Centrão: De Onde Veio e para Onde Vai

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Durante os inúmeros embates que ocorreram entre o presidente Bolsonaro e o Legislativo desde janeiro, um nome sempre esteve em evidencia: o Centrão. O agrupamento de partidos, que compartilha pouca ideologia e geralmente se reúne em torno da transferência de recursos federais aos seis eleitorados, tem determinado o desfecho de todos os votos contenciosos que ocorreram neste ano. Sem o aval, ao mínimo parcial, da aglomeração partidária, o presidente não aprova nada em Congresso.

A aderência ao grupo está em constate fluxo, mas o núcleo é composto por PP, PR, PSD, PRB, PSC, PTB, SD, PHS, PROS, PTN, PEN, PTdoB e às vezes conta com aderência do DEM, PMDB e PCdoB, entre outros. Incluindo os últimos três partidos, o grupo conta com 288 integrantes na Câmara, ocupando a maioria (57%) das cederias do colegiado com 513 cadeiras.

Dito isso, o Centrão não foi uma resposta ao novo chefe do Executivo. O conceito existe na política Brasileira pelo menos desdá Assembleia Constituinte de 1987-1988, que elaborou a Constituição brasileira atualmente em vigor, dando um fim definitivo ao regime militar. Essa iteração original do grupo, que integrava as siglas PMDB, PFL, PTB e o PDS, tinha cunho ideológico.  Os membros do agrupamento apoiavam a candidatura do presidente José Sarney e defendiam o modelo presidencialista, enquanto a ala que os oporiam defendia Ulysses Guimaraes e o sistema parlamentarista.

O Centrão registrou sua primeira vitória em Plenário na terça-feira, 23 de março de 1988, ao derrotar os parlamentaristas por 343 votos contra 212, por um placar muito mais amplo do que era esperado, segundo a matéria publicada na capa do dia seguinte do jornal Folha de São Paulo – prova cabal que a imprevisibilidade do grupo é marca registrada de longa data.

O conceito do Centrão se reergueu mais recentemente, como fruto da articulação do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, que liderou a casa durante o impeachment, antes de ser preso em agosto pela Operação Lava-Jato. Na ocasião, um astuto líder congressista concentrou e direcionou o desagrado do Congresso, colocando a petista na mira dos parlamentares. A presidente foi desposta, em parte, por que não sustentou o apoio da nova reencarnação do grupo, que tende a crescer quando o Executivo se enfraquece.

A inexperiência do presidente Bolsonaro, além da sua indisposição diante da distribuição dos ministérios, despertou o Centrão, que decidiu se posicionar como oposição, impedindo que importantes medidas do governo fossem pautadas. Como resultado, medidas provisórias que geralmente são aprovadas sem a necessidade de grande empenho pela parte do governo, se tornaram proposituras contenciosas que ameaçavam expirar e criar sérias dificuldades orçamentárias para um governo recém-formado. Imponderado diante do Executivo pelo impeachment relativamente recente de Dilma Rousseff, o Centrão decidiu testar o capitão da reserva.

Porém, depois de manifestações realizadas pela base eleitoral do presidente, o Centrão titubeio. Com medo de ser largado na mesa sozinho com a conta do desastre econômico que viria sem a aprovação das várias mediadas do governo, os congressistas reagiram para garantir que o Congresso não poderia ser culpado pelo acirramento da estagnação econômica que atinge o Brasil.

Ao mesmo tempo, o DEM realizou uma convenção partidária onde tentou se distanciar do rótulo, que aos poucos assumi conotação pejorativa, e se aproximar do presidente. Ronaldo Caiado, governador de Goiás, se dirigiu diretamente ao presidente e declarou o seu apoio ao governo Bolsonaro.

Rodrigo Maia, demista que preside a Câmara dos deputados, também se aproximou do Bolsonaro após as demonstrações. Porém, como líder da Câmara, Rodrigo não pode se acercar do Executivo, batendo no próprio colegiado que preside. Enquanto seu partido se afasta do Centrão, o presidente do legislativo trabalha para melhorar a imagem do grupo que, segundo ele, serão vistos como heróis na história: os que salvaram o Brasil do colapso social.

Em vista de vitórias recentes do Governo, como no caso da MP 871/19, que gera economia de 10 bilhões/ano para o governo reduzindo fraudes na Previdência, o Centrão demonstrou ter perdido o apetite para testar a influência do Executivo e aparenta estar mais disposto a seguir sua liderança, principalmente em relação às pautas econômicas que compõem uma série de pré-requisitos para a retomada da economia.

O Centrão de hoje tem pouco a ver com o grupo que garantiu a instalação do regime presidencialista em 1988. O grupo é, na verdade, um termo que descreve uma aglomeração de partidos que se posiciona, a favor ou contra o presidente, de acordo com a autoridade e grau de empoderamento do Executivo.

Caberá ao presidente Bolsonaro não demonstrar fraqueza diante do Congresso, que só respeita a autoridade de líderes do Executivos com amplo apoio democrático. A ausência de norte ideológico torna o Centrão mais volátil em momentos contenciosos e mais maleável em momentos de forte influência do Executivo.

Agora, aguardamos a reação do Centrão diante da reforma da previdência. Os parlamentares do grupo aparentam defender a necessidade de uma reforma, mas não existe consenso em torno do montante que deve ser poupado. Durante a votação da reforma na Câmara, a influência do presidente sobre o agrupamento de partidos passará o seu teste mais árduo desde que foi instalado. O apoio do Centrão diante uma reforma robusta, pode estabelecer o tom do relacionamento entre o Executivo e Legislativo durante ao governo Bolsonaro.

 

Conrado Magalhães Conrado Magalhães

Analista Político

Formado em ciências políticas pela universidade Marymount Manhattan College (NY-EUA), com pós-graduação em administração pelo Insper. Possui cinco anos de experiência no ramo de consultoria política como analista da Arko Advice e agora é o analista político da Guide Investimentos.

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