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Comércio, crescimento e a procura por ouro?

Segundo dados divulgados nesta semana pela CPB World Trade Monitor, o volume global de comércio recuou 1.3% em setembro, na comparação com o mês anterior. A queda veio após dois meses de crescimento, e parece diminuir o otimismo daqueles que contavam com uma recuperação do comércio global. Aliás, quando a base de comparação é o mesmo período do ano anterior, o volume de comércio global contraiu pelo quarto mês consecutivo segundo dados de setembro (veja o gráfico a seguir) – a pior sequência desde a crise financeira de 2009. Neste contexto, parece difícil sustentar a argumentação de que o pior da “guerra comercial” ficou para trás, e colocar as fichas num suposto acordo duradouro entre EUA e China. Acreditar na virada do comércio e do crescimento no exterior parece ainda arriscado, no mínimo. A procura pelo ouro (e o seu desempenho nos últimos meses) é a prova de que a confiança no futuro não é tão grande assim.

Embora a piora da relação comercial entre EUA e China seja o grande “culpado” pela contração dos volumes de comércio global reportados pela CPB World Trade Monitor (o comércio bilateral entre estes países apresenta uma retração num ritmo superior ao de dois dígitos desde o final de 2018!), a verdade é que a deterioração do comércio internacional é bastante disseminada. Também impactada pela China, o comércio da Ásia emergente, por exemplo, recuou mais de 3% em setembro, comparado com setembro de 2018. Não há como ignorar tais incertezas. Para os analistas da CPB World Trade Monitor, mesmo que a relação entre EUA e China melhore e o comércio internacional se estabilize no final deste ano, será difícil vermos uma recuperação em 2020.

Os números mais fracos sobre comércio internacional corroboram a preocupação recente do FMI. Em outubro, a projeção oficial da instituição para o crescimento do PIB global deste ano era de apenas 3.0%, bem abaixo dos 3.8% estimados no início de 2017, por exemplo. Se terminar assim, este terá sido o pior ritmo desde a crise de 2009. Para 2020, o FMI prevê um crescimento de 3.4% — um número que, de acordo com o último relatório oficial, dependia não só da melhora do comércio internacional, mas também do crescimento de países como Turquia e Argentina. Para os “quatro grandes” (EUA, China, Zona do Euro e Japão), vale lembrar: o FMI não espera melhora nos próximos cinco anos. Ou seja: será possível que o resto dos países cresça se estes “grandes” continuarem mostrando entraves ao seu crescimento?

Neste cenário, o ouro é um ativo que tem chamado a atenção de muitos investidores, receosos com as projeções menos animadoras e os riscos internacionais dos mais diversos. O famoso Ray Dalio, por exemplo, assustou a muitos quando, numa conferência recente do Institute for International Finance, disse que poderia haver uma corrida ao ouro por conta de uma preocupação sobre a situação fiscal dos EUA (um tema que está no radar, embora pareça um tanto quanto exagerado em alguns momentos). Mais: até bancos centrais têm falado da commodity. O De Nederlandsche Bank, por exemplo, chegou a dizer: “se o sistema entrar em colapso, o estoque de ouro poderá servir de base para sua reconstrução”, como se fosse uma “defesa” contra o argumento de que o ouro não seria um ativo interessante para se ter. Num período de 12 meses, vale notar: o ouro já sobe aproximados 20%, e chegou a subir mais de 25% se considerarmos o seu desempenho até o início de setembro.

Por algumas semanas, o desempenho das bolsas chegou a arrefecer as preocupações com o crescimento global. Nos EUA, o índice S&P 500 bateu há poucos dias um novo recorde de alta – a vigésima vez que isto acontece em 2019. Com isto, e assim como o ouro, o índice já sobe mais de 20% em 2019, uma das melhores performances nas últimas três décadas. Mas é intrigante que ativos com características tão distintas tenham desempenhos tão parecidos (e tão positivos). Os números de comércio – e as projeções ainda pessimistas para o crescimento global – nos lembram de que é preciso fazer uma análise mais abrangente do cenário econômico, e não apenas considerar as bolsas como o único e infalível “termômetro” do cenário internacional. Nos dias de hoje, não é fácil encontrar uma única e convincente narrativa para aquilo que temos visto nos mercados mundo afora.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE) e em Finanças pela Barcelona Graduate School of Economics (BGSE). Graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Entre 2013 e 2018, atuou como economista da Guide Investimentos, cobrindo o mercado doméstico e os internacionais, e sendo um dos responsáveis do asset allocation dos clientes. Desde 2018, atua como consultor Guide Investimentos, cobrindo principais eventos do cenário internacional e escrevendo artigos semanais para o blog.

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