Depois do problema fiscal: o problema da produtividade

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O país sofre para voltar a crescer: entre 2015 e 2016, o PIB brasileiro caiu mais de 8% no acumulado do período. De 2017 até agora não recuperamos nem a metade deste tombo. O país precisa de medidas que nos faça voltar a crescer a taxa elevadas. Mesmo que as reformas fiscais (o principal desequilíbrio macroeconômico do país) sejam feitas, ainda será preciso lidar com um dos principais entraves ao crescimento brasileiro no longo prazo: a produtividade.

A importância da produtividade

Basicamente a produtividade é a capacidade de que um país tem de produzir com os recursos técnicos e humanos que hoje ele tem disponível. Logo, um trabalhador brasileiro de uma montadora de automóveis, por exemplo, tem a sua disposição as máquinas e o conhecimento que o Brasil tem acesso, enquanto um trabalhador canadense tem acesso às máquinas e ao conhecimento que o Canadá gerou ao longo dos anos.

Hoje o diferencial de produtividade de um trabalhador brasileiro para um canadense é de aproximadamente 1:4, o que quer dizer que para produzir o mesmo bem/serviço, o Brasil precisa de 4 pessoas, enquanto o Canadá de apenas uma. Os canadenses conseguem fazer muito mais com muito menos, e isso significa dizer que eles possuem uma produtividade elevada.

Mesmo se colocássemos a disposição do trabalhador brasileiro as mesmas máquinas que os canadenses têm acesso, a produtividade ainda seria muito diferente, pois o estoque de conhecimento é diferente entre os países. A educação canadense é infinitamente superior a brasileira, principalmente o ensino profissional.

Os efeitos da produtividade sobre o crescimento econômico

Portanto, é lógico que produzindo mais com o mesmo nível de recursos, um país irá crescer rapidamente. Assim, é de suma importância que a produtividade seja aumentada ao longo do tempo de forma a propulsionar a economia no longo prazo e assim acumular cada vez mais riquezas.

A produtividade é parte chave no segredo que os economistas tanto se debruçaram ao longo de quase todo o século XX para tentarem explicar porque alguns países ficaram incrivelmente ricos e outros muito pobres. Como já dito, uma economia pode crescer de duas formas: (i) Demografia: onde com o aumento da população a economia naturalmente cresce, uma vez que mais e mais pessoas irão trabalhar e transacionar nessa economia. O simples crescimento populacional faz com que a economia se expanda; (ii) Pelo crescimento da produtividade, que já abordamos acima.

O Brasil tem um quadro bastante preocupante acerca do crescimento da sua produtividade. Tal crescimento tem diminuído ao longo do tempo, bem como o avanço demográfico. O gráfico abaixo nos mostra que a produtividade tem sido responsável por uma parte muito pequena do avanço anual médio da economia:

A produtividade correspondeu por aproximadamente ¼ da expansão da economia brasileira entre 2001 e 2018. Entre 1981 e 2018, um período maior, o número cai para apenas 1/10. A mais de 30 anos o país cresce com muito pouco impulso advindo da produtividade. O cenário é bastante diferente do que aquele apresentado no período de 1950 a 1980, onde a produtividade correspondia por mais da metade do crescimento. Após 1981, a demografia passou a ser o grande motor do crescimento nacional.

O que aconteceu naquele período? Após os anos 1950, o país intensificou a política de industrialização e de urbanização que já estava em curso. Neste período, foi construído praticamente todo o estoque de infraestrutura e capital que o país que tem hoje. Soma-se as políticas nacionais, o fato de também ter sido um período de grandes ganhos de produtividade em todo o mundo, com a chegada de novos métodos e tecnologias, principalmente na indústria, bem como o começo da era de tecnologia da informação.

No mesmo período, a demografia também ajudou e muito. Naquela época, a mulher brasileira tinha em média 4 filhos, taxa que é o dobro da chamada taxa de reposição (que é de 2 filhos), ou seja, a população crescia muito rapidamente, o que impulsionava a contribuição demográfica ao crescimento do país. Hoje esse número já é menor que a taxa de reposição: em média a mulher brasileira tem 1,6 filhos hoje.

A partir dos anos 80 a produtividade parou de crescer, os investimentos cercearam e o país não investiu como deveria em educação, o principal motor para geração de mais produtividade. E começamos a ficar para trás. Bem como deixamos de lado o planejamento da infraestrutura, que hoje é um dos principais gargalos ao país. O resultado disso é que o Brasil tem péssima colocação nos principais rankings de produtividade e competição: perdemos para países como Indonésia e Tailândia, além de estarmos atrás de praticamente todos os nossos pares emergentes (exceto Argentina), como mostra o gráfico abaixo:

O país precisa voltar a se concentrar em aumentar a sua produtividade, caso contrário, mesmo com as reformais fiscais (que são extremamente caras ao país hoje), podemos ficar travados nessa armadilha de baixo crescimento para sempre. Principalmente em um momento onde a demografia já mostra sinais de desaceleração.

Victor Cândido Victor Cândido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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