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Cenário macro melhorou, mas…

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Melhorou. Os dados recentes de atividade econômica ao redor do mundo têm desafiado as projeções mais negativas que até há pouco tomavam conta dos analistas. E não precisamos voltar muito no passado para ter uma ideia do contraste entre “projeções” e “realidade”. Em abril, por exemplo, o FMI alertava que o momento era “delicado” e que uma recuperação a partir de 2020, se viesse, seria “precária”. Naquele momento fazia sentido a visão mais negativa: tensões comerciais entre EUA e China e a perspectiva de normalização da política monetária em diversas economias avançadas eram “riscos” óbvios para qualquer analista minimamente atento. Hoje, no entanto, os mercados parecem ignorar tais riscos. O “curto prazo” é dos otimistas. Mas vale apostar na continuidade deste movimento?

A Zona do Euro acelerou no início de 2019, segundo dados preliminares divulgados na semana passada. O PIB cresceu 0.4% no primeiro trimestre, após 0.2% no último trimestre de 2018, segundo a Eurostat. A Itália, puxada pelo comércio internacional, saiu da recessão, e cresceu 0.2% neste início de ano (interrompeu, portanto, a sequência de dois trimestres consecutivos de PIB negativo). Países como França e Espanha cresceram 0.3% e 0.7%, respectivamente. Na Alemanha, embora não tenha sido divulgado o PIB do primeiro tri (sairá na próxima semana), a indústria tem mostrado boa resiliência, sugerindo que a economia pode surpreender de forma positiva. Para os alemães — e o resto da Zona do Euro — será uma ótima notícia. Vale lembrar que o país teve uma contração de PIB no terceiro trimestre de 2018, e quase entrou em recessão no final do ano passado.

Antes da divulgação dos dados europeus, surpresas quanto aos números de atividade de China e EUA também surpreenderam para cima. Na comparação com o primeiro trimestre de 2018, a China cresceu 6.4%, o mesmo número anterior, e marginalmente acima dos 6.3% esperados pelo mercado. Muitos esperam que os estímulos do governo também contribuam para um bom desempenho nos próximos trimestres, deixando para trás a impressão negativa após dados anteriores terem mostrado que a produção industrial recuou expressivos 14% em janeiro e fevereiro (frente aos mesmos meses de 2018). Nos EUA, os dados de curto prazo também foram animadores: o PIB cresceu mais do que o esperado nos primeiros três meses deste ano e dados do mercado de trabalho acabam de apontar para uma economia ainda bastante aquecida.

No entanto, as tensões comerciais entre EUA e China voltaram à tona. O alívio quanto aos dados de crescimento que faziam os mercados operarem em alta ao redor do mundo foi interrompido. As ameaças de Trump foram um lembrete àqueles que, de forma rápida, esqueceram os riscos de médio prazo, ainda presentes. É possível que, até o final desta semana, os mercados tenham mais informações sobre os desdobramentos da guerra comercial e é também bastante possível que os EUA decidam não implementar as tarifas. Afinal, é razoável supor que nem os EUA e nem a China se beneficiarão de uma interrupção do comércio internacional.

Independente da resolução adotada entre EUA e China, a verdade é que alguns estragos já foram feitos: o índice acionário chinês CSI 300 voltou aos níveis de início de março; e os índices de Europa e EUA testaram os níveis do início de abril, por exemplo. À espera de uma postura mais amena de Trump nas próximas conversas, os mercados não precificam uma escalada das tensões. Pelo contrário. Desta forma, tudo parece indicar que os estragos devem ser muito maiores à frente se ambos os lados partirem para mais retaliações. Esta assimetria também ajuda a explicar uma volatilidade nos EUA que não se descolou muito da sua média de longo prazo, por exemplo. Não se engane: o cenário macroeconômico melhorou no curto prazo, porém, o médio prazo segue “delicado”.

Ignacio Crespo Ignacio Crespo

Economista

Mestre em Economia pela Fundação Getúlio Vargas (FGV/EPGE), e graduado em Ciências Econômicas pelo INSPER. Foi professor assistente do Mestrado Profissional em Economia do INSPER, ministrando aulas sobre Macroeconomia e Política Monetária. De 2013 até agosto de 2018 atuou como economista da Guide Investimentos. Desde então, atua como consultor externo da Guide.

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