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Como os gastos do governo impacta seu investimento em ações?

 O título desse texto é uma pergunta, que em um primeiro momento parece ser meio desconexa, mas não é, o quanto o governo gasta tem enorme impacto nas taxas de juros. Juros menores significam que o custo financeiro das empresas cai, aumentando o lucro, além de deixar a renda fixa menos atrativa, levando ainda mais investidores a bolsa.

Antes de entender o impacto do governo, vamos voltar um pouco em um conceito simples, que é a poupança.

A poupança nada mais é que a renda não consumida de uma pessoa. O mesmo conceito também se aplica a empresas e ao governo. Se somarmos todas essas poupanças de todos os indivíduos e todas as empresas do Brasil e do governo, chegaremos ao conceito de poupança nacional, que nada mais é que a poupança acumulada em todo o país.

Porque a poupança é importante para nós? Porque ela é o combustível do mercado financeiro. Bancos emprestam o dinheiro poupado, pessoas investem em instrumentos financeiros (CDB’S, ações, LCI, tesouro direto e etc…), empresas emitem dívida ou/e ações e pegam o dinheiro poupado por outros agentes, para fazerem seus investimentos.

De forma simples, podemos definir que a poupança tem um preço, esse preço é aquele que equilibra a demanda por poupança com a oferta de poupança.

De forma bastante simplificada, o Banco Central é quem determina a taxa básica de juros no Brasil, a Selic, a taxa mais baixa que a economia tem. O Banco Central faz essa escolha levando em consideração a oferta e demanda por poupança.

O preço do dinheiro é a taxa de juros. Então existe um certo nível de juros que equilibra a demanda e oferta por poupança.

Em bom português: O preço do dinheiro em uma economia é determinado pela oferta e demanda por poupança.

Assim como as empresas e cidadãos que querem investir e pegar empréstimos (poupança de outras pessoas e empresas), o governo também pega dinheiro emprestado para financiar sua estrutura de gastos.

Logo quanto maior a competição pelo dinheiro e uma oferta pequena, a taxa de juros que equilibra oferta e demanda por poupança, terá de ser elevada. É exatamente isso que acontece no Brasil.

O Brasil é um país com baixa taxa de poupança quando comparado a outros pares, segundo dados do World Economic Outlook do Fundo Monetário Internacional. Poupamos insuficientemente, precisamos pegar um pouco emprestado do resto do mundo para equilibrarmos o nosso mercado de poupança. Como resultado temos uma taxa de juro muito elevada.

Agora vamos retornar a questão dos gastos do governo, depois desse interlúdio explicando o mercado de poupança.

O governo brasileiro é um agente econômico ávido por poupança. Como o governo tem sido fiscalmente irresponsável e tem uma estrutura de gastos muito pesada, ele precisa disputar no mercado de poupança para ter dinheiro o suficiente para cumprir com suas obrigações.

Em momentos de sucessivos déficits fiscais, como agora, o governo precisa fechar o rombo. Logo ele vai ao mercado de poupança e pega emprestado. Ele faz isso emitindo títulos do tesouro nacional. Os mesmos títulos que você investidor pode comprar via tesouro direto.

Como o governo é o governo, todo poderoso criador de impostos e autoridade máxima, o seu risco de calote é mais baixo do que o das empresas e cidadãos. Pois em um caso extremo, o governo pode pedir para o Banco Central rolar sua dívida, via emissão de moeda (imprimindo dinheiro literalmente) e assim não dar calote.

Como não é novidade para você, o governo gasta muito e gasta mal.

Logo ele distorce todo o mercado de poupança nacional. Como a poupança brasileira é baixa, e o governo precisa de muito dinheiro e ele tem um risco baixo, então os poupadores optam por emprestar para o governo. Para competir com o governo, os demais participantes do mercado de poupança precisam pagar uma taxa de juros mais alta, pois possuem risco maior. Caso não paguem uma taxa de juros mais elevadas, empresas e cidadãos não conseguiriam captar os recursos que necessitam.

O governo é um competidor feroz no mercado de poupança, prejudicando cidadãos e empresas que precisam do dinheiro para fazerem investimentos que geram empregos e renda para o país.

O agravante desse problema é que o investimento público é baixo, o que indica que o governo está gastando o que pega emprestado para pagar outras coisas, como salários, previdência e não investimentos. O dinheiro do governo não retorna para economia como emprego, renda e por consequência mais poupança.

Logo, é seguro apontar o governo como um dos responsáveis pelas altas taxas de juros do Brasil. O problema dos juros altos no Brasil não é um problema restrito ao Banco Central, e sim do governo, que precisa de muitos recursos e acaba por distorcer todo o mercado de poupança do país, fazendo que os juros sejam pressionados para cima.

Victor Candido Victor Candido

Economista

Mestrando em economia pela Universidade de Brasília - UnB. Já trabalhou no mercado financeiro na área de pesquisa e operações. Foi pesquisador do CPDOC da Fundação Getúlio Vargas. É formado em economia pela Universidade Federal de Viçosa.

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