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Copa do Mundo: Como explicar o desempenho das seleções?

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A probabilidade de o Brasil ganhar a Copa do Mundo da Rússia é de 30%, segundo cálculos do blog FiveThirtyEight, do respeitado estatístico Nate Silver. Logo atrás estão as seleções da França, com 15%; seguida por Croácia com 12%; Bélgica com 11%; Inglaterra com 10% e Uruguai com 6%. Os uruguaios, diga-se de passagem, já estavam entre os 10 mais cotados desde o início da competição, considerando as casas de apostas. Numa competição que tem surpreendido pelos resultados até aqui, o que é que estes países têm em comum? Quais fatores explicam o desempenho no futebol? O quanto é mero “talento”?

Recentemente, a revista britânica The Economist se perguntou: “se o Uruguai pode ser tão bem sucedido, por que outros países maiores e mais ricos não poderiam sê-lo também?” Ótima pergunta. Para isto, fizeram um estudo estatístico e levantaram os dados de todos os jogos internacionais desde 1990. Excluíram seleções que jogaram menos de 150 partidas desde então. Ao todo, a amostra é composta por 126 seleções. Acredite: o modelo explica 40% daquilo que se propõe a estudar (a diferença de gols média das seleções vis-a-vis uma seleção “mediana”, que serve de comparação para todas as demais).

 

 

Dito de outra forma: expressivos 60% não foram explicados pelas variáveis selecionadas, atreladas a questões específicas e mais concretas. O “recado” é direto (e bastante intuitivo): o sucesso no futebol, em grande parte, não está no controle dos técnicos, nem das associações de futebol. Poderíamos chamar este componente de mero “talento”, proveniente de craques como Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e Neymar.

Do gráfico anterior, perceba que seleções como as de Uruguai, Argentina e Brasil se saem melhor do que o esperado. Europa, Espanha, Portugal e Inglaterra também superam as previsões do modelo (afinal, também estão acima da linha em destaque). Abaixo do esperado, estão Estados Unidos e Canadá. Em alguma medida, a Alemanha. Poderíamos dizer que estes países têm “talento negativo”, se é que isto existe.

Ainda assim, vale destacar 4 pontos que fazem, sim, grande diferença no desempenho futebolístico:

1 – Encorajar crianças a desenvolver a criatividade;

2 – Evitar que talentosos adolescentes sejam esquecidos;

3 – Aproveitar o know-how e network global;

4 – Preparar-se para a Copa do Mundo.

Além destes, o PIB dos países também é levado em consideração, é claro.

A 1ª lição parece estar sendo levada a sério pela China. O presidente Xi Jinping quer o futebol sendo praticado em, no mínimo, 50 mil escolas até 2025. Os chineses não querem ser uma potência econômica e dar vexame no futebol. Mas será difícil reverter este quadro no curto prazo: a modalidade não é a preferência nacional. Na Ásia do cricket, meros 10% colocam o futebol no topo da lista.

A 2ª lição já foi aprendida pelo Uruguai há bastante tempo: todo jogador amador têm os seus resultados e informações compiladas numa base de dados nacional. A Islândia, com apenas 330 mil habitantes e 100 jogadores full-time, treinou 600 técnicos para trabalhar em escolas. Claro que países menores são mais fáceis de controlar.

A 3ª lição tem como exemplos alguns países da África, que têm jogadores em times importantes da Europa, e trazem, às suas seleções, conhecimento e experiência internacional. A Costa do Marfim é quem chegou mais longe em competições internacionais. Nesta Copa, Senegal era a mais cotada do continente, com 9 jogadores vindos de times do exterior. Da Europa, a Croácia é exemplo. Da América Latina, o México faz o contrário: em comparação com Argentina e Brasil, o viés é a favor da manutenção dos jogadores no próprio país. Isto faz os mexicanos desempenharem em linha com o esperado pelo modelo, e não acima.

Por fim, a 4ª lição diz respeito à preparação para as competições. Isto engloba jogar em equipe, independente de rivalidades entre os times dos jogadores; até a viabilidade econômica para colocar a seleção de pé, com toda a estrutura que isto exige.

Em suma: o futebol é, sim, resultado do “talento”. Simples assim. Seria ilusão acreditar que alguns fatores econômicos e específicos poderiam se sobrepor à genialidade dos jogares. Aliás, talvez seja este o grande atrativo deste esporte. De qualquer forma, vale lembrar: de nada serve o talento de alguns poucos, sem uma boa estrutura por trás, que faça o país se renovar, de geração em geração, e possibilite o surgimento de novos ídolos internacionais.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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