileiro. O capital físico é só uma parte da história, o mecânico alemão estudou mais, foi mais bem preparado que o brasileiro, ou seja, tem mais capital humano acumulado.

A acumulação de capital humano é um dos processos mais complexos que os economistas já pararam para analisar, demora gerações e envolve um esforço de política pública gigantesco, mobiliza toda a sociedade, da educação infantil a centros de pesquisa.

E não é nem preciso gastar muito tempo falando da qualidade da educação brasileiro. Apenas para ilustrar, o Brasil ainda tem 7,2% da população analfabeta, ocupamos as 10 últimas posições do PISA, uma prova que avalia a qualidade da educação em mais de 70 países. Nossas universidades de elite, que são públicas, vivem imenso desgaste consequente da crise fiscal. Ainda por cima, 44% da população brasileira diz não ler e 30% nunca comprou um livro.

Para agravar, gastamos mais com idosos do que com crianças e jovens. Estamos penhorando uma geração inteira, não dando educação de qualidade. Mais que isso, estamos deixando o capital humano do país estagnado e as vezes até mesmo diminuindo.

O quadro prospectivo para a produtividade brasileira continua bastante negro, políticas que deveriam estar sendo discutidas e tomadas não estão sendo feitas.

O capital humano se degrada muito rápido, é quase impossível transformar um adulto analfabeto em uma pessoa com diploma universitário, mas é possível transformar o filho desse sujeito em um médico. Mas nada tem sido feito para que isso aconteça.

O capital físico é um problema relativamente mais simples de ser resolvido, com boas políticas de garantias e de financiamento, se consegue fazer grandes obras e projetos de infraestrutura que colaborem para o aumento da produtividade nacional, mas ainda sim será bastante desafiador mudar esse quadro.

Apesar do país estar passando por uma grave situação fiscal, a discussão sobre o futuro do país não deveria estar em compasso de espera, precisamos superar um pouco o efeito entorpecente da situação fiscal e começar a falar um pouco mais sobre o que será do país nos próximos 10, 20, 30 e até mesmo 50 anos.

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

406 visualizações

relacionados

Bitnami