Conexões perigosas: uma análise dos bancos globais

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Crises financeiras ocorrem de tempos em tempos e apresentam diversas similaridades entre elas. Aliás, é comum que os efeitos destas crises não permaneçam restritos às economias nas quais foram geradas. Pelo contrário: exemplos de sua propagação aos mais diversos ativos e mercados existem há mais de 200 anos, e a recente Crise Financeira Global de 2008-2009 é prova disto. Assim, não deveríamos imaginar que o resto do mundo ficará alheio a uma nova crise financeira em algum país desenvolvido, por exemplo. Para ilustrar estas “conexões perigosas”, mostro aqui o “mapa” dos 28 bancos mais importantes do mundo, de acordo com uma classificação de potencial risco sistêmico. Estamos todos igualmente conectados? Quais lições podemos tirar dos últimos anos?

No último dia 23 de maio, escrevi um texto ressaltando as conexões entre os mercados dos países emergentes e desenvolvidos. Levando em conta a definição de “spillovers financeiros” — termo utilizado para fazer referência às flutuações de preço de um ativo (ou volatilidade) que se tornam o gatilho para mudanças nos preços de outros ativos —, os países emergentes parecem contribuir com aproximados 30% dos movimentos nos países avançados, de acordo com o FMI. Ou seja: são relevantes e tudo indica que estes continuarão a ganhar relevância nos próximos anos. Em especial, países da Ásia, até aqui estão mais “desconectados” financeiramente do resto do mundo, contribuirão para isto. Portanto, é razoável pensar que aqueles que ainda não fazem parte da “rede” passem fazê-lo, em breve.

Desde a Crise Financeira Global, a literatura econômica parece dar especial atenção a estas “conexões perigosas” entre ativos, mercados e economias. Afinal, se reconheceu que a regulação financeira falhou, e os spillovers negativos deste choque, que começou nos EUA, ainda estão presentes nos dias de hoje ao redor do mundo, nas suas mais diversas formas (inclusive na polarização política que temos visto ao redor do mundo!). No entanto, definir e quantificar estes spillovers não é trivial, e não há uma única forma de fazê-lo. Tentando colocar alguma luz ao assunto, analisei* a volatilidade do retorno diário das ações dos 28 bancos mais relevantes do mundo**, considerando o período de 2006 a 2018. A seguir, mostro a “rede” deste período, na qual os spillovers podem ser visualizados.

Os resultados deixam explícito o componente geográfico destes spillovers. Ou seja: é razoável dizer que se a volatilidade de um determinado banco aumenta (para além do “explicável” pelas oscilações do mercado como um todo), outras instituições financeiras do país/região tendem a ser mais afetados (embora existam claras variações em intensidade). E, em linha com o estudo do FMI, fica evidente que instituições asiáticas — neste caso, não só as da China, mas também as do Japão — estão mais “desconectadas” do restante da rede Ocidental. Os três japoneses considerados — Mitsubishi UFJ (MTU), Mizuho (MFG) e Sumitomo Mitsui (SMFG) —, por exemplo, formam claramente uma rede separada. Por último, vale notar que as instituições americanas têm um papel central, e também possuem um tamanho maior do que as demais, refletindo a sua maior influência no restante da rede.

No entanto, embora seja um bom indicativo da conexão-média entre as instituições, é bem verdade que entre 2006 e 2018 diversos eventos ocorreram nestas economias, e não é razoável supor que estas dependências permaneceram estáveis. A análise feita permite medir estes spillovers ao longo do tempo, aumentando a capacidade de antecipar crises financeiras. Como ilustração, mostro a seguir o comportamento da rede considerando o segundo semestre de 2011, quando a crise bancária na Europa atingia um momento crítico. Em relação à rede-média, instituições europeias são as que agora têm o maior peso e, portanto, as que mais geram spillovers sobre as demais. As americanas, por outro lado, compõem um grupo separado, mostrando certa “imunidade” ao choque europeu. O mesmo não acontece com os bancos japoneses, desta vez incorporados à rede.

 

 

Em suma: estamos conectados, e a tendência é que estas conexões se tornem ainda mais relevantes nos próximos anos. No entanto, é verdade que nem todas as conexões têm a mesma intensidade, e elas podem claramente mudar ao longo do tempo. Ter a capacidade de medir a evolução destas conexões nos permite não só identificar aqueles mais influentes e/ou mais frágeis dentro da rede, mas também ter uma maior capacidade de antecipar crises financeiras e/ou aumentos excessivos de volatilidade. Há, sim, conexões perigosas.

 

Referências:

* Seguindo a metodologia inicialmente proposta por Diebold and Yilmaz (2009), e levando em consideração as recentes contribuições de Diebold and Yilmaz (2012, 2014) e Demirer et al. (2017);

** Aqui, mais relevantes do ponto de vista do risco sistêmico, conforme definição e classificação do Financial Stability Board (FSB) em conjunto com o Basel Committee on Banking Supervision (BCBS).

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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