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Corte de juros do FED é “positivo”, mas…

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Os mercados internacionais começaram a última semana de julho em tom de cautela. Não é por acaso: (1) nesta terça-feira (30), serão retomadas as conversas entre líderes de EUA e China para tentar conter a “guerra comercial” entre os países e, (2) na quarta-feira (31), as atenções estarão voltadas à reunião de política monetária do FED, o banco central dos EUA. Aliás, o presidente da instituição, Jerome Powell, será o grande destaque dos próximos dias, e pode tornar o encontro desta semana num dos mais emblemáticos dos últimos tempos. Os juros cairão nos EUA? Quanto? Como será justificado tal corte? Quais serão as sinalizações do FED para os próximos meses? Por fim, e não menos importante: qual será o impacto disto tudo sobre os mercados internacionais? Em tempos de mudança de postura de vários bancos centrais ao redor do mundo, vale questionar-se: um corte de juros é sempre algo “positivo” para os mercados?

Neste texto, embora a questão comercial seja extremamente importante, concentro-me no segundo tópico: a reunião do FED, suas motivações e implicações. Afinal, será um evento emblemático: se os juros forem reduzidos, será a primeira vez que isto acontece em mais de uma década. Foi em 2008 a última vez que os juros foram cortados, quando o BC, sob o comando de Ben Bernanke, tentava conter os efeitos da crise financeira. Desta forma, Jerome Powell acabará revertendo a tendência de “normalização” da política monetária que de alguma forma é observada desde dezembro de 2015, quando a então presidente da instituição, Janet Yellen, anunciou a primeira elevação de juros do período pós-crise. Esta expectativa de “ajuda” do FED — e de outros tantos bancos centrais ao redor do mundo — é o que tem impulsionado os mercados internacionais nos últimos meses, em minha opinião. No meu último texto para o blog da Guide, comentei sobre isto, à luz do recém-divulgado relatório de projeções do FMI.

Mas quais os motivos do FED para reduzir os juros? Estes são motivos “válidos”? O movimento de Powell e demais membros da instituição justifica-se se consideramos o que pode acontecer nos próximos meses. Ou seja: justifica-se se consideramos que os EUA irão desacelerar (de fato, isto aconteceu do primeiro para o segundo trimestre!) e que a inflação continuará muito baixa — expectativas que, de fato, parecem muito razoáveis. Por outro lado, se olharmos para os dados atuais, pensar em corte de juros (e especialmente em vários cortes) ignorando as expectativas quanto à atividade e inflação pode soar um tanto quanto exagerado. Mas reduzir as taxas de juros — hoje estão entre 2.25-2.50% ao ano — parece bastante razoável. É preciso lembrar que seria um erro o BC esperar até que o choque negativo aconteça. Seria muito tarde pensar em cortar os juros somente após a chegada (evidente) da próxima recessão. Para esta semana, o mercado precifica uma probabilidade de 80% de corte de 25 pontos base, segundo a Bloomberg. Ou seja: os juros passariam para 2.00-2.25% ao ano. E há ainda uma minoria que precifica um corte maior, de 50 pontos — muito pouco provável que aconteça, em minha opinião.

Tendo consciência da importância do encontro desta semana do FED, e que tudo aponta para uma redução de 25 pontos base, é hora de voltar-se à pergunta mais interessante: qual será o efeito de tudo isto sobre os mercados internacionais? As implicações de um corte de juros nem sempre são tão simplistas como alguns querem fazer parecer. Aliás, este foi um dos pontos abordados pelo famoso investidor Howard Marks em seu último memo, intitulado “On the Other Hand” (“Por Outro Lado”, numa tradução livre para o português). Divulgado na semana passada, Marks chama a atenção para o encontro desta semana do FED, e tenta colocar na balança os pros e contras de uma redução de juros neste momento. Afinal, o esforço para evitar uma próxima recessão do FED pode acabar gerando uma recessão ainda mais forte quando esta, de fato, acontecer? Sem fornecer respostas, Marks cumpre um papel importante: como investidores, temos que questionar-nos, sempre. É possível que a relação “juros mais baixos -> economia mais forte -> lucros maiores das empresas -> preços mais altos das ações” nem sempre seja tão simples e mecânica quanto parece.

O corte de juros do FED é defendido por muitos economistas, e parece fazer sentido no atual momento. Tenho argumentado em textos anteriores que esta realidade de “ajuda” dos bancos centrais voltou a ser uma realidade, diante de riscos crescentes no cenário macro. Isto tende a contribuir para o bom momento dos mercados internacionais no curto prazo, como tem acontecido e tende a continuar por mais algum tempo. Mas é preciso perguntar-se: até quando? Até quando precisaremos da “ajuda” dos bancos centrais? Até quando isto será encarado como “positivo” pelos investidores? Descobrir esta “inflexão” é o difícil, mas é preciso lembrar que este ponto existe. Nesta semana, Powell deve anunciar um corte de juros; e outros bancos centrais ao redor do mundo também devem a fazer algo semelhante nos próximos meses. Mas duvide daqueles que taxam estes “eventos” como sendo evidentemente “positivos” para as bolsas e para os mercados internacionais de forma geral. Tudo indica que estamos no “final da festa” do ciclo econômico. Em algum momento, mesmo que você contrate outro DJ, compre mais bebida e ofereça mais comida, as pessoas cansam.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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